1. Após décadas a apoiar a infra-estrutura de comunicações do país, a empresa opera hoje num mercado muito mais competitivo e orientado pela tecnologia. Que marcos definem melhor a sua evolução recente e de que forma está a reposicionar a Angola Telecom para a próxima etapa da sua história?
Adilson Miguel dos Santos: É uma honra termos sido escolhidos para partilhar o percurso recente da Angola Telecom e, sobretudo, a visão que orienta o seu futuro.
Ao longo de décadas, a Angola Telecom desempenhou um papel estruturante na construção da conectividade nacional. Uma parte significativa da rede que transporta comunicações entre as diferentes regiões do país foi desenvolvida e sustentada pela empresa. Essa herança continua a ser um activo estratégico, mas não a encaramos como um ponto de chegada: é a base sobre a qual estamos a construir uma Angola Telecom mais moderna, mais aberta e mais relevante.
O nosso principal compromisso, em alinhamento com o accionista Estado, é contribuir para que a banda larga chegue progressivamente a todo o território nacional. Trata-se de uma ambição que exige investimentos muito elevados e uma visão de longo prazo, sobretudo nas zonas onde a rentabilidade imediata não é suficiente para mobilizar outros operadores.
É precisamente nesse contexto que estamos a modernizar, ampliar e reforçar a capacidade da Rede Nacional de Banda Larga. O nosso reposicionamento passa por afirmar a Angola Telecom como uma plataforma nacional de infra-estrutura, capaz de servir os cidadãos, as empresas, a Administração Pública e os restantes operadores.
Hoje, os principais operadores de telecomunicações em Angola são clientes da Angola Telecom. No mercado grossista — isto é, na prestação de conectividade e capacidade de rede a outros operadores — a nossa infra-estrutura permite que diferentes empresas levem serviços às várias regiões do país. Num sector cada vez mais competitivo, a nossa diferenciação está em sermos um facilitador do ecossistema e um verdadeiro “operador dos operadores”.
2. A Angola Telecom combina o seu papel histórico com infra-estruturas e serviços que apoiam empresas, instituições e a Administração Pública. Que indicadores demonstram melhor a dimensão actual da empresa e os resultados alcançados com a sua estratégia de transformação?
Adilson Miguel dos Santos: A transformação da Angola Telecom mede-se, antes de mais, pela recuperação da sua relevância estratégica. Houve um período em que se chegou a questionar a continuidade da empresa. Hoje, todos os principais operadores do mercado angolano utilizam os nossos serviços ou a nossa infra-estrutura. Esse facto traduz uma mudança profunda na percepção do mercado e no posicionamento da empresa.
Todos os operadores relevantes recorrem à Angola Telecom para suportar parte das suas necessidades de conectividade. Voltámos, assim, a ocupar uma posição central no ecossistema nacional das telecomunicações e a estar, no nicho de empresas (2) com maior presença infra-estrutural no país.
Dispomos de mais de 14 mil quilómetros de fibra óptica, complementados por diversas redes metropolitanas e estamos presentes nas 21 províncias. O desafio permanece significativo, mas a trajectória é inequívoca: estamos a aumentar a presença territorial, a capacidade da rede e a qualidade do serviço.
Estamos igualmente a levar fibra óptica às centralidades, incluindo localidades que anteriormente dependiam exclusivamente de redes móveis. Esta expansão não se limita a Luanda; abrange centralidades em diferentes províncias e cria condições para que um número crescente de famílias, empresas e instituições tenha acesso a conectividade fixa de elevada qualidade. Prevemos também lançar, até Novembro, uma nova oferta residencial assente nesta infra-estrutura.
O elemento distintivo da nossa estratégia é a partilha. A infra-estrutura que construímos não se destina apenas à Angola Telecom: é concebida para poder ser utilizada por diferentes operadores. É desta forma que contribuímos para acelerar a transformação digital do país, evitar investimentos redundantes e tornar a conectividade mais acessível e abrangente.
3. O recente investimento de 100 milhões de dólares norte-americanos da Corporação Financeira Internacional (IFC), instituição do Grupo Banco Mundial, em infra-estruturas de centros de dados em África inclui Angola e reflecte a crescente procura por alojamento local de dados e serviços digitais seguros. Como está a Angola Telecom a adaptar a sua rede e o seu portefólio a este novo cenário?
Adilson Miguel dos Santos: A Angola Telecom tem procurado manter uma posição pioneira em matéria de inovação. Estamos a concluir a modernização da Rede Nacional de Banda Larga, que deverá disponibilizar capacidades entre aproximadamente 400 gigabits por segundo e 1,6 terabits por segundo. Estas unidades medem o volume de dados que a rede consegue transportar em cada segundo; uma capacidade de 1,6 terabits coloca-nos num patamar muito relevante, não apenas em Angola, mas também no contexto africano.
