1.A Barbot é uma empresa com mais de um século de história, fundada em Portugal e expandida para Angola em 2006. Na sua perspetiva, quais foram os marcos mais significativos na trajetória da empresa no mercado angolano e de que forma contribuíram para a sua posição atual?
Sr. João:
A Barbot é uma empresa familiar com origens que remontam ao início do século XX, tendo sido fundada em Portugal. Ao longo das gerações, a empresa foi evoluindo e consolidando a sua posição no mercado português, tornando-se um dos principais players da indústria de tintas.
O primeiro grande marco na nossa internacionalização foi precisamente a entrada em Angola, em 2006. Na altura, tomámos a decisão estratégica de não apenas exportar, mas de investir diretamente no país, criando uma operação local de raiz. Foi também a primeira vez que a empresa se expandiu para fora de Portugal, o que representou um passo muito significativo na história do grupo.
Começámos com a instalação de uma unidade produtiva no Cazenga, com o objetivo claro de fabricar localmente e desenvolver o mercado angolano de tintas. Desde o início, percebemos que Angola apresentava um enorme potencial, impulsionado pelo crescimento acelerado do setor da construção e pela necessidade de infraestruturas e habitação.
Um segundo marco importante ocorreu logo em 2007, quando iniciámos efetivamente a produção local. Foi um momento simbólico, pois representou a primeira produção de tinta da Barbot fora de Portugal. Esse passo permitiu-nos ganhar maior controlo sobre a qualidade, reduzir custos logísticos e, sobretudo, adaptar os produtos às especificidades do mercado angolano.
À medida que o negócio crescia, identificámos também desafios operacionais, como as dificuldades de mobilidade nas principais cidades. Isso levou-nos a investir na criação de uma rede de lojas próprias em várias províncias do país. Este foi outro marco importante, pois permitiu aproximar a marca dos clientes, melhorar o serviço e expandir a nossa presença comercial a nível nacional.
Paralelamente, fomos diversificando a nossa base de clientes, passando a atuar não apenas em grandes projetos de construção, mas também junto de clientes particulares, empresas de pintura, revendedores e outros segmentos. Esta diversificação contribuiu para tornar o negócio mais resiliente e abrangente.
Outro aspeto relevante foi a aposta na produção local em larga escala. Apesar das limitações do país ao nível de matérias-primas, conseguimos estruturar uma cadeia de abastecimento internacional, importando componentes de vários mercados e realizando todo o processo de produção em Angola. Hoje, cerca de 95% dos produtos que comercializamos no país são produzidos localmente, o que demonstra o nosso compromisso com a economia nacional.
Mais recentemente, destacaria também a transição para uma nova unidade industrial em Viana, que representa uma evolução natural do crescimento da empresa e um reforço da nossa capacidade produtiva.
Desde a entrada no mercado angolano em 2006, a Barbot Angola – Indústria de Tintas, Lda investiu na criação de uma plataforma local de fabrico e distribuição em Luanda, incluindo a construção de uma unidade de produção. Poderia partilhar alguns dos indicadores operacionais mais recentes da empresa, como a capacidade atual de produção, volumes anuais de vendas, número de lojas e colaboradores em Angola, bem como a dimensão dos investimentos realizados para expandir a produção, a logística e a inovação de produtos no país?
Sr. João:
Desde a nossa chegada ao mercado angolano, temos apostado fortemente na produção local e na expansão da nossa presença no país.
Inicialmente, a nossa unidade produtiva tinha uma capacidade de cerca de 12.000 toneladas de tinta por ano. Atualmente, com a nova fábrica em Viana, conseguimos atingir uma capacidade de produção na ordem das 25.000 toneladas anuais.
Em termos de estrutura, contamos atualmente com cerca de 14 lojas distribuídas por várias regiões do país, incluindo Luanda, Benguela, Lobito, Lubango e Huambo. Também conseguimos atender clientes em diferentes províncias através da nossa rede de distribuição.
A nível de recursos humanos, temos aproximadamente 80 a 90 colaboradores. Em termos de faturação, registamos um volume anual na ordem dos 5 a 6 milhões, embora estes valores possam variar devido às flutuações cambiais, que são um fator relevante no contexto angolano.
