A Black Ouro Services foi fundada em 2016 e você atua como CEO desde 2020. Poderia compartilhar a sua visão sobre o que a Black Ouro representa hoje e quais foram os marcos mais importantes na trajetória da empresa?
Ricardo G: Claro. A história é longa, mas, em resumo, a Black Ouro Services representa, o futuro da sustentabilidade industrial para Angola e mercados internacionais. Desde o início, a nossa empresa foi construída com bases sólidas em conceitos de sustentabilidade, inovando de forma a gerar valor não apenas para clientes e parceiros, mas também para o país como um todo. Acredito que estamos a construir um modelo diferenciado de empresa, que vai além do lucro imediato e foca em impacto social e ambiental.
Nos últimos quatro anos, desenvolvemos uma plataforma digital de sustentabilidade operacional que fomenta a circularidade de diversas industriais de extração e produção, em que cada vertical corresponde também a um segmento da empresa e cada segmento possui subsegmentos de domínio técnico para a entrega dos produtos e serviços que oferecemos ao mercado. Um modelo diferente da abordagem tradicional, em que as empresas vão moldando o seu negócio ao longo do tempo, nós estruturamos a propriedade intelectual em uma só plataforma desde o início, o que nos dá um fluxo bem focado para desenvolver equipas, negócios, e indústrias de forma sustentável.
A plataforma serve tanto para agregar ao nosso sistema de gestão interna, bem como a criação de um ecossistema especializado na entrega de produtos e serviços, e também para ser aberta ao mercado, local e global, oferecendo soluções customizáveis como serviço, ou seja, soluções completas para empresas que desejam transformar as suas operações sem precisar buscar soluções fora do país. Nós chamamos isso de “Software as a Solution”, porque não se trata apenas de software como serviço (SaaS), mas de um conjunto de soluções e colaborações que engloba operações em tempo real, e praticas de conformidade de ESG numa visão 360 graus adequada a realidade e os maiores desafios do século XXI.
Além disso, identificamos diversos serviços conceituais de asseguramento e controle de qualidade no segmento da gestão de produtos e fluidos em granel, bem como na gestão ambiental e de resíduos, que normalmente não estão visíveis para as empresas e consequentemente geram custos de tempo e dinheiro perdido consideravelmente. Através da nossa plataforma e pessoal especializado, conseguimos cobrir esses gaps, otimizar operações diariamente, criar habilidades novas, gerar novos empregos e fomentar circularidade, contribuindo diretamente para o desenvolvimento social e econômico de Angola.
Considerando que o setor petrolífero angolano enfrentou uma queda de 10% na produção no segundo trimestre de 2025 e caiu abaixo de 1 milhão de barris por dia em julho, combinada com pressão regulatória e de mercado por operações mais sustentáveis e eficientes, poderia nos dar uma visão geral sobre o desempenho da Black Ouro ao longo de 2025? Quais foram seus principais KPIs, crescimento, receita e margens?
Ricardo G: Sim. A pesar do cenário de declínio na produção correspondendo sazonalmente a baixa de exploração e desenvolvimento no sector, este ano executamos um projecto piloto altamente diferenciado com dois grandes clientes de colaboração, que durou aproximadamente 10 meses em campo, no ramo da perfuração e completação de poços e gestão dos resíduos gerados e recuperados offshore para tratamento e eliminação. Esse piloto permitiu-nos testar soluções inovadoras e integradas a rede de tecnologias de Internet das Coisas (IoT), mas foi temporariamente interrompido devido à diminuição da atividade na perfuração correspondendo à saída de sondas. Os principais KPIs este ano para além das métricas do desempenho financeiro, foi manter zero incidentes e zero anomalias no trabalho, a satisfação dos clientes, e a implementação digital dos nossos sistemas de gestão seguindo o crescimento orgânico da organização, o número de usuários a usar o nosso software. Provámos a capacidade de escala operacional destas soluções, e os valores agregados.
Mesmo com a queda de atividade, continuamos a desenvolver e oferecendo os serviços tecnológicos de ponta para a maximização de eficiência, desempenho e segurança. O Nosso foco tem sido ajudar o sector energético tomar decisões inteligentes com mais rapidez na criação de impacto real, sustentar e proteger a inovação e os serviços diferenciados, garantindo que mesmo em um cenário de menor atividade, possamos gerar valor em toda colaboração e prepara-nos para dias melhores. Além disso, expandimos parcerias estratégicas, incluindo algumas que nos permite acesso a um fórum global, como com a Newpark Fluid Systems, que atua na área de fluidos para perfuração e completação de poços petrolíferos. A nossa divisão de gestão de insumos a granel, integrada digitalmente com parceiros, permite um monitoramento completo a cadeia de valores, execução de operações complexas nos campos de petróleo e gás, a quantificação de emissões do escopo 1, 2, e 3 na entrega dos serviços e a criação de ecossistemas, oferecendo aos clientes um modelo “one-stop shop solution”.
Em resumo, mesmo diante da queda de atividade, conseguimos manter o desempenho, o desenvolvimento continuo das nossas inovações e o posicionamento estratégico no setor petrolífero e industrial, preparando-nos para oportunidades futuras e a globalização das nossas soluções.
Falando sobre ecossistema e sustentabilidade, sabemos que vocês também celebraram o Dia Mundial dos Rios, em 22 de setembro. Como o ESG influenciou as estratégias da Black Ouro em 2025, particularmente em redução de carbono, performance de segurança e transparência?
