Rui Miguêns de Oliveira
Ministro da Indústria e Comércio

1. O Governo angolano tem colocado a diversificação económica, a segurança alimentar e a substituição de importações no centro da sua estratégia nacional. Na sua perspetiva, quais têm sido as realizações mais significativas do Ministério em termos de desenvolvimento industrial, dinamização do comércio e modernização económica?

Sr. Ministro:

As iniciativas do Governo, têm estado orientadas para alcançar um objetivo muito claro: a segurança alimentar como pedra angular da política económica do país, sustentada pela diversificação económica e por um processo gradual e competitivo de substituição das importações.

O objetivo é garantir que Angola seja capaz de produzir, em primeiro lugar, aquilo que consome, sobretudo bens essenciais de consumo. Onde existir espaço para uma substituição competitiva, estamos igualmente a trabalhar para reduzir as importações noutros setores além dos bens alimentares, assegurando sempre que a produção nacional consiga competir em qualidade e quantidade com os produtos importados.

Esse tem sido o principal foco do Governo e, em algumas cadeias de bens alimentares, já alcançámos aquilo que poderíamos considerar uma autossuficiência em produtos transformados.

Podemos falar da indústria das bebidas, onde Angola atingiu praticamente a autossuficiência em bebidas não alcoólicas, águas, refrigerantes e também em bebidas alcoólicas, como as cervejas. As importações nestas categorias são hoje muito reduzidas.

Temos igualmente registado progressos significativos em produtos alimentares como farinhas, massas alimentares e óleos alimentares. Este é um processo mais recente, mas Angola dispõe atualmente de uma importante capacidade industrial de refinação de óleos.

De um modo geral, tratam-se de indústrias ligadas aos bens essenciais de consumo. Em torno destes setores, desenvolveram-se também outras indústrias, como as embalagens, sistemas de refrigeração e conservação. Todo um ecossistema tem crescido à volta deste processo de diversificação económica, permitindo-nos afirmar que Angola registou avanços muito significativos nos últimos anos.

2. O Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027 estabelece metas ambiciosas relacionadas com a modernização das infraestruturas, o crescimento industrial, a diversificação económica e o aumento da competitividade. Quais continuam a ser os principais investimentos neste processo e que resultados já produziam para o país?

Sr. Ministro:

Em primeiro lugar, é importante destacar que Angola realizou investimentos muito relevantes nas infraestruturas de base. Estamos a falar da produção de energia, sistemas de água, canais de irrigação para a agricultura e infraestruturas rodoviárias.

A água, por exemplo, é fundamental não apenas para o consumo humano, mas também para o desenvolvimento de qualquer atividade económica, seja industrial ou agrícola. O país investiu significativamente em barragens, sistemas de transporte e distribuição de energia elétrica, produção e distribuição de água e canais de irrigação.

Continuamos a enfrentar algumas insuficiências ao nível das infraestruturas rodoviárias. Contudo, não podemos ignorar que Angola realizou um investimento muito importante na rede viária e que hoje praticamente todos os municípios do país têm acesso rodoviário. Algumas estradas estão em boas condições, outras menos, mas estes investimentos criaram as condições necessárias para a implementação de projetos industriais.

No que diz respeito especificamente à indústria, foram igualmente feitos investimentos em polos de desenvolvimento industrial e parques industriais rurais. Estas infraestruturas criadas pelo Governo já oferecem condições essenciais como água, energia, vias de comunicação e sistemas de tratamento de águas residuais.

Estes investimentos permitiram o nível de implantação industrial que hoje vemos no país. Angola conta atualmente com mais de 800 unidades industriais, sem incluir pequenas unidades artesanais que também se desenvolvem à volta deste ecossistema.

Hoje temos grandes indústrias transformadoras e, em torno delas, começam também a crescer pequenas indústrias prestadoras de serviços e de transformação secundária.

Naturalmente, ainda existem desafios. Um deles está relacionado com a transmissão da energia elétrica. Angola hoje não sofre de escassez de produção energética; o desafio está em fazer chegar a energia aos locais onde ela é necessária. Nas principais zonas industriais, parques industriais, zonas económicas especiais e zonas francas, esta questão já está relativamente resolvida, mas o país continua a necessitar de expandir as infraestruturas de transporte de energia.