Esta capacidade constitui a base para uma nova geração de serviços digitais. Continuamos a expandir a fibra óptica e as redes sem fios de quarta e quinta geração, criando condições para ligações mais rápidas, maior estabilidade e novas aplicações para cidadãos, empresas e instituições públicas.
Ao mesmo tempo, estamos a evoluir do fornecimento tradicional de conectividade para uma oferta mais ampla de infra-estruturas digitais. A Angola Telecom está a criarr um novo centro de dados — ou data center —, apoia o centro de dados do Governo e avalia novas parcerias neste domínio. Pretendemos igualmente desenvolver soluções de computação em nuvem, habitualmente designadas por cloud, que permitam armazenar, processar e disponibilizar dados e aplicações a partir de infra-estruturas localizadas no país.
Quanto maior for a quantidade de conteúdos, dados e serviços alojados em Angola, menor será a dependência de ligações internacionais para aceder a informação produzida e consumida localmente. Isso pode traduzir-se em melhor desempenho, maior eficiência de custos e no fortalecimento do ecossistema digital nacional.
A parceria com o maior operador móvel para utilização partilhada de infra-estruturas enquadra-se nesta mesma visão. Em vez de duplicarmos investimentos onde já existe capacidade, procuramos utilizar os recursos disponíveis de forma mais eficiente e direccionar novo investimento para as regiões que ainda não dispõem de conectividade adequada.
4. A posição da Angola Telecom no ecossistema nacional das telecomunicações proporciona-lhe acesso a infra-estruturas, conhecimento técnico e relações institucionais construídas ao longo de muitos anos. Que parcerias têm sido mais importantes para a transformação da empresa e onde identifica as maiores oportunidades de crescimento?
Adilson Miguel dos Santos: A Angola Telecom é, por vocação, uma empresa que aposta no desenvolvimento de parcerias. O nosso ressurgimento tem sido amplamente sustentado pela capacidade de construir alianças em torno de objectivos concretos, com benefícios para as empresas envolvidas e, acima de tudo, para o país.
No último ano, celebrámos acordos com o maior operador móvel nacional para a utilização partilhada das redes das duas empresas, em função das necessidades de cobertura e capacidade. Este é um passo particularmente relevante num mercado em que, durante muito tempo, a infra-estrutura foi vista apenas como um factor de diferenciação concorrencial. Estamos a demonstrar que também pode ser uma plataforma de cooperação, eficiência e expansão do serviço.
Celebrámos igualmente vários contratos de parceria com operadores relevantes no mercado e estabelecemos um acordo com a Telecom Namíbia no âmbito de um projecto de conectividade regional já aprovado e actualmente em fase inicial de preparação.
O objectivo é construir o primeiro cabo submarino a cobrir toda a costa angolana e prolongar essa ligação para a região, tendo a Namíbia como primeiro destino internacional.
Esta iniciativa responde a uma prioridade estratégica nacional: reforçar a ligação de Angola aos países vizinhos e posicionar o país como uma plataforma regional de conectividade. As maiores oportunidades de crescimento encontram-se precisamente na interligação regional, no mercado grossista, na partilha de infra-estruturas e nos novos serviços digitais que podem ser desenvolvidos sobre redes de elevada capacidade.
A nossa orientação é simples: queremos fazer parte da solução. Procuramos parcerias mutuamente vantajosas, mas avaliamos o seu mérito também pela capacidade de gerar desenvolvimento, inclusão e maior competitividade para Angola.
5. As redes fixas e as infra-estruturas digitais exigem elevados níveis de energia, equipamentos e manutenção de longo prazo. Em termos práticos, o que está a Angola Telecom a fazer para melhorar a eficiência energética, reduzir o impacto ambiental e gerir de forma mais sustentável os seus activos tecnológicos?
Adilson Miguel dos Santos: A energia é simultaneamente um desafio operacional e uma prioridade estratégica. Estamos a substituir progressivamente parte da infra-estrutura dependente de combustíveis fósseis por soluções de energia solar, baterias e equipamentos mais eficientes. Esta transição permite reduzir o consumo de combustível, aumentar a autonomia dos locais técnicos e manter a rede em funcionamento em regiões onde o fornecimento público de electricidade ainda não apresenta a cobertura necessária.
Não seria realista afirmar que conseguiremos eliminar completamente as fontes fósseis no curto prazo. Contudo, onde existe energia pública estável, já registamos uma redução significativa da utilização de geradores; onde essa cobertura ou estabilidade ainda não existe, estamos a adoptar soluções híbridas e fontes de energia mais limpas.
