Abilio Almirante
CEO – Transgás

1. Como descreveria a evolução da empresa desde a sua criação e quais foram os marcos mais significativos que definiram o seu posicionamento atual no mercado?

A Transgás foi constituída em 2008 e iniciou a sua actividade operacional em 2009, tendo desde cedo estruturado a sua actuação com base em princípios orientadores claros, designadamente visão, missão e valores corporativos. Ao longo do seu percurso, a empresa consolidou-se num segmento altamente exigente, sujeito a forte densidade regulatória, elevados padrões de segurança e especificidades técnicas próprias do transporte de matérias perigosas.

Mesmo em contextos adversos, marcados por ciclos económicos exigentes, vulnerabilidades de mercado e pelos efeitos da pandemia da Covid-19, a Transgás manteve uma trajectória de aprendizagem institucional, aperfeiçoamento operacional e reforço da sua capacidade de adaptação.  Essa evolução permitiu à empresa aprofundar o seu conhecimento do contexto angolano e internacional, reforçando a sua posição como operador logístico especializado e fiável no setor energético.

Um dos principais factores distintivos da Transgás reside na centralidade atribuída à segurança e ao capital humano. A empresa parte do princípio de que a segurança operacional não se esgota em normas abstratas, dependendo, antes, de equipas tecnicamente capacitadas, disciplinadas e devidamente acompanhadas, razão pela qual a valorização das pessoas constitui elemento estruturante da sua estratégia empresarial.

A opção por internalizar funções críticas de natureza operacional, incluindo manutenção mecânica, reparação, pintura e conservação da frota, insere-se igualmente nessa lógica de preservação patrimonial, controlo de qualidade e desenvolvimento de competências internas. Paralelamente, a Transgás actua com foco contínuo no transporte de gasóleo, gasolina e gás butano para clientes relevantes no mercado nacional, tendo obtido certificação ISO 9001:2015, o que evidencia a existência de processos e procedimentos formalizados, auditáveis e orientados para melhoria contínua.

Em 2024, a empresa foi distinguida pela Sonangol pela qualidade do serviço prestado, reconhecimento que a Transgás interpreta como resultado da consistência da sua execução operacional, da disciplina dos seus processos e da valorização efectiva do seu capital humano. Acresce que a adopção de ferramentas tecnológicas de controlo, incluindo rastreabilidade por satélite, monitorização em tempo real e alertas de velocidade, tem reforçado os níveis de transparência, segurança e confiança oferecidos aos clientes.

2. Como é que a Transgás está a integrar tecnologias para melhorar a eficiência, o controlo de segurança e a satisfação do cliente?

A Transgás tem vindo a integrar soluções tecnológicas orientadas para ganhos concretos de eficiência, segurança, controlo operacional e qualidade de serviço. Entre as medidas adoptadas, destaca-se a utilização de sistemas próprios e de tecnologias disponíveis no mercado para optimização de processos, designadamente no controlo da qualidade do combustível, na rastreabilidade da frota, na monitorização de desempenho dos veículos e no acompanhamento do cumprimento de rotas e tempos de operação.

A filtragem do combustível antes do abastecimento da frota constitui um exemplo prático dessa abordagem, na medida em que contribui para a preservação dos equipamentos, redução de incidências mecânicas e melhoria da eficiência operacional. Em paralelo, os sistemas de rastreabilidade por satélite permitem monitorizar velocidade, paragens, trajectos e condições operacionais dos veículos, facultando também maior transparência ao cliente quanto à execução do serviço contratado.

Segundo a transcrição submetida, tais mecanismos vêm sendo implementados e aperfeiçoados desde 2015/2016, com evolução progressiva em função das necessidades da operação. Numa perspectiva futura, a empresa admite o desenvolvimento de uma plataforma integrada, preferencialmente com envolvimento de entidades angolanas, destinada a melhorar a gestão de dados operacionais, financeiros e ambientais.

A integração tecnológica não é, contudo, dissociável das políticas de sustentabilidade, segurança e protecção do trabalhador. A Transgás prefere trabalhar com entidades certificadas para recolha e tratamento de resíduos, incluindo pneus, óleos e resíduos orgânicos, enquanto 

mantém protocolos internos de prevenção, acompanhamento médico, gestão de aptidão funcional, uso obrigatório de equipamentos de protecção individual e formação contínua dos colaboradores.

A empresa assume igualmente uma cultura de responsabilidade partilhada, na qual o cumprimento das normas de segurança depende tanto dos mecanismos formais de controlo como da consciencialização diária das equipas. Nessa medida, tecnologia, disciplina operacional e factor humano são tratados como componentes complementares de um mesmo sistema de governação do risco.

 

3. Qual é a dimensão da frota e como funcionam as parcerias?

De acordo com a informação constante da transcrição, a Transgás opera com uma frota própria de 16 viaturas, complementada por outras 16 viaturas afectas por via de parceria, perfazendo um total de 32 unidades em operação. Este modelo permite à empresa ampliar capacidade, optimizar a utilização de activos e responder com maior flexibilidade às exigências do mercado.

As parcerias são enquadradas como instrumento estratégico de eficiência e expansão operacional, desde que os recursos integrados actuem sob os critérios técnicos, procedimentais e de conformidade definidos pela Transgás. Nessa lógica, a empresa preserva a sua cultura de qualidade, segurança e disciplina de execução, ao mesmo tempo que promove emprego, dinamização económica e articulação com outros operadores do setor.

