1. O projecto tem recebido um forte apoio internacional e está a posicionar cada vez mais Angola como uma porta de entrada estratégica no Atlântico para o comércio regional. Neste sentido, que marcos demonstram melhor o progresso do Corredor, e que papel desempenhou a AFTTCL na sua concretização?
Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes: Considero importante começarmos pelo contexto histórico. Fala-se muito do Corredor do Lobito, mas é necessário ter em conta que ele já existe há quase um século. A construção do Caminho de Ferro de Benguela começou em 1903. Quando se fala do Corredor do Lobito, a primeira ideia que surge é normalmente a de um corredor destinado ao transporte de mercadorias. A concessão inicial do caminho de ferro estava precisamente relacionada com o transporte, sobretudo de mercadorias provenientes do Congo, cujas actividades mineiras já existiam naquela época. O objetivo era fazer com que essas mercadorias chegassem mais rapidamente aos mercados externos através do Porto do Lobito.
Foi assim que se começou a criar uma infraestrutura que, com o tempo, também impulsionou o desenvolvimento das cidades localizadas ao longo do corredor. Costuma dizer-se que, quando se constrói um caminho de ferro, ele traz desenvolvimento. Esse desenvolvimento sempre existiu, embora anteriormente o Caminho de Ferro de Benguela fosse visto sobretudo a partir de uma perspectiva nacional.
Hoje, o Corredor do Lobito assume uma dimensão diferente. Esta evolução também resulta das iniciativas desenvolvidas a nível continental e mundial em torno dos corredores de desenvolvimento. Muitos países possuem corredores desta natureza, e África não poderia ficar à margem dessa evolução.
A criação de instituições regionais como a SADC, a COMESA e outras organizações de integração está relacionada, entre outros objetivos, com a promoção do comércio intra-africano. Sabemos que esse comércio continua, infelizmente, muito reduzido. Uma das razões é precisamente a falta de conectividade. Não existem entre os nossos países as ligações rodoviárias, ferroviárias e aéreas que deveriam existir.
A Etiópia possui actualmente um hub aéreo que estabelece ligações com praticamente todo o continente. A África do Sul perdeu parte da posição que anteriormente detinha nesse domínio. Angola pretende transformar o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto num hub regional, embora saibamos que isso constitui um processo.
O Caminho de Ferro de Benguela também contribui para este processo de integração. Actualmente, existe um claro interesse político por parte de Angola, da Zâmbia e da República Democrática do Congo em criar não apenas um corredor de transporte, mas em transformar o Corredor do Lobito num corredor de desenvolvimento económico e social para os três países.
Foi nesta perspetiva que se criou a Agência de Facilitação do Transporte de Trânsito do Corredor do Lobito. Numa primeira fase, o seu principal objetivo é facilitar as ligações e a articulação entre os três países. Trata-se de uma agência internacional e intergovernamental, com sede no Lobito, instituída em 2023. O seu processo de implementação continua em curso. Fui nomeado Secretário Executivo em maio do ano passado.
Pretendemos que esta instituição consiga articular-se com os três países a nível institucional. Uma das nossas primeiras tarefas é promover a harmonização legislativa. Embora Angola, Zâmbia e República Democrática do Congo sejam membros da SADC, e embora a Zâmbia e a República Democrática do Congo também integrem a COMESA, cada país é soberano e possui legislação, procedimentos e taxas aduaneiras próprios.
Precisamos, portanto, de harmonizar este trabalho. É por isso que a instituição se chama Agência de Facilitação. Queremos que os comboios circulem mais rapidamente e permaneçam menos tempo nas fronteiras.
Neste momento, o Corredor do Lobito liga o Lobito ao Luau e, através dessa fronteira, à República Democrática do Congo. Contudo, o trajecto entre o Luau e as regiões mineiras congolesas constitui outro processo que também deve ser analisado pela Agência.
Do lado angolano, a infraestrutura ferroviária encontra-se operacional. No lado da República Democrática do Congo, também funciona, mas ainda não apresenta as mesmas condições. Uma mercadoria proveniente do Congo poderia chegar ao Lobito em aproximadamente cinco dias, mas actualmente pode demorar cerca de dez dias. O tempo adicional resulta das condições da infraestrutura entre a fronteira, as zonas mineiras e o processo de carregamento e regresso dos comboios.
Estamos a trabalhar nesta matéria como uma agência internacional em que estão representados os três governos. A estrutura inclui uma direcção angolana, uma congolesa e uma zambiana. Ter representantes dos três países facilita a ligação com as respetivas instituições nacionais.