As parcerias desempenham um papel crucial na expansão global e no desenvolvimento tecnológico da Barbot. O grupo tem colaborado com fornecedores de tecnologia como a Generix Group para reforçar a sua especialização em revestimentos industriais e sistemas digitais de cadeia de abastecimento. Existem outras parcerias adicionais, seja com empresas de construção, distribuidores ou fornecedores de tecnologia, que possa partilhar conosco?
Sr. João:
O grupo Barbot é atualmente um grupo internacional com presença em vários países, incluindo Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Espanha. Além disso, temos operações de exportação para diversos mercados, como Argélia, Mali e Guiné.
O grupo inclui várias empresas complementares, como unidades industriais, empresas de pigmentos e soluções para construção. Isto permite-nos oferecer uma gama completa de produtos, desde tintas decorativas até soluções industriais e especializadas.
As nossas áreas de atuação incluem:
Esta diversidade permite-nos responder a diferentes necessidades do mercado, posicionando-nos como um dos grupos mais completos do setor.
A inovação tem sido um elemento central na evolução da Barbot. De que forma a empresa tem integrado novas tecnologias e soluções para melhorar a eficiência operacional e a experiência do cliente?
Sr. João:
A inovação é, sem dúvida, um dos pilares centrais da Barbot, e no contexto angolano assume um papel ainda mais relevante, porque exige uma forte capacidade de adaptação às condições locais — tanto climáticas como sociais e económicas.
Um dos exemplos mais diferenciadores é a tinta anti-malária, desenvolvida especificamente para mercados africanos. Ao contrário das tintas tradicionais anti-insetos, que atuam apenas quando o inseto entra em contacto com a superfície, esta solução cria um ambiente repelente no espaço interior. Ou seja, através de um composto inócuo para o ser humano, gera-se um odor impercetível para as pessoas, mas altamente eficaz para afastar o mosquito transmissor da malária, impedindo que este entre no ambiente. Trata-se de uma inovação com impacto direto na saúde pública, especialmente relevante em países como Angola.
Outro avanço importante está relacionado com a personalização de cores através do sistema Barbot Mix. Este sistema permite que qualquer cliente escolha uma cor específica — seja de um catálogo próprio, de uma marca concorrente ou até através da leitura de uma cor existente numa parede — e obtenha essa cor em poucos minutos. Isto é possível graças a sistemas automatizados de dosagem de corantes, que garantem precisão, consistência e rapidez. Esta tecnologia não só melhora a experiência do cliente, como reduz a necessidade de stock de cores pré-fabricadas.
A empresa também tem vindo a desenvolver soluções orientadas para as necessidades práticas do consumidor local. Um exemplo disso é a tinta Easy Clean, que permite a remoção de manchas apenas com um pano húmido. Este produto responde diretamente a uma necessidade frequente das famílias, especialmente em ambientes com crianças, onde a manutenção das paredes é um desafio constante.
Adicionalmente, a Barbot está a introduzir uma nova geração de produtos, como a tinta 2 em 1 (primário + acabamento), que elimina a necessidade de aplicar diferentes camadas de produto. Esta solução reduz custos, tempo de aplicação e complexidade do processo de pintura, sendo particularmente relevante num mercado onde muitas vezes se utilizam métodos informais ou menos eficientes, como a aplicação de tintas de baixa qualidade como base.
No domínio da construção sustentável, a empresa tem investido em sistemas de isolamento térmico, que ajudam a reduzir a transferência de calor entre o exterior e o interior dos edifícios. Em Angola, onde as temperaturas são elevadas, estas soluções permitem diminuir o uso de ar condicionado e, consequentemente, reduzir o consumo energético.
Para além disso, a Barbot tem vindo a desenvolver produtos altamente especializados para diferentes setores, incluindo:
Outro aspeto importante da inovação está na adaptação dos produtos às condições climáticas locais, como elevada exposição solar, humidade e variações térmicas. Isso implica o desenvolvimento de fórmulas mais resistentes e duráveis, garantindo maior longevidade dos revestimentos.
Por fim, a empresa também aposta na inovação sensorial e diferenciadora, incluindo a possibilidade de desenvolver tintas com fragrâncias específicas para aplicações em hotéis, espaços comerciais e ambientes personalizados.
