Sr. Ângelo Gama, a sua trajetória no setor de ICT e infraestrutura digital, aliada à sua liderança da Angola Cables desde 2020, tem sido marcada por avanços significativos. Poderia definir os marcos que definem a evolução da Angola Cables e as linhas estratégicas que sustentam a vossa posição de referência no ecossistema de telecomunicações até hoje, tanto em Angola quanto no mercado global?
Ângelo Gama: Boa tarde. Quando olhamos para a trajetória da Angola Cables, o que realmente nos distingue é a qualidade de serviço. A infraestrutura é fundamental, mas não é suficiente por si só. A maneira como entregamos nossos serviços – confiável, segura e eficiente – é o que nos posiciona de forma diferenciada, sobretudo num mercado global altamente competitivo, onde atuamos lado a lado com os maiores hyperscalers do mundo.
Temos concorrentes de peso, algumas das maiores empresas de wholesale de cabos submarinos globalmente, mas conseguimos consolidar a presença de uma empresa africana nesses mercados graças à nossa excelência operacional, foco no cliente e capacidade de inovação. Nos últimos quatro a cinco anos, desde que assumi a liderança, tivemos um crescimento consistente, demonstrando que a estratégia adotada é sustentável.
Hoje, a Angola Cables possui mais de 30 pontos de presença global, cinco subsidiárias operacionais e uma sexta em preparação. Um princípio estratégico que sempre seguimos é o de “presença global, negócio local”. Reconhecemos que o nome Angola Cables abre portas, mas o atendimento próximo e personalizado é que gera valor real. Operar em moeda local, com equipes capacitadas localmente e com autonomia para decisões rápidas, nos permite evitar a burocracia de grandes corporações internacionais e, simultaneamente, entregar soluções sob medida para cada cliente.
Em resumo, os marcos da Angola Cables incluem: crescimento contínuo, expansão estratégica, presença global com operação local, excelência em qualidade de serviço e inovação constante, fatores que nos mantêm competitivos e reconhecidos globalmente.
Considerando que esta edição está focada na inovação, quais são as suas prioridades para promover a inovação tecnológica dentro da Angola Cables e a presença global da empresa?
Ângelo Gama: A inovação está no nosso DNA. O setor de telecomunicações está cada vez mais se tornando uma commodity: muitos produtos são parecidos, e a competição muitas vezes se dá apenas pelo preço. Para evitar que a Angola Cables entre em uma guerra de preços – que é prejudicial para o mercado e para todas as partes envolvidas – precisamos inovar constantemente.
Nossa estratégia de inovação vai além de tecnologia pura. Queremos diferenciação por valor agregado, colocando “a cereja no topo do bolo” em cada serviço que oferecemos. Mesmo diante de um cenário de depreciação de preços no mercado wholesale de até 20% ao ano, crescemos porque entregamos serviços de alta qualidade e soluções inovadoras que realmente resolvem problemas dos clientes.
Priorizamos iniciativas que impactem diretamente a experiência do usuário, como integração de plataformas cloud, automação de serviços e otimização de conectividade, permitindo que clientes locais e globais acessem serviços de forma ágil, eficiente e segura.
Como a Angola Cables integra os seus sistemas de cabos submarinos, Data Centers Tier III e IXPs para oferecer soluções digitais e de cloud de alta performance ao longo do corredor Atlântico?
Ângelo Gama: Nossa rede de cabos submarinos é estratégica para conectar África às Américas e ao resto do mundo. Temos o SACS, que liga Angola ao Brasil, e o Monet, que conecta São Paulo a Miami. Estes cabos formam um corredor de alta performance que garante resiliência, baixa latência e redundância, essenciais para empresas que dependem de conectividade confiável. Quando há interrupções em outros cabos na costa oeste africana, nossa infraestrutura redundante garante continuidade de serviço para Angola e para os países vizinhos.
Os data centers Tier III, localizados em Angola e no Brasil, são totalmente operacionais e seguem padrões internacionais de confiabilidade e segurança. Com parcerias estratégicas com Microsoft, Starlink e outros players globais, conseguimos fornecer soluções de cloud e serviços digitais de alta performance.
A Cloud2Africa, desenvolvida internamente, é projetada para atender empresas em moeda local. Oferecemos tanto self-service, para clientes que buscam autonomia, quanto suporte completo para clientes corporativos que necessitam de gestão integral de suas instâncias. Além disso, disponibilizamos plataformas digitais que automatizam a criação de websites para pequenas e médias empresas, incluindo domínio, IPs e serviços complementares, totalmente integrados na cloud.
