Carlos, a Fortaleza Seguros foi fundada em 2016 e o Sr. é CEO desde 2022. Poderia partilhar a sua visão do que é hoje a Fortaleza Seguros, os principais marcos e as principais linhas para clientes individuais e corporativos?
Carlos F:Muito bem, obrigado pela pergunta. A Fortaleza Seguros é uma empresa jovem; vamos completar 10 anos em 2026. Desde 2022 que lidero a empresa como CEO, e a nossa visão é clara: queremos ser o melhor prestador de serviços de seguros em Angola, não necessariamente o maior, mas aquele que entrega qualidade em tudo o que faz.
O setor segurador em Angola ainda está subrepresentado. Em economias desenvolvidas e em desenvolvimento, o setor tem um peso muito maior no PIB, e aqui ainda estamos muito aquém desse potencial. Há vários fatores que explicam isso: primeiro, a literacia em seguros é baixa; muitas pessoas não entendem os benefícios que os seguros podem trazer para a sua vida e para os seus investimentos. Segundo, a distribuição de renda limita a capacidade das pessoas adquirirem seguros, porque há outras necessidades prioritárias que consomem seus recursos. Terceiro, o enforcement é baixo: existem seguros obrigatórios, mas as pessoas não sentem o impacto de não cumprir, como acontece com o seguro automóvel ou o seguro de acidente de trabalho. Apenas cerca de 15% dos automóveis têm seguro e apenas 5% das empresas registradas possuem seguro de acidentes de trabalho.
Podemos olhar para este cenário como copo meio-cheio: há muito espaço para crescer, muitas oportunidades ainda não exploradas. Mas também é um copo meio-vazio, porque é um problema estrutural da economia, que limita o desenvolvimento e a capacidade de absorver riscos para investimentos. O setor segurador é um pilar fundamental para o desenvolvimento econômico, pois só é possível investir de forma segura se houver mutualização de riscos.
Nós chegamos aos clientes individuais principalmente através do Banco Atlântico, em um acordo de Bancassurance, aproveitando seus 145 pontos de venda em todo o país. Também temos uma equipe própria de especialistas, além de corretores e mediadores, para garantir que possamos oferecer soluções personalizadas. Nosso foco é entregar serviço de qualidade, porque o cliente normalmente só nos procura quando já tem um problema. Nosso papel é minimizar o problema, não aumentá-lo, garantindo atendimento homogêneo, consistente e dedicado ao interesse do cliente.
No relatório anual de 2024, a Fortaleza Seguros registrou um grande crescimento, cerca de 20% nos prêmios brutos emitidos, com o seguro de saúde que vocês têm, que se chama Cuida, como foi o principal motor do vosso crescimento dentro da Fortaleza Seguros, num contexto desafiante marcado por inflação, a depreciação da moeda e a baixa penetração de seguros, como, por exemplo, da África está abaixo de 5% e a Angola que é apenas 1%, o que é relativamente muito mais. Quais foram os principais fatores internos, estratégicos, operacionais ou comerciais que permitiram alcançar este resultado e, olhando para 2025, que prioridades, iniciativas estratégicas estiveram definidas para sustentar o crescimento e fortalecer o papel do setor da economia do país?
Carlos F:Sem dúvida, já abordei algumas dessas questões na resposta anterior, mas posso detalhar mais. Quando chegamos à Fortaleza, nosso foco foi investir na estrutura interna da empresa, especialmente em 2022 e 2023. Criamos toda a arquitetura organizacional, políticas, regulamentos, manuais e sistemas internos. Também migramos para um novo sistema de contabilidade compatível com o novo plano de contas do setor, que foi um processo duro e complexo, mas essencial.
O pensamento estratégico foi: vamos fazer primeiro o trabalho estrutural e complexo, para que, nos anos seguintes, possamos abordar o mercado com mais capacidade, mais musculatura e maior eficiência. Isso nos permitiu que, em 2024, já tivéssemos um crescimento relevante, e para 2025 esperamos um crescimento três vezes maior, colhendo os frutos desses investimentos estruturais.