 

4. De que forma a Transgas está a incorporar práticas ambientais e de sustentabilidade, particularmente na redução de riscos ambientais e na gestão responsável de combustíveis?

A Transgás encara a sustentabilidade numa aceitação prática e operacional, especialmente relevante num setor que envolve transporte de combustíveis, exposição a riscos ambientais e necessidade de estrito cumprimento de normas de segurança. O tratamento responsável de combustíveis, a prevenção de incidentes e o controlo das condições de operação constituem, por isso, eixos permanentes da sua actuação.

No plano do capital humano, a empresa reconhece que a segurança não se traduz apenas em normas escritas, mas na sua aplicação efectiva e verificável. Daí decorrem medidas como a proibição de condução nocturna, a imposição de períodos obrigatórios de descanso, o acompanhamento médico regular e a exigência de aptidão física e mental para o exercício de funções críticas, em especial no caso dos motoristas.

A transcrição indica ainda que, em situações de inaptidão temporária, a empresa privilegia o tratamento e a substituição funcional, em vez de soluções precipitadas de desligamento laboral, preservando o posto de trabalho do colaborador até à sua recuperação e regresso em condições adequadas. Esta abordagem revela uma leitura responsável da segurança, da saúde ocupacional e da estabilidade da relação laboral.

A empresa demonstra também preocupação com factores de risco menos visíveis, nomeadamente os associados ao stress, à fadiga e ao estado emocional dos trabalhadores, reconhecendo que a componente mental influência directamente a segurança da operação. Nesse contexto, promove a comunicação interna, o reporte atempado de limitações pessoais e a actuação preventiva como instrumentos de mitigação de risco.

Adicionalmente, a exigência do uso de EPIs, a formação contínua e a sensibilização comportamental são apresentadas como práticas permanentes e não ocasionais. A Transgás associa igualmente esta disciplina interna a um efeito educativo mais amplo, admitindo que hábitos de ordem, limpeza, segurança e responsabilidade acabam por repercutir-se no ambiente familiar e comunitário dos trabalhadores.

 

5. Qual é a cobertura geográfica e os principais clientes da empresa?

A Transgás opera em todo o território nacional, com base principal em Luanda e apoio logístico adicional no Lobito, o que lhe confere capacidade de resposta em diferentes corredores operacionais do país. Segundo a transcrição, os seus principais clientes incluem entidades ligadas ao universo Sonangol, designadamente Sonangol Gás, Sonangol Distribuição e Comercialização e Sonangalp.

A empresa afirma ainda ter realizado operações internacionais, nomeadamente entregas na República Democrática do Congo, embora a sua actividade se mantenha circunscrita ao transporte e não à comercialização do produto. Nesse sentido, posiciona-se como parte integrante da cadeia de fornecimento energético há cerca de 15 anos, com presença operacional relevante e continuidade de serviço.

 

6. Quais são as prioridades estratégicas e planos futuros da empresa?

As prioridades estratégicas da Transgás passam pelo reforço da capacidade operacional, pela expansão progressiva da frota e pelo alinhamento com a evolução do setor energético e das plataformas logísticas emergentes. A referência à Barra do Dande, constante da transcrição, ilustra a atenção que a empresa dedica à reorganização geográfica e infraestrutural do setor em Angola.

A empresa manifesta igualmente ambição de internacionalização, naturalmente dependente das condições de mercado, da abertura regulatória e da viabilidade económico-operacional dos projectos concretos. Em paralelo, reconhece a existência de iniciativas em carteira susceptíveis de conduzir à diversificação de actividade para áreas complementares à logística, embora ainda sem definição final quanto ao seu escopo.

No domínio tecnológico, mantém-se o objectivo de investir em plataformas integradas que melhorem eficiência, controlo e capacidade analítica. Já no plano do capital humano e do desenvolvimento nacional, a intenção de aproximar universidades do setor empresarial revela preocupação com a formação prática, a qualificação técnica e a inclusão de jovens talentos na realidade produtiva do país.

 

7. Quais são as competências multidisciplinares que moldam a liderança do CEO?

A resposta constante da transcrição atribui especial relevo à compreensão do comportamento humano como competência essencial de liderança. Sem prejuízo da formação académica em gestão, negociação e estratégia, inclusive com referência a experiências formativas internacionais, o entendimento expresso é que a eficácia de uma liderança empresarial depende, em grande medida, da capacidade de compreender atitudes, motivações, comportamentos e dinâmicas relacionais.

Essa visão é particularmente relevante em contextos operacionais complexos, nos quais a execução técnica, a disciplina de segurança e a coordenação entre equipas exigem não apenas competência formal, mas também inteligência relacional e capacidade de gestão de pessoas. A experiência internacional e o contacto com diferentes culturas surgem, nesse quadro, como factores de enriquecimento da liderança e de ampliação da capacidade de decisão estratégica.

 

8. Qual é o legado que gostaria de deixar na Transgás?

O legado projectado para a Transgás é descrito, na transcrição, em termos marcadamente colectivos. A ambição não é a personalização do sucesso em torno da figura do CEO, mas a consolidação de uma organização em que cada colaborador se reconheça como parte efectiva do resultado, da cultura e do propósito empresarial.

Nessa linha, o legado desejado assenta na valorização das pessoas, na construção de uma empresa inclusiva, tecnicamente respeitada e institucionalmente relevante para Angola, para a região africana e para o espaço SADC. Trata-se, portanto, de uma visão de continuidade institucional, de responsabilização partilhada e de crescimento sustentado com base em capital humano, qualidade e compromisso com o desenvolvimento.

 

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