Estamos também a renovar o “core“ tecnológico da empresa — o conjunto de sistemas centrais que suporta o funcionamento da rede — e a substituir equipamentos por soluções com menor consumo energético. Esta modernização reduz a energia necessária para transportar e processar dados e melhora a eficiência global da operação.
A partilha de infra-estruturas é igualmente uma medida de sustentabilidade. No passado, era frequente encontrarmos, num mesmo local, vários geradores, conjuntos de painéis e equipamentos pertencentes a operadores diferentes. Ao permitir que uma única infra-estrutura sirva várias redes, reduzimos a duplicação de activos, o consumo de energia, a utilização de materiais e o volume futuro de resíduos electrónicos associados a equipamentos redundantes.
O Projecto Iluminar Angola incorpora esta lógica: a mesma torre, o mesmo sistema energético e a mesma ligação de transmissão podem suportar diferentes operadores. Este modelo deverá produzir ganhos relevantes em matéria ambiental, social e de governação — os três pilares normalmente sintetizados pela sigla ESG — e poderá tornar-se uma referência para outros mercados da região.
6. Como empresa pública com um mandato nacional, a Angola Telecom pode levar conectividade para além dos mercados urbanos mais rentáveis. Que programas está a desenvolver para escolas, serviços públicos e comunidades menos servidas, e que resultados já foram alcançados?
Adilson Miguel dos Santos: O nosso mandato social encontra uma das suas expressões mais claras nos Projectos Iluminar Angola e Conecta Angola. Ambos demonstram que a conectividade não é apenas um serviço tecnológico: pode ser um instrumento de inclusão, educação, acesso aos serviços públicos e dinamização económica.
O Projecto Iluminar Angola procura reduzir as zonas sem cobertura móvel através da instalação de torres, equipamentos de rádio e sistemas de energia. Uma ligações de transporte em satélite, tecnicamente designada por backhaul, conecta a torre local à rede principal e ligar aqueles cidadãos ao restante do país e ao mundo. A infra-estrutura pode ser utilizada por todosbos operadores móveis, evitando que cada umtenha de construir uma solução autónoma no mesmo local.
Já desenvolvemos projectos-piloto no Cuanza Norte e no Moxico. No Cuanza Norte, a instalação da infra-estrutura gerou um impacto que ultrapassou a própria cobertura móvel: aumentou o movimento na comunidade, surgiram pequenos espaços de comércio e convívio e foi possível partilhar com a população parte da energia excedente produzida pelo sistema. Para tornar esse benefício sustentável, foram disponibilizadas lâmpadas LED de baixo consumo e promovido o uso racional da energia.
O Conecta Angola, desenvolvido em parceria com o Gabinete de Gestão do Programa Espacial Nacional, utiliza a capacidade do satélite nacional para levar conectividade a municípios que ainda não dispunham deste serviço. Foram instalados kits em administrações municipais e escolas por todo país. Nas administrações, a população passou a aceder com maior facilidade a serviços públicos; nas escolas, os alunos ganharam acesso à Internet, a ferramentas de pesquisa e a outros recursos educativos.
Em algumas comunidades, as pessoas tinham de percorrer 20 ou 30 quilómetros para realizar uma chamada. A possibilidade de comunicar a partir da própria localidade produziu um impacto humano muito significativo. O projecto está presente em todo o país e tem despertado o interesse de paises fronteiriços já tendo sido instalado na Zâmbia e da Namíbia.
A vertente social evoluiu ainda para o Conecta Comercial, orientado para empreendedores e empresas emergente (startups). Estas iniciativas recebem um kit de conectividade e um período para desenvolver o negócio, com a responsabilidade de manter o equipamento funcional e assegurar a continuidade do serviço na comunidade.
7. A procura por conectividade em fibra, serviços de computação em nuvem e infra-estruturas digitais seguras continua a crescer em Angola. Quais são as principais prioridades da Angola Telecom em matéria de investimento, expansão de serviços e criação de valor de longo prazo para o país?
Adilson Miguel dos Santos: A nossa primeira prioridade é melhorar a cobertura nacional de fibra óptica. Estivemos concentrados em garantir a ligação as capitais provinciais, mas o verdadeiro desafio é aproximar a rede dos municípios, comunas, bairros, empresas e famílias. Num território com 1.246.700 quilómetros quadrados, esta é uma missão de grande escala, que exige continuidade, disciplina de investimento e capacidade de cooperação.
A segunda prioridade é reforçar a integração regional. A conclusão do cabo submarino regional permitirá que países vizinhos obtenham conectividade através de Angola e que o nosso país aceda, em melhores condições, a conteúdos, serviços e capacidade provenientes da região. Esta interligação poderá reduzir custos, aumentar a resiliência das redes e criar novas oportunidades de negócio.