Esta estrutura também exige um esforço linguístico, uma vez que trabalhamos em português, francês e inglês. Actualmente, sou a única pessoa dentro da estrutura que fala as três línguas. Estamos, por isso, a desenvolver um trabalho de capacitação técnica e linguística para que todos consigamos trabalhar em sintonia.
Depois da facilitação do transporte, existe a vertente do desenvolvimento económico e social, que é fundamental. Quando analisamos os três países, estamos a falar de cinco províncias angolanas, três ou quatro províncias da República Democrática do Congo e mais três províncias da Zâmbia. No total, esta região abrange aproximadamente 30 milhões de pessoas, o que representa um mercado significativo para o Corredor do Lobito.
Em Angola, o corredor atravessa Benguela, Huambo, Bié, Moxico e Moxico Leste. Cada uma destas províncias possui os seus próprios planos de desenvolvimento. Conheço esses planos, inclusive devido à minha experiência anterior como Secretário de Estado do Comércio. O objetivo é analisar esses instrumentos nacionais e provinciais, articulando-os com o crescente interesse internacional pelo desenvolvimento do corredor.
A Agência mantém uma relação muito próxima com o Banco Mundial, sobretudo no domínio da coordenação. Esta é outra das suas funções: coordenar institucionalmente as iniciativas dos três países e dos parceiros internacionais.
Cada instituição possui interesses e áreas de actuação específicas. A FAO, por exemplo, está particularmente interessada na agricultura e na agricultura familiar. O Banco Mundial também possui programas nessa área. O nosso papel consiste em evitar que várias instituições desenvolvam ações sobrepostas para alcançar o mesmo objetivo.
Se diferentes parceiros pretendem apoiar o desenvolvimento agrícola, precisamos de reunir essas perspetivas e coordená-las dentro de uma visão comum que considere a agricultura, o comércio rural e o desenvolvimento das comunidades.
A Agência funciona, portanto, como facilitadora e coordenadora das instituições. Trabalhamos com o Banco Mundial nesse sentido. Em fevereiro, foi realizada a Reunião Inaugural de Coordenação do Corredor do Lobito, lançamento do mecanismo denominado Engine Room. A sua finalidade foi criar uma plataforma de coordenação de todas as acções dos parceiros bilaterais e multilaterais orientadas para o desenvolvimento do Corredor do Lobito.
Também trabalhamos com o Banco Africano de Desenvolvimento, o Afreximbank, a FAO, a UNCTAD, a UNIDO e as Nações Unidas. As Nações Unidas possuem igualmente um programa relacionado com as comunidades, denominado Jango, com o qual fomos convidados a colaborar.
É importante que se considere sempre o desenvolvimento económico e social. Muitas vezes fala-se apenas de desenvolvimento económico, mas eu, por vezes, prefiro inverter a ordem e falar de desenvolvimento social e económico.
Fui convidado para assumir esta responsabilidade, devido à minha experiência diplomática e profissional nas áreas do comércio internacional e das relações económicas internacionais, incluindo o trabalho que desenvolvi como representante comercial de Angola em vários países.
O facto de falar francês, inglês e espanhol, bem como a experiência de relacionamento com outros governos, ministérios e instituições, foi considerado importante para uma agência intergovernamental desta natureza. Aceitei o desafio porque acredito na possibilidade de gerar um impacto social em todo o corredor, em Angola, na Zâmbia e na República Democrática do Congo.
Pretendemos que as populações sintam que o desenvolvimento económico e os investimentos realizados no corredor produzam consequências concretas e melhorem as suas vidas. Quando viajo de comboio e observo crianças desnutridas ou sem roupa a acenar junto à linha, penso que quero continuar a vê-las a sorrir e a acenar, mas quero vê-las bem vestidas, com escolas, serviços de saúde e outras infraestruturas sociais nas proximidades.
É nosso papel exigir que as instituições e o sector empresarial que participam no desenvolvimento do corredor também apoiem o desenvolvimento social das comunidades.
Outro domínio em que a Agência tem trabalhado é a captação de investimento para o Corredor do Lobito. Participamos em conferências e reuniões nas quais promovemos a necessidade de actrair investimentos para as diferentes acções e para o desenvolvimento dos vários clusters existentes ao longo do corredor.
Precisamos de melhorar toda a infraestrutura de transporte, o que também exigirá investimento. Queremos electrificar a linha ferroviária e criar uma segunda linha. Não podemos continuar a depender de uma única linha e de comboios que circulam a aproximadamente 50 quilómetros por hora, quando os comboios de mercadorias podem circular a 90 ou 100 quilómetros por hora. Estes são aspectos de desenvolvimento que teremos obrigatoriamente de considerar no futuro.
