
Vladimir Ferraz
Presidente do Conselho de Administração
Banco de Comércio e Indústria (BCI)
1. Pode partilhar como o papel da Economia & Mercado no ecossistema económico angolano se tem transformado ao longo do tempo e quais foram os principais marcos que definiram a sua expansão?
Sr. Sebastião:
A revista Economia & Mercado existe há 26 anos e tem estado a acompanhar a dinâmica do país e do mundo. Costumamos dizer que a revista flutua de acordo com aquilo que é a realidade macroeconómica nacional e internacional, mas sem perder o foco. Enquanto meio de comunicação, deixámos de ter apenas o foco na reportagem da realidade, passando também a construir uma plataforma que serve para influenciar ao nível económico. Criámos uma plataforma da qual fazem parte vários stakeholders, com destaque para empresários e gestores públicos e privados, que, com base na informação e no conteúdo que a Economia & Mercado promove, partilha e produz, obtêm elementos que os ajudam na sua actividade como gestores.
Outro elemento distintivo é a existência de um conselho editorial constituído por especialistas nacionais de vários sectores da economia e da sociedade, incluindo um ambientalista, especialistas em economia, fiscalidade e outras áreas. Estas entidades reúnem-se trimestralmente ou semestralmente para pensar o país, e dessas reuniões resultam ideias e orientações de temas a explorar nas edições da revista. Isso permite não depender da agenda diária, mas construir uma agenda própria para o país e para a economia do ponto de vista da comunicação.
2. À medida que a Economia &Mercado continua a expandir a sua presença através do digital, conferências e parcerias, que indicadores de desempenho pode partilhar?
Sr. Sebastião:
Temos feito um investimento na presença digital, incluindo a renovação do website com uma nova dinâmica e interface. Durante a Covid-19, que impactou fortemente o sector da comunicação, especialmente os meios impressos, houve proibição de circulação de papel, o que obrigou à suspensão da impressão. Como o mercado angolano ainda valoriza muito o papel, isso provocou uma redução significativa das receitas, mantendo-se os custos operacionais.
Com o tempo, conseguimos aumentar a visibilidade digital e alcançar mercados como Portugal, Brasil, Estados Unidos, África do Sul e Moçambique. Inicialmente, a audiência nesses mercados era sobretudo da diáspora, mas com a maior abertura de Angola ao mundo, aumentou a procura por conteúdo sobre o país.
Embora não sejam apresentadas métricas específicas, a tendência é ascendente. Há uma forte aposta na gestão das redes sociais, com divulgação multiplataforma que permite maior alcance e adaptação do conteúdo para públicos mais jovens, que consomem informação principalmente através do telefone.
3. Existem outras parcerias estratégicas que a Economia & Mercado esteja a desenvolver?
Sr. Sebastião:
Uma parceria muito importante é com a Universidade Católica de Angola, através do seu Centro de Estudos e Investigação Científica. Foi lançado um estudo sobre cenários de crescimento da economia angolana até 2030 e o impacto no emprego e na pobreza. Esta parceria posiciona a revista como um meio que influencia a criação de políticas e promove conhecimento baseado em investigação académica.
Existem também parcerias pontuais, como no sector da saúde, que levaram à realização da primeira Conferência Economia & Mercado sobre Saúde. A revista também participa em eventos como o Angola Oil and Gas.
A nível internacional, houve participação em eventos e contactos com promotores. Está prevista a participação na Macfrut, na Itália, em parceria com a ITA (Italian Trade Agency), como oportunidade para integração no ecossistema internacional, incluindo ligação com produtores angolanos.
4. Que ferramentas inovadoras e estratégias têm sido adoptadas para melhorar o envolvimento da audiência?
Sr. Sebastião:
Está em curso a renovação do site, que incluirá ferramentas tecnológicas, algumas ligadas à inteligência artificial, para melhorar a interação com o público, a comercialização de produtos e a componente tecnológica. Também têm sido realizadas formações com especialistas para capacitar a equipa no uso dessas ferramentas e reforçar a ética e deontologia profissional.
Estamos a fazer investimento em equipamentos e ferramentas digitais para permitir uma disseminação multiplataforma da informação, tornando a presença da revista mais transversal e menos dependente do formato impresso.
5. Existem planos para expansão geográfica?
Sr. Sebastião:
Não existem planos formais, mas há atenção à necessidade de expansão. A administração reconhece que é impossível ficar limitado ao mercado angolano e que é importante olhar para o mercado regional e internacional, especialmente com a adesão de Angola à Zona de Comércio Livre africana e com projectos como o Corredor do Lobito e os investimentos nos transportes.
A expansão poderá acontecer através de joint ventures com operadores no mercado regional da comunicação, Moçambique, África do Sul, Quénia, Nigéria, Botsuana e Ruanda, através da partilha de conteúdo e outros formatos de parceria possíveis, com destaque para eventos e estudos de mercado.
6. Qual tem sido o aspecto mais gratificante de liderar a Economia & Mercado?
Sr. Sebastião:
A revista é o principal título da Edicenter Publicações Limitadas e ocupa um lugar central no meu percurso profissional e empresarial. A minha trajectória confunde-se, em muitos aspectos, com a evolução da própria publicação: comecei como repórter em 2010, após a conquista de um prémio da CNN, evoluí para editor, director executivo, director editorial da empresa e, actualmente, accionista.
Ao longo dos anos, a revista afirmou-se não apenas como um veículo de informação económica e empresarial, mas como uma plataforma de influência, reflexão estratégica e construção de agendas. Mais do que reportar acontecimentos, procuramos criar espaços qualificados de debate e análise sobre Angola, África e o mundo, reunindo decisores, líderes empresariais, académicos e protagonistas da vida pública em torno dos grandes temas que moldam o presente e o futuro.
Mesmo em períodos particularmente desafiantes da economia angolana, a publicação conseguiu manter-se relevante graças à resiliência da equipa, à confiança dos parceiros e a uma visão estratégica orientada para a credibilidade, a independência editorial e a capacidade de antecipar tendências. Os últimos anos têm sido encorajadores, consolidando um ciclo de crescimento sustentável que hoje nos permite continuar a honrar os nossos compromissos com colaboradores, parceiros institucionais e o Estado, ao mesmo tempo que reforçamos o posicionamento da revista como uma referência incontornável no ecossistema mediático e empresarial angolano.