1. Senhor Diogo, antes de começarmos, gostaria apenas de dizer que, para nós, esta entrevista é muito importante. O nosso objetivo é compreender melhor a visão da Infrasat, o seu contributo para o desenvolvimento digital de Angola e o papel que desempenha no futuro do país. Agradeço muito a sua disponibilidade e o seu tempo. Agora, gostaria de falar sobre o papel da Infrasat na infraestrutura digital de Angola. Nesse sentido, quais foram os marcos mais importantes da Infrasat e de que forma o seu papel evoluiu na sociedade da informação em Angola?
Diogo de Carvalho:
Primeiramente, muito obrigado pela oportunidade.
A Infrasat tem sensivelmente 18 anos no mercado. A empresa surgiu de uma iniciativa do Estado, precisamente porque, quando falamos de digitalização, empresas como a nossa crescem com essa finalidade.
No início, existiam muitas dificuldades de comunicação. As infraestruturas não chegavam a todo o país e, para determinados pontos, a forma mais rápida de levar comunicação era através do satélite. Foi nesse contexto que o Governo tomou a decisão de criar a Infrasat, inicialmente como um projecto multissetorial, destinado a servir diferentes sectores, tanto públicos como privados.
No sector público, trabalhámos com ministérios, Forças Armadas, serviços de Bilhete de Identidade e Justiça, Ministério da Saúde, entre outros. No sector privado, atendemos a banca, pequenas, médias e grandes empresas, sobretudo aquelas que tinham operações fora de Luanda.
Ao mesmo tempo, no âmbito do projecto Angosat, começámos a preparar o chamado ground segment, ou seja, a infraestrutura terrestre que permitiria suportar a capacidade do satélite angolano.
Ao longo dos anos, a Infrasat passou a trabalhar com diferentes plataformas e satélites, levando comunicações a vários pontos do país. Hoje, com os recursos do satélite angolano, temos também a possibilidade de levar essa capacidade para outros mercados africanos e para outras regiões abrangidas pela sua cobertura.
Isso dá-nos uma vantagem importante.
Hoje, quando participamos em fóruns nacionais e internacionais, já não discutimos apenas conectividade. A questão é: como é que, através dessa conectividade, conseguimos transformar uma vila, uma comunidade ou uma determinada localidade?
É aí que a Infrasat entra, trabalhando com os seus parceiros.
Hoje prestamos serviços aos operadores móveis nacionais e levamos conectividade a zonas rurais e remotas. O satélite continua a ser fundamental, sobretudo onde a densidade populacional é baixa e a implementação de infraestruturas terrestres pode ser mais onerosa ou demorada.
Em determinados casos, conseguimos instalar uma solução em poucos dias e colocar uma comunidade a comunicar e a aceder à Internet.
Temos também uma presença importante em áreas como a Justiça. Existem pontos em todo o país onde é possível tratar serviços de identificação a partir da própria localidade, e nós asseguramos a componente de conectividade necessária para que esses serviços funcionem.
Na saúde, também prestamos serviços de telemedicina através de links de comunicação.
No fundo, o que procuramos fazer é não levar apenas conectividade, mas também valor acrescentado. A pergunta que fazemos é: o que é que essa conectividade vai fazer naquela comunidade? Que transformação pode gerar?
Se for uma zona agrícola, por exemplo, podemos criar condições de comunicação que contribuam para melhorar o controlo, a gestão e a eficiência das actividades.
Hoje já não somos apenas um provedor de comunicação por satélite. Trabalhamos também com rádio, fibra óptica e outras tecnologias, de acordo com as necessidades do cliente.
A nossa preocupação é combinar diferentes tecnologias para oferecer soluções resilientes, confiáveis e adequadas a cada realidade.
2. Passando agora para escala e resultados, que números demonstram melhor a escala atual da Infrasat e o valor que está a criar para Angola?
Diogo de Carvalho:
Quando olhamos para a história da Infrasat, percebemos que o valor que a empresa agrega está também relacionado com a capacidade que conseguimos desenvolver internamente.
