1. O Porto do Soyo foi criado em 1979 e evoluiu de uma pequena infraestrutura para uma plataforma logística regional estratégica. Quais foram os momentos decisivos que moldaram o porto na posição que ocupa atualmente em Angola?
Dr. Fernando Dias:
O Porto do Soyo iniciou-se como uma zona adstrita ao Porto de Cabinda. Foi em 1978 que ocorreu um marco fundamental: a separação administrativa e a abertura efetiva do Porto do Soyo, que inicialmente estava orientado para apoiar uma frota de pesca russa que operava na região.
Com o passar do tempo, essa estrutura foi-se transformando num porto comercial, consolidando-se como entidade autónoma. Em 1979, o Porto do Soyo foi oficialmente fundado, reforçando a sua afirmação institucional.
Um segundo momento decisivo ocorreu em 1983, com a criação da Base do Cuanda, na zona norte, que trouxe maior visibilidade e impulsionou uma transformação significativa na dinâmica portuária.
Mais recentemente, em maio de 2022, a inauguração do Terminal Fluvial de Passageiros e Cargas representou um passo essencial na modernização do porto, permitindo ligações marítimas mais eficientes, incluindo o acesso à província de Cabinda por via fluvial, algo que anteriormente dependia quase exclusivamente do transporte aéreo.
2. O Porto do Soyo mantém parcerias com operadores logísticos e participa em fóruns internacionais do setor portuário. Que tipo de alianças estratégicas privilegia atualmente e como estas contribuem para a inovação e expansão regional?
Dr. Fernando Dias:
Enquanto porto em crescimento, priorizamos parcerias que nos tragam conhecimento e valênciasadicionais. Procuramos estabelecer cooperação com portos que estejam num patamar mais avançado, de forma a aprender com as suas experiências e replicar boas práticas.
Um exemplo importante é o diálogo com o Porto de Antwerp-Bruges, cuja experiênciainternacional é reconhecida e que tem colaborado com o Ministério dos Transportes na Estratégia Marítima Nacional de Angola.
No continente africano, também valorizamos o intercâmbio com portos como Walvis Bay e os portos de Cabo Verde, cuja tradição portuária é mais antiga. Estes fóruns internacionais permitem-nos criar redes, trocar experiências e acelerar o nosso processo de crescimento.
3. O Porto do Soyo tem investido em modernização, digitalização e reestruturação do transporte fluvial. De que forma a inovação tecnológica e operacional está a criar uma vantagem competitiva sustentável?
Dr. Fernando Dias:
A gestão portuária é, por natureza, um negócio altamente complexo, e no nosso caso essa complexidade é ampliada pelo forte vínculo à indústria petrolífera, um setor extremamente exigente em segurança, ambiente e tecnologia.
Isso obriga-nos a realizar investimentos robustos em modernização e alinhamento com as melhores práticas internacionais. Desde o ano passado, iniciámos um processo estruturado de digitalização do porto, que nos permitirá alcançar níveis de eficiência e segurança comparáveis aos principais portos nacionais.
Reconhecemos que ainda estamos em fase de recuperação e desenvolvimento, mas estamos comprometidos em avançar, mesmo que isso implique investimentos significativos
4. A missão do Porto do Soyo inclui assegurar uma exploração económica sustentável. Do ponto de vista financeiro, como essa missão se traduz em decisões de investimento e alocação de recursos?
Dr. Fernando Dias:
Identificámos um conjunto de prioridades estratégicas, sendo a digitalização uma das mais urgentes. A Organização Marítima Internacional tem exigências cada vez maiores e, após auditorias recentes, foram identificadas insuficiências que nos levaram a acelerar medidas de modernização.
O nosso foco é tornar o porto mais seguro, eficiente e ambientalmente alinhado com padrões internacionais. Para isso, investimos na capacitação do pessoal, na aquisição de sistemas informáticos e digitais e na implementação de práticas ambientais recomendadas globalmente.