A logística continua igualmente a ser um desafio importante. Ainda temos défices em termos de transporte, armazenamento e sistemas de frio. Hoje Angola já produz cereais em quantidade suficiente para necessitar de mais silos, o que é, na verdade, um sinal positivo, porque demonstra o crescimento da produção nacional.

Precisamos também de mais armazéns e unidades de frio, fundamentais não apenas para produtos agrícolas frescos, mas também para a pesca, avicultura, suinicultura e produção bovina, setores onde a produção nacional também tem crescido significativamente.

Paralelamente, Angola realizou avanços muito importantes nas telecomunicações. Hoje praticamente todo o território nacional está coberto por redes de telecomunicações, algo essencial para o desenvolvimento industrial e comercial.

Todos estes investimentos colocaram Angola numa posição muito diferente em termos das infraestruturas necessárias para o desenvolvimento da indústria, do comércio e da logística ao longo do país.

3. Atualmente, a competitividade industrial está cada vez mais associada não apenas à capacidade produtiva, mas também à inovação, transformação digital e modernização tecnológica. Como é que o Ministério tem promovido a inovação e o avanço tecnológico nos diferentes setores industriais?

Sr. Ministro:

O primeiro e maior fator de inovação é o ser humano. As pessoas são o recurso mais importante em qualquer processo de inovação.

O Governo tem investido seriamente na educação e na necessidade de expandir o acesso à formação para toda a população. Essa preocupação com o desenvolvimento do capital humano é uma prioridade estratégica.

Ao nível do Ministério, temos igualmente uma forte preocupação com a formação. Sempre que surge uma nova indústria — e quando digo nova refiro-me não apenas a novas unidades industriais, mas também a segmentos onde Angola não tinha histórico de desenvolvimento — procuramos que os promotores industriais contribuam para a formação de jovens angolanos que irão trabalhar nessas indústrias, preparando também talento adicional para o mercado.

Recentemente, por exemplo, tivemos a inauguração da indústria de alumínios pelo Presidente da República. Nesse processo, a própria empresa formou mais de 25 cidadãos angolanos para integrarem a operação e formou também oito quadros do Ministério, permitindo-nos compreender melhor a indústria, regulá-la adequadamente e garantir que opere segundo padrões internacionais.

Uma iniciativa importante do Ministério são os centros de formação profissional, onde disponibilizamos formação especializada orientada para os setores industriais onde os jovens irão futuramente trabalhar.

Estamos igualmente em fase de conclusão do Centro de Indústria e Tecnologia Avançada, que será um dos grandes símbolos da modernidade e inovação do país. Em breve, ouvir-se-á muito mais sobre este projeto. Trata-se de um esforço do Governo para tornar as tecnologias mais avançadas acessíveis à juventude angolana e criar um ciclo positivo de inovação.

Outra iniciativa importante foi a aprovação da Lei das Startups, liderada pelo nosso Ministério. Com este quadro jurídico, pretendemos criar um ecossistema que permita o crescimento de iniciativas inovadoras, sobretudo protagonizadas por jovens empreendedores. Acreditamos que, num futuro não muito distante, Angola poderá inclusive ter o seu próprio unicórnio.

Ao mesmo tempo, todas as indústrias que estão a ser implementadas no país compreendem que o Governo pretende que sejam competitivas. Mesmo que o objetivo inicial seja abastecer o mercado interno, estas empresas têm de estar preparadas para competir tanto a nível nacional como internacional.

O mais encorajador é que grande parte das indústrias atualmente implementadas em Angola já utiliza tecnologias avançadas — seja nas moagens, refinarias, indústria metalúrgica ou têxtil. Existe uma compreensão clara de que a industrialização só será sustentável e orientada para o futuro se for construída com base em tecnologia avançada.

4. Os investidores internacionais avaliam hoje os países não apenas pelo potencial de crescimento, mas também pelos seus compromissos com a sustentabilidade, governação e responsabilidade ambiental. Como está Angola a integrar os princípios ESG na sua estratégia de industrialização?

Sr. Ministro:

Quando falamos de sustentabilidade, a nossa primeira missão é garantir que todas as indústrias instaladas em Angola operem segundo parâmetros de governação e gestão ambiental compatíveis com as normas internacionais.

Hoje nenhuma indústria pode ser licenciada em Angola sem um estudo de impacto ambiental. Estes estudos definem as medidas necessárias para prevenir, reduzir e controlar os riscos ambientais.