Além disso, fortalecemos nosso canal Bancassurance com o Banco Atlântico, que nos permite alcançar milhares de clientes individuais, garantindo estabilidade na receita. Paralelamente, expandimos os canais de mediação, aumentando nossa presença junto a grandes empresas. Em 2022, 7% da nossa receita vinha desses canais; em 2023, 11%; em 2024, 19%; e agora já estamos em 30%.
O seguro de saúde “Cuida” foi um motor importante desse crescimento. Ele nos permite entrar nas empresas e, a partir daí, oferecer soluções adicionais, criando relacionamento duradouro com clientes individuais e corporativos.
É um facto que a Fortaleza Seguros tem reforçado a sua posição no mercado angolano que inclui grandes concorrentes como a Enza e a nossa Seguros. Qual é a posição atual da Fortaleza no panorama do mercado angolano? Que estratégias estão a ser implementadas para aumentar a vossa cota do mercado?
Carlos F: Atualmente, estamos um degrau abaixo das quatro maiores seguradoras de Angola. Existem três ou quatro empresas de porte semelhante, mas nosso objetivo é crescer mais rápido que o mercado, aumentando nossa participação.
Para isso, fortalecemos nossa relação com o Banco Atlântico e mediadores, expandimos seguros como automóvel, saúde e responsabilidade civil, e buscamos participar de concursos corporativos, apresentando propostas que se destaquem pela qualidade e aderência às necessidades do cliente.
O seguro de saúde “Cuida” é estratégico, servindo como uma âncora para conquistar clientes empresariais e depois oferecer soluções adicionais. Ele é fundamental tanto para retenção de talentos quanto para proteger famílias, consolidando a confiança dos clientes e aumentando nosso share of wallet.
No último ano, a Fortaleza Seguros publicou o seu primeiro relatório em ESG dando prioridade à governança, o G, ou seja, à gestão ética e transparente. Pode partilhar um bocadinho o compromisso que realmente tem quando mencionou essa frase? Poderia também ajudar a conhecer melhor as vossas práticas de ESG e de inovação que têm contribuído para o crescimento?
Carlos F: Sim, foi um grande marco para nós. Desde 2022, trabalhamos nesse projeto e decidimos que ESG seria o caminho. Criamos a Direção de Organização e Sustentabilidade, responsável por governança, sustentabilidade e impacto social. Governança (G): É nossa prioridade. Estruturamos mecanismos de governança, fortalecemos a cultura e os valores da empresa, porque acreditamos que o valor real de uma empresa está na forma como seu mecanismo de governança é aplicado. Sustentabilidade ambiental (E): Implementamos ações de reciclagem, redução do consumo de eletricidade, água e papel, diminuindo a pegada ambiental. Responsabilidade social (S): Desenvolvemos iniciativas de voluntariado remunerado, projetos de literacia e apoio contínuo a instituições sociais, como meninas órfãs em Benguela. Oferecemos cursos e estágios, criando oportunidades reais para jovens.
Nosso compromisso é longínquo e consistente. Não queremos ações “hit and run”; buscamos impacto real e permanente. Queremos ser early adopters e benchmarkers, servindo de referência para o setor, mesmo antes de haver exigência legal.
Gostaria de deixar alguma mensagem para os nossos leitores da Fortune: como se posiciona a Fortaleza Seguros como motor de desenvolvimento de Angola, algum ponto de referência para investidores e stakeholders internacionais?
Carlos F: A Fortaleza Seguros atua com integridade, profissionalismo e compromisso com crescimento sustentável. Não buscamos apenas anos de sucesso isolados; buscamos caminhar progressivamente, de forma positiva, ao longo do tempo.
Queremos ser um motor de desenvolvimento em Angola, oferecendo segurança e confiança para clientes, empresas e investidores, enquanto mantemos excelência em serviço, inovação e responsabilidade social. Nosso objetivo é ser referência, um exemplo que outros desejem seguir, consolidando nosso papel estratégico na economia angolana.