O objetivo é posicionar o Porto do Soyo como uma infraestrutura competitiva e aberta ao mundo.
5. Que tipo de cultura organizacional e liderança são necessárias para atrair, reter e desenvolver talento num setor portuário em transformação acelerada?
Dr. Fernando Dias:
Hoje, mais do que nunca, as lideranças devem estar atentas aos novos fenómenos globais. O setor portuário exige profissionais altamente qualificados, e em Angola ainda existe escassez de especialistas nesta área.
Por isso, temos investido fortemente na formação contínua. A nossa força de trabalho é jovem, com média entre 34 e 37 anos, e muitos ainda não possuem formação específica em gestão portuária.
Adotamos uma gestão democrática e participativa, com foco na inovação e no desenvolvimento de um ambiente de trabalho positivo, com vista a atrair quadros tecnicamente capazes e, sobretudo manter os que cá já se encontram, sem descurar a nossa necessidade de criarmos cada vez mais um ambiente de trabalho onde as pessoas se sintam valorizadas e motivadas a contribuir para o crescimento do porto.
6. O Porto do Soyo também contribui para a comunidade local. Pode partilhar exemplos concretos dessas iniciativas?
Dr. Fernando Dias:
Os portos têm uma responsabilidade natural no desenvolvimento das comunidades onde estão inseridos. O Porto do Soyo encontra-se numa região em forte crescimento, e acompanhamos esse processo de forma ativa.
Em novembro do ano passado, iniciámos a construção de um centro de saúde no município do Quelo, a cerca de 70 km do Soyo, que será entregue à administração municipal como contribuição direta para a população local.
Temos igualmente em vista, e isto faz parte do nosso Plano de Acção 2026, a instalação de um Centro de Lazer para indivíduos da 3ª idade, aqui mesmo no município do Soyo, uma vez que notámos que estes fazem parte de uma franja da sociedade que se debate com muitas dificuldades de ordem social, financeira e fundamentalmente no domínio da saúde, logo, a ideia da instalação deste centro visa criar alguns momentos de descontração, socialização e bem-estar para estas pessoas.
Além disso, estamos abertos a apoiar iniciativas empresariais que tragam investimento e emprego, como projetos industriais em negociação, incluindo uma futura fábrica de alumínio, que poderá gerar postos de trabalho e melhorar as condições económicas das famílias da região.
O Porto do Soyo caminha para se tornar uma verdadeira zona económica geradora de riqueza e oportunidades.
7. Projeções indicam que os volumes de carga podem chegar a 664 mil toneladas até 2038. Qual é a visão de longo prazo para o Porto do Soyo num mercado cada vez mais competitivo?
Dr. Fernando Dias:
O Porto do Soyo tem aumentado anualmente o seu volume de cargas, impulsionado pela expansão de parcerias e pela abertura do Terminal Fluvial de Passageiros e Carga do Soyo em 2022, que formalizou serviços antes realizados de forma não estruturada.
Com a futura instalação de projetos industriais, como a fábrica de fertilizantes e potencialmente a fábrica de alumínio, acreditamos que o volume de carga continuará a crescer de forma expressiva.
Esse crescimento trará maior responsabilidade, mas também um futuro promissor para o porto e para toda a comunidade ao redor, gerando emprego, receitas e dinamismo económico.
8. A nível pessoal, o que mais o motiva nesta missão de liderar o Porto do Soyo e que legado gostaria de deixar?
Dr. Fernando Dias:
Assumi funções no Porto do Soyo em 2020 e fui nomeado PCA em março de 2023. Foi um grande desafio, mas acredito que os desafios surgem para pessoas que aceitam servir e construir.
Encontrámos uma empresa com muitas dificuldades, mas hoje sentimos maior estabilidade e capacidade de sonhar com um porto que possa estar ao nível dos principais portos nacionais.
O meu legado será deixar um Porto do Soyo mais competente, competitivo e eficiente — uma instituição onde se reconheça que houve dedicação, serviço e compromisso, não para se servir do porto, mas para servir o porto e Angola.