Além disso, procuramos que as indústrias integrem produtores locais e comunidades nas suas cadeias de valor, permitindo que as comunidades beneficiem diretamente da atividade industrial.

As empresas têm sido igualmente incentivadas a incluir capítulos ESG nos seus relatórios, demonstrando como contribuem para o empoderamento das comunidades, para a proteção ambiental e para padrões internacionais de governação.

Isto é particularmente importante porque Angola está a aumentar as suas exportações para além do setor petrolífero, sobretudo para mercados europeus, onde estas exigências internacionais são fundamentais.

Estamos também a implementar um programa gradual de substituição dos plásticos, iniciativa conduzida conjuntamente pelos Ministérios da Indústria e do Ambiente. Embora ainda esteja numa fase inicial, representa um sinal claro da intenção do Governo em reduzir a utilização de plásticos sempre que possível.

Temos igualmente incentivado as indústrias, especialmente no setor das bebidas, a utilizarem embalagens recicláveis. Angola já possui indústrias de reciclagem em funcionamento e grande parte das embalagens produzidas no país utiliza material reciclado.

A reciclagem tornou-se inclusive uma atividade económica importante para muitas famílias e comunidades, fornecendo matéria-prima reutilizada pela indústria nacional.

Para além das políticas públicas, o setor privado também tem respondido positivamente. Existe hoje um ambiente económico e financeiro mais favorável ao investimento privado nas áreas da reciclagem e sustentabilidade.

5. Durante a Conferência Internacional Tóquio, em 2025, Vossa Excelência destacou a Zona de Comércio Livre Continental Africana como uma oportunidade para criar o maior mercado integrado do mundo e acelerar a industrialização regional. Como está Angola a posicionar-se para beneficiar deste enquadramento?

Sr. Ministro:

Angola posiciona-se, em primeiro lugar, como signatária ativa do acordo e participante direta no processo de implementação. Temos inclusive um delegado especificamente dedicado à Zona de Comércio Livre Continental Africana.

Antes disso, no entanto, Angola precisava de concluir a sua integração na Zona de Comércio Livre da SADC. 

Atualmente, Angola já tem propostas tarifárias aprovadas pelos parceiros regionais e prepara-se para definir os produtos que circularão livremente dentro do espaço da SADC.

Para Angola, isto tem uma dupla importância. Por um lado, garante acesso a um mercado regional de cerca de 320 milhões de pessoas. Por outro, serve como preparação para o desafio ainda maior da Zona de Comércio Livre Continental Africana.

Um dos principais fatores de estrangulamento identificados para a integração continental é a conectividade — conectividade física, digital e mobilidade.

É por isso que Angola realizou investimentos estratégicos como o Caminho de Ferro de Benguela, hoje conhecido internacionalmente como o Corredor do Lobito. Embora a linha ferroviária já existisse historicamente, o Governo realizou investimentos significativos na sua recuperação, modernização e reabilitação, colocando posteriormente a operação sob gestão privada.

Foram igualmente realizados investimentos importantes nos portos, particularmente no Porto do Lobito, um dos maiores portos de águas profundas da região.

Estamos a investir em caminhos de ferro, telecomunicações e inclusive em infraestruturas satelitais, fundamentais para garantir a competitividade de Angola no contexto continental.

Angola possui ainda uma vantagem competitiva importante enquanto produtor de energia, tanto elétrica como de combustíveis. Isso permite ao país oferecer condições atrativas para a implantação industrial que muitos outros países da região poderão não conseguir garantir.

O novo aeroporto internacional será igualmente um ativo estratégico importante para a integração continental.

Todos estes investimentos fazem parte de uma estratégia integrada para garantir que Angola entre na Zona de Comércio Livre Continental Africana não numa posição de desvantagem, mas como uma das economias mais competitivas e avançadas de África.

6. O Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI) tornou-se um dos pilares centrais da estratégia económica angolana, através de incentivos fiscais, instrumentos de política comercial e apoio à produção nacional. Que resultados concretos já foram alcançados através do programa e quais são as próximas etapas para os próximos anos?

Sr. Minstro:

O PRODESI tem sido, digamos, a âncora sobre a qual se tem promovido a diversificação económica do nosso país. O programa assenta na premissa de que, onde Angola tiver capacidade, competências e oportunidades, deve produzir os bens que possam substituir importações.