A terceira prioridade é desenvolver capacidade digital local. Pretendemos aumentar o número de centros de dados, expandir soluções de computação em nuvem e criar condições para que mais conteúdos, aplicações e serviços sejam alojados e acedidos dentro de Angola. A disponibilidade de energia relativamente estável e competitiva pode tornar o país mais atractivo para novas infra-estruturas digitais, incluindo as que suportam inteligência artificial e servidores de elevada capacidade.
Nos próximos cinco anos, esperamos mudanças relevantes associadas ao desenvolvimento do Corredor do Lobito, à chegada de novos cabos de telecomunicações e ao reforço da capacidade energética do país. A Angola Telecom pretende estar no centro dessa evolução, garantindo grande capacidade de transmissão na Rede Nacional de Banda Larga, nas redes metropolitanas e nas ligações que chegam directamente aos cidadãos e às empresas.
Nenhuma destas prioridades será executada de forma isolada. Continuaremos abertos à partilha de infra-estruturas e ao trabalho com parceiros nacionais e internacionais. Fazer tudo sozinho seria mais lento, mais caro e menos eficiente. Criar valor de longo prazo significa combinar investimento, cooperação e uma visão clara do papel que a conectividade desempenha no desenvolvimento económico e social de Angola.
8. Engenheiro Adilson, ao longo da sua carreira combinou a formação em engenharia com funções de liderança executiva e tem agora a responsabilidade de conduzir uma das mais históricas empresas públicas de Angola num momento decisivo da sua transformação. De que forma esta experiência moldou a sua visão de liderança e que legado espera deixar na história da empresa e no futuro digital de Angola?
Adilson Miguel dos Santos: É uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, um motivo de profundo orgulho poder contribuir para a história de Angola e para a evolução das telecomunicações no país. Reposicionar a Angola Telecom foi um processo exigente. Se recuarmos a 2018, encontramos uma empresa que, por diversas razões, tinha perdido uma parte significativa da sua relevância. Chegar a 2026 e voltar a vê-la reconhecida como uma das principais empresas de infra-estrutura de telecomunicações do país é, por si só, um resultado muito importante.
A confiança do Governo de Angola, traduzida na atribuição de financiamento para a expansão da infra-estrutura nacional, reforça a responsabilidade que assumimos. Estamos a instalar fibra óptica cuja vida útil pode situar-se entre 25 e 50 anos. Isto significa que as decisões tomadas hoje continuarão a servir o país durante várias gerações.
O legado que desejamos deixar não se resume, contudo, ao número de quilómetros de fibra instalados. Queremos deixar uma empresa novamente relevante, capaz de crescer, de cooperar com o mercado e de colocar a sua infra-estrutura ao serviço de todo o ecossistema. A cultura de partilha que estamos a construir é particularmente importante, porque este modelo de colaboração tinha ainda uma expressão reduzida no país.
Recebemos igualmente com orgulho a publicação do decreto presidencial que prevê a transformação da Angola Telecom de empresa pública em sociedade anónima. A intenção do Governo de alienar uma participação de 15% e de criar, no futuro, condições para uma eventual presença em bolsa demonstra que a empresa recuperou credibilidade e voltou a ser considerada um activo estratégico com potencial de valorização.
Entrevistador: Posteriormente, poderá também ser realizada uma oferta pública inicial?
Adilson Miguel dos Santos: Essa é a perspectiva. A transformação em sociedade anónima constitui um passo essencial para que, no futuro, a Angola Telecom possa reunir as condições de governação, transparência e desempenho exigidas a uma empresa cotada em bolsa. Se esse objectivo vier a concretizar-se, será também o resultado do trabalho de transformação que estamos hoje a desenvolver.
Orgulha-nos igualmente a evolução de empresas participadas como a Angola Cables, a TV Cabo e a Multitel. Contribuir para que estas empresas se tornem mais fortes e mais relevantes é parte da responsabilidade da nossa liderança e do contributo que pretendemos dar ao desenvolvimento do país.
No final, gostaria que esta etapa fosse recordada como o momento em que a Angola Telecom recuperou a confiança, modernizou a sua infra-estrutura, voltou a crescer e ajudou a criar as bases de um futuro digital mais integrado, inclusivo e ambicioso para Angola.


































































































