1. Quais foram os marcos mais importantes no crescimento do GCC, e de que forma o grupo contribuiu para o desenvolvimento do sector privado em Angola?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: A minha origem empresarial tem 105 anos. Eu tenho 70 anos de idade, mas a atividade empresarial da minha família em Angola começou com o meu avô português, Amadeu Teixeira da Cunha.
De 1921 até quase 1972, a minha família foi uma das famílias de maior referência empresarial em Angola. Éramos produtores de sisal, café e gado. Fomos dos maiores empresários nesse período.
O meu pai já era euro-africano, filho de um europeu com uma africana, que era a minha avó. Daí nasceu também o meu gosto pela agricultura.
Depois, Angola teve 27 anos de guerra. Desde 1975, o país entrou em guerra e, durante esse período, não pudemos fazer agricultura. Tive então um percurso ligado à vida política, que abandonei em 1977. Depois fui funcionário público e dirigi a maior empresa de hotéis de Angola até 1984.
Entre 1984 e 1989, estive em Portugal a fazer a minha formação em gestão de empresas. Quando regressei de Portugal, alguns anos depois, Angola alcançou a paz em 2002.
Nessa altura, eu estava ligado ao ramo da distribuição alimentar. Formámos uma das maiores cadeias de alimentação de Angola, a Maxi, numa sociedade entre mim e o Grupo Teixeira Duarte.
Com a paz, preferi deixar a cadeia de distribuição com pessoas que continuam a ser minhas amigas até hoje e comecei a fazer aquilo que é a minha origem: a agropecuária.
Hoje somos um projeto de referência no agro, mas antes disso fomos desenvolvendo outros negócios. Um exemplo é a área imobiliária. Este prédio onde estamos faz parte desse percurso.
Neste condomínio temos seis prédios e temos mais um noutro condomínio. Em Luanda, temos sete prédios e cerca de 150 ativos imobiliários entre apartamentos e escritórios.
A nossa principal atividade neste momento é a agropecuária. Temos três fazendas em operação e outros projetos em arranque. Temos uma fazenda de fruticultura, somos o maior produtor de manga de Angola e já exportamos. Produzimos também citrinos, maracujá, abacate e ananás.
Somos também um produtor de referência de cereais, com milho, soja e feijão, e somos produtores de referência de gado bovino, caprino e ovino.
O Grupo tem como missão desenvolver soluções sustentáveis e inovadoras que impulsionem o crescimento económico de Angola. A nossa visão é ser um grupo de referência, reconhecido pela excelência, inovação e impacto social. Os nossos pilares são transparência, inovação, excelência, sustentabilidade, compromisso e impacto social.
2. Que números demonstram melhor a escala atual do GCC e a sua contribuição para a economia angolana?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: Hoje, a nossa atividade está muito concentrada na agricultura, mas o grupo tem uma base diversificada, com imobiliário e projetos ligados à vida rural.
Na área agropecuária, temos uma estrutura de fazendas que está a ser desenvolvida no Kwanza Sul. Temos três projetos em atividade e outros três em fase de arranque.
Atualmente, trabalhamos com a Fazenda Mulundo, ligada à agropecuária; a Fazenda Kanduma, ligada à fruticultura; e a Fazenda Angoma, que produz manga, café e abacate.
Em fase de arranque, temos a Fazenda Quindemba, dedicada ao abacate, com 1.000 hectares; a Fazenda Quila, dedicada ao café; e a Fazenda Mbango, dedicada a oleaginosas e cereais, com 5.000 hectares.
No conjunto, o projeto agrícola está estruturado para uma produção diversificada, sustentável e integrada. As áreas previstas abrangem aproximadamente 17.000 hectares úteis, distribuídos por culturas como cereais, hortícolas, pecuária, cachaça, manga, abacate, café arábica, frutas tropicais, citrinos, café robusta, abacate Hass e oleaginosas.
Temos também uma visão de expansão produtiva de longo prazo. Na Fazenda Mulundo, por exemplo, o sistema produtivo prevê ciclos de milho, soja, feijão e girassol, com utilização de sistemas de rega e rotação de culturas para aumentar a produtividade da terra.