Em resumo, a inovação na Barbot não se limita à tecnologia em si, mas está profundamente ligada à capacidade de compreender o mercado local e desenvolver soluções práticas, eficientes e relevantes para o dia a dia dos clientes.
A sustentabilidade e a produção responsável estão a tornar-se prioridades fundamentais em toda a indústria global de revestimentos. Poderia aprofundar a estratégia ESG mais ampla da Barbot Angola, incluindo a forma como a empresa gere a responsabilidade ambiental, apoia as comunidades locais e assegura práticas de fabrico sustentáveis nas suas operações em Angola?
Sr. João:
A sustentabilidade não é apenas uma tendência para nós — é uma evolução natural da indústria e uma responsabilidade que assumimos a longo prazo. Grande parte desta estratégia nasce do trabalho desenvolvido nos nossos laboratórios em Portugal, mas é depois adaptada à realidade dos mercados onde operamos, incluindo Angola.
Se recuarmos 20 ou 25 anos, a maioria das tintas era produzida com base em solventes, o que implicava maiores emissões, odores intensos e um impacto ambiental mais significativo. Hoje, a nossa estratégia passa claramente por uma transição progressiva para produtos à base de água. Estes produtos são menos agressivos, mais seguros para os utilizadores e significativamente mais sustentáveis do ponto de vista ambiental.
Em Angola, temos vindo a aplicar essa mudança de forma consistente. Atualmente, grande parte das tintas decorativas que produzimos já são à base de água, reduzindo a dependência de solventes. Esta transformação não só diminui o impacto ambiental, como também melhora as condições de aplicação para os profissionais e clientes finais.
Ao nível da produção, também implementámos práticas que visam minimizar o desperdício. Um exemplo concreto é a forma como gerimos os processos de fabrico: conseguimos reaproveitar resíduos de produção e reutilizar a água dentro do próprio sistema, evitando descargas desnecessárias. Isto permite-nos reduzir significativamente o consumo de recursos e tornar a operação mais eficiente.
Outro ponto importante é o desenvolvimento de produtos mais ecológicos. Temos vindo a trabalhar em soluções que utilizam matérias-primas menos agressivas e que reduzem a necessidade de aditivos químicos tradicionais. Um exemplo disso são tintas que não utilizam bactericidas convencionais, mas que recorrem a mecanismos alternativos, como o controlo de pH, para evitar o aparecimento de fungos e bolores.
No entanto, é importante referir que ainda existe alguma resistência no mercado, especialmente em África, à adoção de produtos mais sustentáveis. Muitos profissionais continuam habituados a utilizar tintas à base de solventes, por questões culturais ou de hábito. Parte do nosso trabalho passa por educar o mercado e demonstrar que as soluções à base de água oferecem desempenho equivalente — ou até superior — com menor impacto ambiental.
Para além do impacto ambiental, também procuramos desenvolver produtos adaptados aos desafios específicos da região. Um exemplo relevante é a tinta anti-malária, desenvolvida para responder a um problema crítico em muitos países africanos. Trata-se de uma solução inovadora que cria um ambiente repelente para o mosquito, contribuindo para a proteção da saúde pública.
Do ponto de vista social, acreditamos que a sustentabilidade também passa pela forma como nos relacionamos com as comunidades. Procuramos envolver diretamente os nossos colaboradores e clientes em iniciativas sociais, criando uma ligação mais próxima entre a empresa e a sociedade. Em vez de uma abordagem puramente financeira, privilegiamos ações que gerem impacto real e proximidade com as pessoas.
Em resumo, a nossa abordagem ESG assenta em três pilares principais: redução do impacto ambiental através de produtos e processos mais sustentáveis, inovação orientada para desafios locais e compromisso com o desenvolvimento social das comunidades onde operamos. Ainda há caminho a percorrer, mas estamos claramente alinhados com a evolução global do setor e comprometidos com uma operação cada vez mais responsável.
Nos últimos anos, o Grupo Barbot tem investido significativamente em investigação e desenvolvimento, transformação digital e modernização das fábricas. Olhando para o futuro, quais são as principais prioridades estratégicas da Barbot em Angola? Existem planos de expansão ou novos investimentos?