Há alguns anos, os serviços por satélite eram muito mais caros e dependíamos muito mais de recursos externos, inclusive para determinadas operações técnicas.
Ao longo do tempo, investimos fortemente na formação das nossas equipas. Hoje temos profissionais capacitados para instalar, operar, manter e optimizar as nossas soluções, muitas vezes sem necessidade de recorrer a equipas externas.
Isso representa eficiência, conhecimento local e maior capacidade de resposta.
Com a entrada em operação do satélite angolano, ganhámos também maior eficiência, capacidade e cobertura. A Infrasat passou a ter condições para explorar novas oportunidades e apoiar projectos que ultrapassam as fronteiras de Angola.
Temos participado em iniciativas e eventos na região, levando conectividade a locais onde as infraestruturas de comunicação são limitadas.
E este é um ponto importante: a Infrasat está a entrar numa nova fase.
Já estamos a trabalhar no nosso processo de internacionalização, começando pelo continente africano. A capacidade que temos disponível permite-nos olhar para além do mercado nacional e identificar oportunidades em outros países.
Existe, portanto, um esforço conjunto com os nossos parceiros e com o ecossistema espacial nacional para que a capacidade do satélite angolano possa ser cada vez mais utilizada em África.
O nosso objectivo é que a experiência e o conhecimento que construímos em Angola possam também ser transformados em valor para outros mercados.
3. Falando agora um pouco mais de inovação e tecnologia, como está a Infrasat a utilizar a tecnologia para reforçar a conectividade, a resiliência e o acesso à informação em Angola?
Diogo de Carvalho:
É importante fazer aqui uma distinção. Existem diferentes tipos de satélites: os geoestacionários, os de órbita média e os de órbita baixa.
Tradicionalmente, utilizamos satélites geoestacionários, como é o caso do Angosat-2. Esta tecnologia permite-nos ter uma cobertura muito ampla e prestar serviços de comunicação em grandes áreas.
Mas o mercado está a evoluir e nós temos de evoluir com ele.
Trabalhamos com vários fabricantes e fornecedores de equipamentos de referência internacional, como iDirect, Gilat, Comtech e outros. A Infrasat é muito criteriosa nessa escolha porque entendemos que a qualidade dos equipamentos é fundamental para garantir a qualidade do serviço.
Estamos permanentemente a modernizar a nossa rede. Com equipamentos mais eficientes, conseguimos extrair mais capacidade da infraestrutura existente e disponibilizar melhores serviços aos nossos clientes.
Ao mesmo tempo, existem novas oportunidades com os satélites de média e baixa órbita.
Temos acompanhado muito de perto esta evolução e estabelecido parcerias porque entendemos que não existe uma única tecnologia capaz de responder a todas as necessidades.
O satélite geoestacionário continua a ter uma vantagem muito importante em termos de cobertura. Já as constelações de baixa órbita permitem reduzir significativamente a latência e oferecer experiências diferentes, sobretudo para aplicações que exigem maior interactividade.
É por isso que temos acompanhado soluções LEO e desenvolvido parcerias nesta área. Estamos a trabalhar com parceiros como a OneWeb, com quem já realizámos testes e avançámos no desenvolvimento de projectos.
A tecnologia está a evoluir rapidamente e novas constelações estão a surgir em diferentes partes do mundo.
Para a Infrasat, o mais importante é não ficar de fora desta transformação.
Temos de nos associar, modernizar e continuar a trabalhar para oferecer aos nossos clientes a melhor solução, utilizando a tecnologia mais adequada a cada necessidade.
4. No mesmo contexto, que iniciativas de responsabilidade social ou projetos focados nas comunidades está a Infrasat a desenvolver para criar valor duradouro para as pessoas e comunidades em Angola?
Diogo de Carvalho:
Temos várias iniciativas de responsabilidade social.
Apoiamos escolas e projectos ligados à saúde, incluindo iniciativas relacionadas com a hidrocefalia, e procuramos contribuir para causas que tenham impacto directo nas comunidades.
