1. A Ohuasi Investment entrou oficialmente no mercado angolano em 2025, depois de receber aprovação regulatória da Comissão do Mercado de Capitais em 2023, numa altura em que Angola continua a expandir o seu ecossistema financeiro e a sua indústria de investimento. Olhando para o percurso da empresa até agora, qual diria que foi o marco mais importante para a Ohuasi Investment até este momento?
Augusto Baptista: Eu diria que um marco que nós consideramos muito importante para a Ohuasi e para o mercado foi a rentabilidade que trouxemos aos investidores. Temos procurado inaugurar uma nova fase no mercado de capitais angolano, a fase dos fundos de alto rendimento. A nossa solução de investimento, o Fundo Rendimento Mais, marcou o mercado em 2025 por ter sido, provavelmente, o fundo mais rentável até agora do mercado financeiro angolano.
Tratava-se de um fundo de valores mobiliários de apenas seis meses, que nos permitiu demonstrar aos investidores angolanos que é possível alcançar, de forma eficiente e segura, uma taxa de rentabilidade anualizada de 50,34%. É um feito do qual a Ohuasi se orgulha muito, porque tudo o que fazemos é pensado para o crescimento e a segurança do património dos nossos investidores.
Outro marco importante foi a nossa apresentação formal ao mercado, realizada a 23 de abril de 2025. Organizámos um evento com mais de 300 convidados na Sala de Brasões do Liceu Salvador Correia de Sá, atual Mutu-ya-Kevela. Tivemos também a presença do reputado economista britânico Sebastian Mallaby, autor de More Money Than God, que partilhou a sua visão sobre os fundos de investimento, os mercados financeiros e os desafios para a consolidação do setor.
Em 2026, assinalamos ainda dois marcos relevantes: o início da gestão do Fundo Jim Simons Commodities, o nosso primeiro fundo de longo prazo com maturidade de cinco anos, e o lançamento do Fundo Axios, o nosso primeiro fundo de ações, que conta atualmente com uma capitalização próxima dos 160 milhões de dólares.
2. Desde o seu lançamento, a Ohuasi posicionou-se em áreas como gestão de investimentos, soluções de rendimento fixo e serviços de consultoria financeira. Como definiria hoje o negócio principal da Ohuasi Investment, e que áreas da empresa estão a tornar-se mais importantes neste momento?
Augusto Baptista: Fomos além do negócio típico de uma sociedade gestora de fundos. Para além da gestão de investimentos, oferecemos contratos de repo, que permitem aos clientes obter liquidez imediata sem alienar os seus ativos e sem enfrentar os atrasos de um processo de crédito tradicional.
Também disponibilizamos soluções de investimento para clientes que pretendem aplicar liquidez com rentabilidades superiores às oferecidas pelos depósitos a prazo da banca tradicional. Além disso, estruturamos operações de forwards para proteção contra a desvalorização cambial e desenvolvemos soluções de levantamento de capital e dívida adaptadas às necessidades específicas de cada cliente.
Algumas destas soluções são verdadeiramente inovadoras no mercado angolano e, em determinados casos, somos os únicos operadores a disponibilizá-las.
3. A Ohuasi expandiu recentemente a sua oferta de investimento através de produtos como o Fundo Rendimento Mais, ao mesmo tempo que continua a reforçar a sua presença no ecossistema do mercado de capitais em Angola. Nesta fase do desenvolvimento da empresa, que números ou indicadores operacionais refletem melhor o crescimento e o impulso da Ohuasi Investment hoje, seja em termos de atividade dos investidores, ativos sob gestão, crescimento da equipa ou expansão de produtos?
Augusto Baptista: Em termos de crescimento, os números falam por si e são motivo de grande orgulho para a nossa equipa. Iniciámos as nossas operações em 2023, após a aprovação da licença pelo regulador, e desde então os resultados têm sido consistentemente positivos.
Entre 2023 e 2024, os nossos ativos sob gestão cresceram 217%, passando de Kz 3 mil milhões para Kz 8 mil milhões, o equivalente a passar de cerca de 3 para 9 milhões de dólares. Os nossos fundos próprios situam-se em Kz 3 mil milhões e registaram um crescimento de 5% em 2024.
Estes indicadores refletem não apenas expansão, mas também solidez. Temos conseguido crescer mantendo uma estrutura financeira robusta e níveis saudáveis de capitalização própria.
4. O setor financeiro de Angola continua a atrair uma atenção crescente em torno do investimento privado e da diversificação financeira. Onde está atualmente a ver as oportunidades mais fortes de crescimento, tanto para a Ohuasi Investment como para o mercado de investimento de Angola de forma mais ampla?
Augusto Baptista: Angola ainda não figura entre os principais mercados de capitais africanos. A África do Sul lidera atualmente o continente com cerca de 1,3 biliões de dólares em ativos cotados na Bolsa de Joanesburgo. Seguem-se mercados como a Nigéria e Marrocos, com cerca de 400 mil milhões de dólares.
O facto de Angola ainda não surgir entre estes mercados representa simultaneamente um desafio e uma enorme oportunidade. Existe um espaço significativo para crescer ao nível dos IPOs, do levantamento de dívida, da captação de capital e da criação de novos instrumentos financeiros.