Sr. João:
Os nossos planos de investimento para Angola passam, antes de tudo, por consolidar e expandir a nossa presença no mercado nacional. O nosso foco principal não é sair de Angola para outros mercados, mas sim crescer dentro do próprio país, reforçando a nossa posição e proximidade com os clientes.
Uma das nossas prioridades é continuar a investir em pessoas e formação, porque acreditamos que o sucesso de qualquer empresa começa pelos seus colaboradores. Estamos a trabalhar para melhorar continuamente o atendimento ao cliente, garantindo que cada pessoa que entra numa loja Barbot tenha uma experiência diferenciada, com um serviço mais próximo, personalizado e profissional.
Ao nível da expansão física, continuamos a apostar no aumento da nossa rede de lojas em diferentes províncias. O objetivo é tornar os nossos produtos cada vez mais acessíveis em todo o território nacional, acompanhando o crescimento do setor da construção e da procura por soluções de qualidade.
No campo da transformação digital, estamos a desenvolver iniciativas que visam modernizar a forma como interagimos com os clientes. Um dos projetos que pretendemos implementar em Angola é a criação de uma loja online, semelhante ao que já existe noutros mercados onde operamos. Isso permitirá que os clientes possam adquirir produtos de forma mais rápida e conveniente, com entregas diretas.
Em termos de inovação de produto, continuamos a lançar novas soluções adaptadas às necessidades do mercado angolano. Exemplos disso são produtos recentes como a tinta Easy Clean, que facilita a limpeza das paredes, e o desenvolvimento de uma nova tinta 2 em 1, que combina primário e acabamento num único produto, reduzindo custos e tempo de aplicação. Estes lançamentos refletem a nossa estratégia de simplificar processos e oferecer maior eficiência ao cliente.
Estamos também a investir em soluções mais técnicas e especializadas, incluindo produtos para isolamento térmico, revestimentos industriais e tintas adaptadas às condições climáticas locais, como elevada exposição solar e humidade.
Por fim, continuamos a apostar em iniciativas de responsabilidade social, envolvendo as nossas equipas e as comunidades locais, criando uma ligação mais próxima entre a empresa e a sociedade.
Como líder de uma empresa familiar com mais de 100 anos de história, quais são os valores e aprendizagens que mais marcaram a sua trajetória? Que legado gostaria de deixar um dia na Barbot?
Sr. João:
Eu faço parte da quarta geração da Barbot, uma empresa familiar com mais de 100 anos de história. No meu caso, a minha experiência em Angola foi determinante para moldar a minha forma de pensar e liderar.
Um dos maiores ensinamentos foi perceber a importância de adaptação ao mercado local. Não vim para Angola para impor um modelo ou ensinar como fazer, mas sim para compreender o contexto, a cultura e a forma de trabalhar das pessoas. Esse processo de integração foi essencial para o sucesso do negócio.
Outro valor fundamental é a proximidade com as pessoas. Acredito que as empresas são feitas por pessoas, e sem equipas motivadas, alinhadas e comprometidas, não é possível crescer de forma sustentável. Por isso, investir nas pessoas, ouvi-las e envolvê-las faz parte da minha forma de liderança.
Destaco também a importância de ter uma mente aberta e capacidade de adaptação, sobretudo quando se trabalha em diferentes países e realidades. Cada mercado tem os seus desafios e oportunidades, e é essencial saber ajustar a estratégia de forma contínua.
Por fim, acredito muito no trabalho, dedicação e união. Sendo uma empresa familiar, um dos principais legados que gostaria de deixar é precisamente esse: que as próximas gerações continuem unidas, comprometidas com a empresa e com os seus valores, mantendo sempre o espírito Barbot.
Sendo uma empresa familiar com várias gerações, acredito que o mais importante é garantir que, independentemente de quem venha a liderar no futuro, exista sempre um espírito de união e colaboração entre todos. Esse é um dos pilares que permitiu à empresa chegar até aqui.
Gostaria também que as próximas gerações continuassem a “vestir a camisola Barbot”, ou seja, que mantenham o mesmo nível de dedicação, responsabilidade e orgulho pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos.
No fundo, o legado que quero deixar não é apenas empresarial, mas também de valores:
Acredito que, mantendo estes princípios, a Barbot continuará a crescer e a adaptar-se aos desafios futuros, tal como fez ao longo da sua história.