As fotografias e os dados do projeto mostram também a ambição de expandir a capacidade de produção de culturas como laranja, limão, tangerina, ananás, manga, maracujá, uva de mesa, abacate e café, com parte da produção destinada à venda em fruta natural e outra parte destinada à transformação em sumos, polpas e óleos.
O objetivo é que o GCC seja não apenas produtor agrícola, mas também um agente de transformação, criando valor localmente e aumentando a capacidade produtiva de Angola.
3. Como pode o GCC ajudar a promover cadeias de valor mais produtivas, modernas e competitivas em Angola?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: Eu não acredito que África consiga organizar-se sem cadeias produtivas completas. O nosso problema em África não é produzir; é transformar.
A gente produz, mas não transforma. Enquanto for assim, África nunca vai sair deste subdesenvolvimento. A maior potência produtora de cacau do mundo é o Gana, mas a maior potência de comercialização de chocolate é a Suíça. Isso não pode continuar assim. O Gana tem de produzir cacau e tem de produzir chocolate.
Eu não posso continuar a ser apenas produtor de milho sem produzir fubá ou farinha de milho. Não posso continuar a ser produtor de manga sem produzir polpa de manga e sumo de manga.
Quando não se transforma, o tempo de vida útil dos produtos é muito curto. Se colho manga, tenho 20 dias para vender. Se transformo a manga em polpa, posso vender essa manga daqui a dois ou três anos. Se transformo em sumo, também posso vender daqui a dois ou três anos.
Quando não há transformação, temos de vender a manga a qualquer preço para não perder. A falta de indústria é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento africano.
Recentemente fomos à China e comprámos seis fábricas. Vamos ter uma moagem para produzir farinha de milho. Comprámos uma fábrica de polpa para fazer polpa de maracujá, ananás e manga. Vamos fazer polpa e sumos desses frutos, além da laranja. Também queremos produzir um fruto tropical e desidratar fruta, porque vamos ter um desidratador.
Vamos ter também uma extrusora de soja com refinadora. Não basta extrudir a soja; é preciso refinar. A extrusora compacta e espreme a soja, mas depois ela fica bruta e precisa de ser refinada.
Vamos ter extrusora, refinadora, despolpadora, desidratadora e fábrica de moagem. Também queremos produzir cachaça, aguardente de cana e, inclusive, um rum inspirado num dos melhores runs do mundo, que é o rum mexicano.
A inovação tecnológica é fundamental para este processo. No projeto agrícola, estamos a trabalhar com uso de drones, com previsão de quatro drones, produção de óleo de abacate, indução floral em manga e outras técnicas para melhorar a produtividade.
Na pecuária, temos inovação ligada ao BOI 777, com 70 hectares e mais de 500 animais, inseminação artificial, melhoramento genético e transferência de embriões. Também estamos a desenvolver sistemas de forragem e suplementação com culturas como BRS Capiaçu, Brachiaria, sorgo forrageiro, cana-de-açúcar e palha de milho.
A modernização agrícola não é apenas comprar máquinas. É organizar a produção, transformar localmente, formar técnicos, criar conhecimento e gerar valor onde antes havia apenas matéria-prima.
4. Que parcerias foram mais importantes para o GCC, e onde vê novas oportunidades para construir parcerias mais fortes em Angola?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: Neste momento, estamos a construir pontes com a Europa, com o Dubai e com a China.
A tecnologia que estamos a adquirir para o agro estamos a trazer do Brasil. Acabei de chegar do Brasil e, no próximo ano, vamos formar no Brasil 12 técnicos médios angolanos. Vamos enviar equipas de três pessoas, de três em três meses, para formação.
No domínio do ananás, estamos a estabelecer um acordo com o Brasil. No domínio do abacate, queremos estender o nosso acordo ao México, porque o México hoje produz mais abacate do que qualquer outro país. Queremos passar do Brasil para o México na área do abacate.
O México produz muito mais abacate do que o Brasil. O Brasil produz cerca de 20 mil toneladas, enquanto o México produz cerca de 200 mil.