Esse é o conceito central do programa. Com a implementação do PRODESI, conseguimos alcançar autossuficiência na indústria das bebidas e também nas indústrias alimentares essenciais, como farinhas, massas alimentares e óleos alimentares. Este foi um avanço conseguido através da conjugação de vários instrumentos do programa, incluindo incentivos fiscais, instrumentos de política comercial e medidas de salvaguarda permitidas no âmbito da nossa integração na Organização Mundial do Comércio.

Estas medidas têm permitido criar incentivos diretos e indiretos para a substituição competitiva das importações e os resultados têm sido bastante significativos.

Um exemplo claro é o trigo. Há poucos anos Angola não produzia trigo, enquanto hoje já existem regiões do país dedicadas à sua produção. Este trigo já começa a ser transformado localmente em farinha, permitindo uma integração gradual da cadeia de produção de cereais.

Ainda enfrentamos um desafio importante: muitas indústrias instalaram-se no país graças às políticas implementadas, mas continuam dependentes da importação de parte significativa da sua matéria-prima.

No entanto, o PRODESI já permitiu alterar estruturalmente o perfil das importações. Por exemplo, anteriormente Angola importava óleos alimentares já refinados. Hoje continuamos a importar o óleo bruto, mas o processo de refinação é feito localmente. Trata-se de um processo que poderíamos chamar de industrialização reversa, onde a cadeia industrial começa a ser construída da ponta para a origem.

O mesmo acontece em setores como os produtos de higiene e cosmética. Atualmente, os consumidores angolanos já encontram nas prateleiras uma quantidade crescente de produtos de produção nacional, algo que não acontecia há alguns anos.

O próximo passo, particularmente na cadeia dos óleos alimentares, será avançar para a fase de “crushing” e extrusão das oleaginosas. Quando essa etapa estiver consolidada, criaremos condições adicionais para incentivar a produção local de matérias-primas agrícolas, reduzindo ainda mais a dependência externa.

No fundo, este é o processo que também está a acontecer noutras indústrias. Hoje já podemos afirmar que o processo de diversificação económica está efetivamente em curso e a produzir resultados concretos.

7. Finalmente, Vossa Excelência possui um vasto percurso no setor financeiro, incluindo funções de elevada responsabilidade no Banco Nacional de Angola e na banca privada. Como é que essas experiências moldaram a sua visão de liderança e qual é o legado que gostaria de deixar no Ministério da Indústria e Comércio?

Sr. Ministro:

Acredito que a minha experiência na banca tem ajudado muito nesta missão, porque a banca acaba por ser o ponto de encontro de todos os operadores económicos.

Trabalhar no setor financeiro permitiu-me compreender onde Angola tinha condições para fazer acontecer processos económicos mais sistémicos, inclusivos e abrangentes.

Quando cheguei ao Ministério da Indústria e Comércio, a principal missão confiada pelo Presidente da República foi ajudar a consolidar o processo de diversificação económica do país. A experiência que trouxe da banca deu-me uma visão mais integrada e sistémica dos desafios nacionais e permitiu-nos utilizar instrumentos já existentes e outros que fomos introduzindo para cumprir essa missão.

O que sabemos com certeza é que, com os incentivos corretos, objetivos claros e uma visão definida, é sempre possível mobilizar as pessoas em torno de objetivos comuns.

Todos os que trabalham no Ministério da Indústria e Comércio têm uma profunda preocupação com o futuro do país. Não se trata apenas do bem-estar individual, mas também da contribuição positiva para melhorar a vida dos nossos concidadãos.

Não tenho necessariamente a pretensão de ser pessoalmente destacado neste percurso. Contudo, gostaria de acreditar que o processo de diversificação económica, industrialização e consolidação do empresariado nacional se torne irreversível.

O futuro de Angola depende muito disso. Só conseguiremos preservar plenamente a nossa independência se consolidarmos também a nossa independência económica.

Independência económica significa sermos capazes de assumir o protagonismo num vasto conjunto de atividades económicas.

Se conseguir deixar um pequeno contributo para este processo e se ele continuar e se fortalecer depois da minha passagem pelo Ministério, ajudando Angola a tornar-se um país mais forte e melhor para todos, então esse será o legado que gostaria de deixar.

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