Nosso objetivo é criar um ecossistema digital completo, combinando conectividade, data centers e cloud, permitindo que clientes tenham experiência global, mas com operação e suporte local, fortalecendo a economia digital africana e promovendo soberania tecnológica.
Segundo a TeleGeography, a largura de banda internacional para a África deve crescer cerca de 42% até 2029. Em 2022, a Angola Cables lançou a Cloud2Africa. Como acredita que esta iniciativa irá transformar, promover soberania digital, inovação tecnológica e crescimento sustentável nos próximos anos?
Ângelo Gama: A Cloud2Africa é uma iniciativa estratégica que visa garantir soberania digital, eficiência de rede e crescimento sustentável. Ela permite que empresas em África e no Brasil acessem cloud de alta performance pagando em moeda local, algo que ainda não é oferecido de forma consistente pelos grandes players globais.
Estamos expandindo a Cloud2Africa de forma pan-africana, operando para além de Angola, Africa do Sul, já nas Maurícias, Nigéria e com expansão planejada para outros países. A integração com nosso Internet Exchange (IX) garante conectividade de baixa latência e proximidade com os clientes, reduzindo custos e aumentando a confiabilidade.
Além do impacto tecnológico, a Cloud2Africa cria oportunidades de desenvolvimento econômico e capacitação local, permitindo que empreendedores e empresas se integrem à economia digital global de maneira sustentável. Essa iniciativa promove inovação, inclusão digital e cria uma base tecnológica sólida para o crescimento futuro do continente.
A vossa expansão regional através de parcerias estratégicas fortalece a interconexão. Quais destacaria como as principais vantagens competitivas da Angola Cables e que oportunidades isso gera para o ecossistema digital angolano?
Ângelo Gama: Nossa rede oferece conectividade de baixa latência, presença global com operação local e inovação constante, complementadas por parcerias estratégicas com DE-CIX, Megaport e MEO. Com mais de 4.000 sessões de peering, garantimos acesso direto aos principais provedores de conteúdo global, fortalecendo nossa competitividade.
A expansão regional cria oportunidades significativas para o ecossistema digital angolano: fortalece pequenos provedores, aumenta a concorrência saudável, amplia o acesso à internet de qualidade em áreas remotas e gera emprego e crescimento econômico. Também promove capacitação digital, impulsionando novos negócios, serviços digitais e inovação local.
Riscos existem, especialmente com a entrada de players que competem apenas pelo preço, o que pode desestabilizar o mercado. Mas, ao mesmo tempo, as oportunidades em inovação, parcerias estratégicas e expansão regional permitem oferecer soluções que grandes players globais ainda não conseguem fornecer em moeda local ou com presença física direta.
A Angola Cables mostra grande compromisso com sustentabilidade e responsabilidade social. De que forma estes projetos refletem a visão da empresa sobre práticas ESG e o impacto que pretende gerar no longo prazo?
Ângelo Gama:Temos iniciativas como o Internet Verde no Brasil, que garante energia limpa para toda a cadeia de valor, desde os cabos, data centres até os clientes finais. Em Angola, priorizamos o uso de energia hidroelétrica renovável sempre que possível.
Programas como o AceleraNet e Acelera Cloud apoiam pequenos ISPs e empreendedores digitais em áreas remotas, aumentando a concorrência, melhorando a qualidade da internet e promovendo inclusão digital. Paralelamente, o Talent Seeds forma jovens engenheiros e profissionais digitais, preparando-os para atuar no mercado global e fortalecer o ecossistema tecnológico local.
Essas iniciativas refletem nosso compromisso com desenvolvimento humano, responsabilidade social, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental, visando impacto positivo de longo prazo para Angola, África e América Latina.
Num mercado tão competitivo como a África Ocidental, que fatores considera decisivos para que a Angola Cables continue a destacar-se?
Ângelo Gama: O diferencial da Angola Cables está em performance de rede, posicionamento geoestratégico, parcerias internacionais e eficiência operacional. Nossa conectividade direta com provedores de conteúdo globais, inovação em cloud e serviços digitais, e expansão regional estratégica nos permitem competir de forma diferenciada, sustentável e com alto valor agregado, sem entrar em guerras de preço que podem prejudicar o mercado.
Além disso, acreditamos que proximidade com o cliente, suporte personalizado e presença local em mercados estratégicos são fatores cruciais para manter liderança e relevância em África Ocidental e globalmente.