As parcerias são fundamentais porque permitem trazer tecnologia, conhecimento, formação e mercados. Angola precisa de empresas privadas capazes de ligar a produção local aos mercados internacionais e ao investimento internacional.
5. Que ações concretas está o GCC a desenvolver para crescer de forma responsável, ao mesmo tempo que apoia uma produção mais sustentável em Angola?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: A industrialização tem um papel social muito forte.
Imagine um camponês, uma pequena família que produz fruta. Essa família, na sua pequena produção, talvez não consiga atingir uma qualidade suficiente para exportar ou vender o produto a um preço elevado. Mas pode ter qualidade suficiente para eu transformar.
A transformação permite-me comprar as produções das pequenas famílias e valorizá-las.
Outro projeto de grande dimensão que temos é o projeto das oleaginosas, como girassol e rícino, ou mamona, como se diz no Brasil. Temos um grande projeto de girassol. Nós preparamos as terras, o camponês faz os tratos culturais do produto e depois compramos a produção.
Isso vai permitir uma envolvência social muito forte das comunidades. A comunidade produz e nós compramos o produto.
O mesmo acontece com a parte industrial. Vamos adquirir produções locais. O camponês que produz milho vende-me. Quem produz café vende-me. Depois eu transformo.
Vamos ter uma fábrica de transformação de café. Vamos transformar milho, frutas, soja, café e outros produtos. Esta é uma forma de crescer de maneira responsável: integrar os pequenos produtores nas cadeias de valor, criar mercado para eles e reduzir a perda de produtos agrícolas.
A sustentabilidade, para nós, não é apenas uma palavra. O nosso maior sucesso é o impacto real que deixamos nas comunidades e na terra. Queremos produzir com sustentabilidade, gerar valor e contribuir para o desenvolvimento do país.
6. Como está o GCC a criar valor duradouro para as comunidades locais e a ajudar a fortalecer a capacidade produtiva de Angola?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: Temos um projeto muito importante relacionado com a educação.
Neste momento, estamos a desenvolver 10 escolas. Estamos a construir três escolas junto às nossas fazendas. Cada fazenda vai ter uma escola. Também queremos chegar a um acordo com o Estado para gerirmos sete escolas públicas, com apoio da Igreja Católica.
A Igreja Católica tem uma grande tradição no campo da educação no meio rural, e a educação no meio rural precisa de uma atenção muito especial.
Queremos ver se, no próximo ano, conseguimos ter 10 escolas a funcionar, envolvendo cerca de 9.650 estudantes.
O projeto educativo inclui construção de raiz, ampliação, reforma e reapetrechamento. Inclui também gestão direta de escolas próximas das nossas fazendas e gestão indireta com parceiros credíveis.
O objetivo é aumentar o número de salas de aula, beneficiar mais alunos e criar melhores condições para professores, incluindo residências. Os dados do projeto apontam para 107 salas de aula, 9.630 alunos beneficiados e 18 residências para professores.
Também desenvolvemos atividades desportivas e culturais com crianças e adultos. Temos equipas de futebol no meio rural, somos campeões rurais e juvenis de futebol, e temos grupos de dança.
Outro ponto muito importante são as estradas rurais. Para uma pessoa de fora, talvez isso não pareça tão importante, mas para nós é fundamental. Estamos a construir e reabilitar estradas de terra batida que dão acesso às nossas fazendas e beneficiam também as comunidades.
Temos, por exemplo, a estrada Luaty-Cambau, com 45 quilómetros construídos; o acesso Ebo-Angoma, com 15 quilómetros de acesso à nova fazenda; e a ligação estratégica Mulundo-Catoca, com 12 quilómetros.
Também temos projetos de energia nas comunidades. Em Catoca e Mulundo, os trabalhos estão concluídos. Em Cambau e Kanduma, há fornecimento com geradores enquanto se aguarda energia hidroelétrica. Em Hengo e Angoma, os projetos estão em execução.
Outra coisa muito importante são as lojas rurais. Há pessoas que tinham de andar 50 quilómetros para comprar um litro de óleo. Hoje, têm lojas próximas de casa. Isto não é o nosso negócio principal, mas serve as comunidades. Temos lojas rurais em Cambau e Mulundo já operacionais, e uma loja em Buêmbua em construção.