Temos também um projecto com uma forte componente social chamado Liga-Liga.
O Liga-Liga nasceu para responder às necessidades de comunicação de pessoas que vivem em zonas muito distantes e onde as alternativas tradicionais de comunicação são limitadas.
Com o serviço, as pessoas conseguem utilizar cartões para efectuar chamadas e comunicar com outras pessoas, mesmo estando em zonas remotas.
Recentemente, lançámos uma nova versão, o Smart Liga-Liga, que procura responder precisamente a uma das limitações que identificámos no modelo anterior: a mobilidade.
Antes, muitas pessoas tinham de deslocar-se até um ponto específico para utilizar o serviço. Hoje, com a aplicação, o utilizador pode ter o Liga-Liga no próprio smartphone.
A comunicação é assegurada através da nossa infraestrutura, que recebe o sinal via satélite e faz a integração com as redes dos operadores e outros parceiros.
Mas, para nós, o Smart Liga-Liga representa mais do que um produto.
Queremos que a conectividade seja também uma ferramenta de inclusão digital, de aproximação entre comunidades e de criação de oportunidades económicas.
Quando uma comunidade passa a comunicar melhor, abre-se espaço para novas actividades, novos serviços e novas oportunidades.
É essa transformação que queremos ajudar a promover.
5. Muito obrigada pelo seu tempo, Sr. Diogo. Para terminar, gostaria de fazer uma última pergunta mais pessoal sobre liderança e legado. A sua carreira está fortemente ligada às telecomunicações, à engenharia eletrónica e à gestão de portefólio de serviços de Angola. Tendo em conta este percurso, de que forma a sua experiência técnica moldou a sua visão para a Infrasat e que legado gostaria de construir para o futuro digital de Angola?
Diogo de Carvalho:
É uma pergunta interessante e que toca vários pontos.
Trabalho nesta área há sensivelmente 20 anos e sempre estive ligado à área de satélite. É uma paixão que fui desenvolvendo ao longo da minha carreira.
A minha formação é mais ampla, mas acabei por me especializar nesta área. Passei por diferentes posições e tive a oportunidade de trabalhar com profissionais muito experientes, que contribuíram para a minha formação.
Uma das principais lições que retirei desse percurso é que uma empresa não pode depender de uma única pessoa.
As coisas não podem estar amarradas a mim. As coisas têm de estar disponíveis para a empresa.
Por isso, uma das nossas prioridades é formar bons quadros e garantir que o conhecimento permanece dentro da organização.
A política de formação da Infrasat é exigente. Temos formações fora do país, formações online e também training on the job, trazendo profissionais especializados para trabalhar directamente com as nossas equipas.
Eu próprio tive a honra de trabalhar com profissionais e mentores que me ensinaram muito. Aprendi com eles a importância de transmitir conhecimento e de deixar um legado.
Hoje, procuro fazer exactamente o mesmo.
Acredito que um dos maiores legados que podemos deixar é uma equipa preparada, autónoma e capaz de continuar a construir a empresa no futuro.
A Infrasat trabalha num sector que não pára. Temos clientes exigentes, uma operação que funciona permanentemente e uma responsabilidade muito grande na garantia da continuidade dos serviços.
Por isso, temos de continuar a investir nas pessoas, na tecnologia e nas parcerias.
O meu desejo é que a Infrasat continue a ser uma empresa forte, inovadora e preparada para responder aos desafios de Angola e de África.
E, acima de tudo, que possamos contribuir para um futuro em que a conectividade não seja apenas acesso à tecnologia, mas uma verdadeira ferramenta de desenvolvimento económico e social.
Esse, para mim, é o verdadeiro legado: deixar pessoas preparadas, uma empresa mais forte e contribuir para um Angola mais conectado e preparado para o futuro.


































































