Há também um trabalho importante a desenvolver junto dos empresários e empreendedores angolanos para que compreendam que o mercado de capitais não é apenas uma fonte de financiamento, mas também uma poderosa ferramenta de valorização patrimonial.
Os exemplos do BAI, BFA, ENSA e BODIVA demonstram claramente como a entrada em bolsa pode gerar valor significativo para empresas e acionistas. À medida que esta consciência aumentar, acreditamos que o mercado angolano irá crescer de forma acelerada.
5. A Ohuasi Tech foi lançada como parte da estratégia mais ampla da empresa em torno da digitalização, automação e inovação nos serviços financeiros. Como é que estas iniciativas estão a mudar a forma como a Ohuasi opera internamente e presta serviços aos investidores hoje?
Augusto Baptista: O nosso objetivo é construir uma plataforma que democratize o acesso ao mercado de capitais angolano. Queremos permitir que qualquer cidadão possa investir em ações, obrigações ou fundos diretamente através do seu telemóvel ou computador, de forma simples e autónoma.
Pretendemos que o processo de onboarding, bem como a compra e venda de ativos, seja totalmente digital, acessível e intuitivo. Acreditamos que a tecnologia tem um papel fundamental na expansão do mercado e na inclusão de novos investidores.
6. A inclusão financeira e a educação dos investidores estão a tornar-se cada vez mais importantes nos mercados financeiros africanos. Há alguma iniciativa ESG, de literacia financeira ou comunitária que a Ohuasi Investment esteja atualmente a apoiar como parte da sua visão mais ampla de longo prazo?
Augusto Baptista: A responsabilidade social e a sustentabilidade sempre fizeram parte da nossa visão enquanto instituição financeira. Este ano formalizámos esse compromisso através da aprovação do nosso programa ESG e da adesão ao UN Global Compact.
No domínio da literacia financeira, criámos o Ohuasi Markets, uma iniciativa dedicada à educação dos investidores e à divulgação de conhecimento sobre o mercado de capitais angolano. Produzimos conteúdos acessíveis e em linguagem simples para explicar conceitos como ações, obrigações, IPOs e o funcionamento dos mercados financeiros.
Acreditamos que um mercado de capitais mais desenvolvido começa por cidadãos mais informados e mais preparados para tomar decisões de investimento conscientes.
7. Angola continua a expandir a sua infraestrutura financeira à medida que novos produtos de investimento, instituições e oportunidades de capital privado entram no mercado. Quais são as principais prioridades da Ohuasi Investment para os próximos anos em termos de crescimento, expansão de mercado, desenvolvimento de produtos e posicionamento de longo prazo?
Augusto Baptista: A nossa missão, nos próximos três a cinco anos, é realizar uma colocação privada de capital e atrair investidores institucionais que nos permitam fortalecer a nossa estrutura acionista e expandir a nossa presença regional.
O nosso objetivo é aumentar a relevância da Ohuasi na África Austral e criar pontes para mercados mais desenvolvidos, particularmente o mercado sul-africano.
Num horizonte de cinco a dez anos, pretendemos realizar uma oferta pública e colocar parte do capital da empresa em bolsa. Consideramos importante que uma instituição que atua no mercado de capitais participe também diretamente nesse mercado.
Idealmente, gostaríamos de concretizar uma estratégia de dual listing, permitindo que a Ohuasi esteja cotada não apenas em Angola, mas também noutras bolsas africanas.
Continuaremos igualmente focados em apoiar os nossos clientes, desenvolver soluções seguras para os investidores e assegurar que os projetos em que participamos mantêm padrões rigorosos de gestão de risco.
8. Augusto, com mais de 20 anos de experiência nas áreas de banca, gestão de investimentos e consultoria financeira, incluindo cargos de liderança no Banco Millennium Atlântico e no Banco Atlântico Europa, bem como experiência na ExxonMobil de que forma essas experiências moldaram a maneira como lidera hoje a Ohuasi Investment, e que legado gostaria de deixar no futuro?
Augusto Baptista: Ao longo de mais de 20 anos de experiência, a principal lição que retirei é que aquilo que verdadeiramente faz a diferença nas organizações são as pessoas.
Por essa razão, acredito que uma das áreas onde os líderes devem investir mais tempo é no processo de integração, desenvolvimento e valorização das equipas. São as pessoas que constroem organizações fortes e sustentáveis.
Costumo recordar uma ideia frequentemente associada a grandes líderes empresariais: devemos contratar caráter e desenvolver competências. As competências podem ser ensinadas; o caráter é aquilo que define a forma como as pessoas enfrentam desafios e constroem resultados.
Por isso, o legado que gostaria de deixar não é um produto, um número ou uma posição de mercado. O meu maior legado será o impacto positivo nas pessoas que cresceram, se desenvolveram e construíram as suas carreiras através da Ohuasi, continuando a criar valor muito para além daquilo que hoje conseguimos imaginar.


































































