A minha mulher coordena o programa de sustentabilidade. Esse trabalho é muito importante porque liga a atividade empresarial ao impacto social, à educação, à energia, às estradas, às lojas rurais, ao desporto, à cultura e à melhoria das condições de vida.
7. Quais são as principais prioridades do GCC para expansão, investimento e criação de valor de longo prazo em Angola?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: Queremos ser o maior produtor de café e de abacate de Angola.
Temos um projeto de 1.500 hectares de café e 1.500 hectares de abacate. Queremos desenvolver essas áreas com tecnologia, formação, capacidade industrial e ligação aos mercados.
O futuro do GCC passa por reforçar a produção agrícola, transformar localmente, aumentar a capacidade industrial e reduzir a dependência de importações.
Também queremos desenvolver as nossas fazendas como fazendas âncora, capazes de envolver camponeses, gerar emprego, formar pessoas e criar cadeias produtivas completas.
A agricultura tem de deixar de ser apenas produção primária. Tem de ser produção, transformação, distribuição, exportação e impacto social.
Q8: Tendo em conta o seu percurso, de que conquistas mais se orgulha, e que legado gostaria de deixar para o sector privado angolano?
José Carlos Manuel de Oliveira Cunha: Fui, até fevereiro deste ano, presidente do Grupo Técnico-Empresarial. Liderava as 30 maiores associações empresariais de Angola.
Como fiz 70 anos, achei que devia deixar essa função para uma pessoa mais jovem e fizemos uma transição pacífica e amiga. Agora dedico-me mais às minhas próprias atividades.
Foi uma vida inteira dedicada a questões sociais e ao associativismo. Relativamente ao meu papel como conselheiro do Presidente da República, isso acontece por mandatos. Fui conselheiro no primeiro mandato e serei conselheiro no segundo mandato. Com o fim do mandato de Sua Excelência o Presidente, acredito que deixarei de ser conselheiro.
Também já deixei de ser coordenador do Grupo Técnico-Empresarial e acredito que também vou deixar de ser membro do Conselho Económico e Social. Sou o único em Angola que ocupou essas três funções: GTE, Conselho Económico e Social e Conselho da República.
Foi um percurso muito interessante. Dei muito de mim ao país. Inclusive, comecei a sentir que as minhas próprias coisas não andavam como eu queria, porque dedicava muito tempo a essas funções.
Aprendi muito cedo que, quando tratamos apenas das nossas coisas, não estamos no caminho certo. Temos de fazer sempre mais do que a nossa obrigação.
Não podemos apenas ganhar dinheiro. Temos de fazer atividade social. Não podemos pensar apenas na nossa empresa. Temos de estar no associativismo, na conciliação e na participação social.
Eu não milito em nenhum partido e não sou governante, mas tento fazer sempre o melhor que posso em termos de participação social. Seja no associativismo, seja como conselheiro do Presidente, procuro sempre fazer mais do que apenas o trabalho de ganhar dinheiro.
Agora, como vou deixar esses órgãos, quero dedicar-me mais à atividade social. Quero dedicar-me mais às crianças, às escolas, ao combate à pobreza extrema e ao envolvimento dos camponeses junto das nossas fazendas.
Quero converter as nossas fazendas em fazendas âncora enquanto tiver saúde. Acredito que o meu filho vai continuar esse trabalho.
O meu filho mais velho vai agora assumir o papel de CEO da empresa. Eu passarei a estar apenas como PCA. Ele tem 49 anos e representa a continuidade do projeto familiar e empresarial.
O legado que gostaria de deixar é esse: uma empresa capaz de produzir, transformar, criar valor, formar pessoas, apoiar comunidades e mostrar que o sector privado angolano pode ter impacto económico e social ao mesmo tempo.


































































