Ricardo G: Na Black Ouro, criamos uma vertical de sustentabilidade ambiental, totalmente integrada aos nossos processos. Desenvolvemos, por exemplo, um sistema com interface humana que faz o monitoramento das descargas operacionais e a gestão de produtos químicos para qualquer indústria, em conformidade com o Decreto Executivo n. ° 97/14, que aprova o regulamento sobre gestão de descargas operacionais e a gestão de produtos químicos no sector de petróleo e gás. Com base de dados, relatórios e analítica em tempo real de todo estado ambiental, as diversas operações nos ativos ou embarcações, isso permite os nossos clientes criarem bases ambientais completas, a parametrização de alvos, permitindo assim um melhoramento continuo sustentável nas suas operações, antecipar decisões futuras, e claro a customização e geração de um de ESG completo.
Utilizamos a nossa plataforma digital para monitorar emissões de gases de efeito estufa, quantificar os resíduos e aterros, rastrear produtos químicos desde a entrada no país até o descarte e parametrizar todo o processo. Isso gera inteligência que pode ser usada tanto pelas empresas quanto pelos reguladores e instituições para decisões estratégicas duradouras, como incentivar produção local, criar empregos, habilidades técnicas e capacitar o mercado.
As nossas soluções de ESG não são apenas oferecidas como software aos nossos clientes, mas também agregado na entrega dos nossos produtos e serviços técnicos. Medimos também o impacto das nossas operações, tal como a quantidade de resíduos gerados, consumo de vários recursos, desempenho ambiental e social. Assim, garantimos que todos os serviços e operações sigam padrões de sustentabilidade, conformidade e inovação, criando impacto positivo e duradouro para as próximas gerações.
Como você avaliaria o nível atual de adoção tecnológica e transformação digital no setor de energia em Angola? E a capacidade do país em desenvolver talentos para sustentar essa transformação?
Ricardo G: Hoje vejo grande disposição do nosso povo angolano em crescer, aprender e adotar sistemas inteligentes, mas a adoção ainda é limitada. A indústria de petróleo e gás é tradicional, com muitos processos manuais, embora algumas empresas já estejam na transformação e digitalização dos seus considerados processos chaves.
Na Black Ouro Services, os nossos softwares foram inteiramente desenvolvidos com propriedade intelectual Angolana. A base tecnológica global “a nuvem” ainda está fora, mas pretendemos criar as condições locais, bem como criar pipelines de formação nas áreas de atuação, formando os jovens talentosos, para que possam desenvolver soluções digitalmente e cientificamente inovadoras em Angola.
O desenvolvimento de talento é estratégico: todos os colaboradores passam por uma curva de aprendizagem na digitalização dos seus domínios, os sistemas de gestão e operação, garantindo que possamos implementar soluções avançadas internamente e para os nossos clientes. Acreditamos que, no médio prazo, teremos engenheiros de software e desenvolvedores totalmente capacitados no país, impulsionando inovação e crescimento local.
Há um mês, vocês lançaram a plataforma Black Ouro Fleet Tracker. Quais tendências de mercado vocês observam com essa solução e quais são as expectativas para o próximo ano?
Ricardo G: O Fleet Tracker é uma solução inovadora que integra o monitoramento e gestão de diversos ativos, embarcações, contentores de carga, resíduos, gases efeito estufa, plantas e fabricas de produção, o fleet tracker associa as descargas operacionais. Participamos do ADIPEC em Abu Dhabi, o maior evento de energia do mundo, e percebemos que estamos humildemente a frente da curva, muitas empresas não criam as associações de soluções integradas que acabam por ter vários produtos separados para solucionar só um problema.
Esta vertical nova, como a de Q-HSE em fase final, permite a total rastreabilidade e monitoramento em tempo real de múltiplos ativos, como por exemplo blocos de petróleo e gás ou secção mineira, permitindo a quantificação automatizada, o asseguramento e o controle de qualidade em tempo real. Isso cria um ecossistema de especialistas, que reduz disputas, aumenta a eficiência e o desempenho orgânico. Em resumo, estamos alguns anos à frente de muitas soluções globais, no contexto da integração de metodologias inovadoras e associações de gestão dos diversos dados dos FLEETS´s.
Gostaria de adicionar algo sobre inteligência artificial? E uma última mensagem para os leitores da FORTUNE?
Ricardo Grion: Sim. Estamos utilizando IA mas ainda a um nível baixo, mas a generativa para recapitulações de relatórios programados, mas desenvolvemos as nossas soluções para terem o maior engajamento e colaboração humana, começado com um comunicador. Neste tema, existe a necessidade de coletar dados suficientes para gerar uma inteligência suficiente e ampla, antes de implementar IA em todo software que gera recomendações, queremos garantir que isso seja orientada por clientes e stakeholders adequada à realidade local.
Para nós, a IA que se inicia o desenvolvimento em 2026, será um sistema de recomendação que extrai valor dos dados provenientes de humanos, otimizando as operações sem substituir o fator humano. O objetivo é capacitar pessoas, criar empregos e desenvolver habilidades, sem depender de tecnologias externas. Implementar IA prematuramente não traria valor, pois ainda estamos construindo a base de dados necessária para que as recomendações sejam relevantes e aplicáveis ao contexto angolano.