Também precisamos de desenvolver os diferentes clusters económicos. Falamos muito da agricultura, não apenas em Angola. A Zâmbia possui igualmente um potencial agrícola significativo. No lado congolês, a agricultura tem menor expressão na zona directamente servida pelo caminho de ferro, por se tratar sobretudo de uma região mineira, mas também existe potencial noutras áreas.
Quando falamos de agricultura, não nos referimos apenas à produção agrícola, mas a toda a cadeia de valor. Angola possui um potencial enorme. Estive na Expo Bié e pude observar a qualidade, a quantidade e a diversidade da produção existente. Perante esse potencial, é legítimo perguntar por que razão ainda existe fome.
O problema está na cadeia de valor, que ainda não se encontra devidamente estruturada. Um produtor deveria poder concentrar-se na produção, sabendo que outras empresas ou operadores especializados irão recolher os produtos, armazená-los, processá-los e colocá-los no mercado. Para isso, é necessário desenvolver infraestruturas logísticas e de armazenamento.
A nossa cadeia de valor ainda não está plenamente desenvolvida. Continua a perder-se muita produção no campo, sobretudo devido às dificuldades de escoamento, o que é extremamente negativo.
Ao longo do corredor, constatamos uma grande diversidade agrícola. Produzem-se inúmeros produtos como o milho, banana, cereais, trigo, arroz, massambala, gergelim, mel e muitos outros produtos. Com a nova organização político-administrativa, várias comunas passaram a municípios, aumentando significativamente o número de municípios existentes.
O gergelim é um produto de que gosto particularmente de falar porque, depois de transformado, possui um elevado valor comercial e grande capacidade de exportação. O óleo de gergelim, por exemplo, é um produto de elevada qualidade. O gergelim não deve ser confundido com o rícino, cujo óleo também tem despertado o interesse de alguns países.
A minha ideia consiste em analisar os diferentes municípios produtores e identificar para cada um deles um produto de eleição. Isso não significa que devam deixar de produzir mandioca, milho ou outros bens de consumo, mas cada município pode desenvolver uma especialização que permita aumentar a produção, atrair investimento e criar uma indústria.
Existem dois ou três municípios com grande capacidade para produzir gergelim. Alguns afirmam possuir cerca de 300 hectares, mas essa área ainda não é suficiente para produzir em escala de exportação. Se houver terra disponível, é necessário aumentar a produção, identificar o gergelim como produto de eleição e criar uma indústria ligada à sua transformação. Dessa forma, também será possível gerar emprego para os jovens.
A proposta que apresentei aos governadores foi a de desenvolver uma indústria por município. Ao longo de todo o corredor existem muitos municípios, e a mesma lógica poderá ser considerada na Zâmbia e na República Democrática do Congo. Em alguns casos, municípios que produzem o mesmo bem poderão trabalhar em conjunto.
A ideia é aumentar a produção, captar investimento e financiamento e trabalhar com gricultores e cooperativas para desenvolver as cadeias de valor.
Durante a época colonial, o Corredor do Lobito não transportava apenas mercadorias provenientes do Congo. Também transportava produtos nacionais destinados à exportação. Um desses produtos era a mandioca.
O café também era exportado através do Lobito, embora grande parte da produção estivesse mais próxima do Porto de Luanda. Pelo Porto do Lobito também saíam banana, ananás e grandes quantidades de mandioca destinadas à Alemanha.
Naquela época, o Moxico era o principal produtor de mandioca de Angola. Os compradores alemães estimularam o aumento da produção porque estavam interessados na fécula extraída da mandioca. A Alemanha é um dos maiores produtores de medicamentos do mundo, e o amido é utilizado pela indústria farmacêutica.
Precisamos de recuperar estas experiências, analisar as possibilidades actuais e desenvolver novamente essas cadeias de valor. Hoje, a mandioca pode ser transformada em mais de 20 produtos diferentes.
2. O crescimento dos volumes de carga exigirá procedimentos fronteiriços mais rápidos, maior visibilidade da carga e uma coordenação mais estreita entre Angola, Zâmbia e República Democrática do Congo. Com base neste progresso, como está a AFTTCL a utilizar soluções digitais para tornar o comércio ao longo do Corredor mais rápido, transparente e eficiente?
Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes: A digitalização é um processo que está em curso. A Agência foi criada formalmente em 2023, mas foi apenas em 2025 que começámos efectivamente a trabalhar no seu desenvolvimento. O processo de constituição do quadro de pessoal ainda decorre.
Depois da minha nomeação, foi necessário começar a criar uma estrutura interna próxima da Secretaria Executiva. Foi designada uma directora angolana com ampla experiência em facilitação do comércio e questões aduaneiras. A estrutura também inclui uma direção ligada aos transportes e logistica, assegurada pela República Democrática do Congo, e uma direção de Infraestruturas e desenvolvimento estratégico, assegurada pela Zâmbia.
Recebemos propostas de várias instituições interessadas em trabalhar connosco nos processos de comunicação e digitalização necessários para o funcionamento da Agência.
Recebemos, por exemplo, uma proposta da Coreia para a criação de uma janela única do corredor. Esta solução está relacionada com o observatório que pretendemos implementar.
Através desse observatório, queremos conseguir saber, a qualquer momento, se um camião está em circulação ou parado, onde se encontra um comboio e se ocorreu algum problema durante o trajecto. Queremos ter acesso a essa informação em tempo real.
O sistema também deverá permitir a interligação e a interoperabilidade com os sistemas utilizados na Zâmbia e na República Democrática do Congo. É necessário uniformizar os procedimentos aduaneiros para que um comboio proveniente de Kolwezi não permaneça demasiado tempo parado na fronteira.
Também precisamos de criar postos de fronteira de paragem única, permitindo que os procedimentos dos dois (2) países sejam tratados de forma coordenada num único local.
Outro desafio é melhorar a conectividade com a Zâmbia, porque actualmente não existe uma ligação ferroviária directa. A estrada disponível também ainda não oferece as condições adequadas. Existe uma via que liga a região do Luau à Zâmbia, mas parte desse trajecto não está asfaltada. Durante a época das chuvas, as condições tornam-se particularmente difíceis.
Estamos a trabalhar num mecanismo de ligação rodoviária com a Zâmbia. O troço envolve aproximadamente 150 quilómetros do lado angolano e cerca de 50 quilómetros do lado zambiano. Esta estrada representará uma alternativa de conectividade enquanto a ligação ferroviária não estiver disponível.
Também existe a ideia de transformar o Aeroporto da Catumbela num hub regional, no qual possam operar outras companhias e serem estabelecidos voos para a República Democrática do Congo, Zâmbia, Namíbia e outros destinos da região.
O processo de digitalização estará, portanto, ligado ao observatório que pretendemos implementar e à necessidade de sabermos, em tempo real, onde se encontram os camiões e os comboios, se ocorreu algum problema e como podemos articular essa informação com os sistemas dos outros países. Dar nota que o países em si, nomeadamente e a Zâmbia, têm já dados significativos, com investimentos significativos nas áreas fronteiriças, precisamente para reduzir tais preocupações.
3. O Corredor do Lobito reuniu governos, instituições de desenvolvimento e investidores privados em torno de uma visão comum para a conectividade regional. Neste contexto, que parcerias foram mais importantes para o seu progresso, e onde vê as maiores oportunidades para aprofundar a colaboração?
Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes: As principais parcerias da Agência são sobretudo com instituições multilaterais. Temos uma parceria muito forte com o Banco Mundial, com o qual estamos a trabalhar em diferentes iniciativas, mas isto apenas no âmbito da coordenação de acções da agência.
Entre os dias 20 e 23 deste mês, teremos uma actividade relacionada a implementação de Portos Secos, facilitação do comércio e as cadeias de valor. Esta actividade está a ser organizada em parceria com o Banco Mundial.
Também temos uma parceria muito forte com a União Europeia. Foi criado um consórcio de cooperação connosco liderado pela Expertise France e que inclui a cooperação belga, alemã e francesa. Estas instituições estão a trabalhar connosco num plano de desenvolvimento de acções concretas para o corredor.
Temos igualmente uma parceria importante com o Banco Africano de Desenvolvimento.
Outra parceria relevante é com a UNIDO. Participámos numa actividade na Áustria e apresentámos à organização a nossa visão sobre a industrialização ao longo do corredor. A UNIDO é a instituição das Nações Unidas ligada ao desenvolvimento industrial.
Apresentei-lhes a ideia de uma indústria por município, e a proposta foi muito bem recebida. A organização já nos solicitou a apresentação de aproximadamente 15 projectos industriais ao longo do corredor para analisar a possibilidade de financiamento.
Também mantemos parcerias com os Estados Unidos, sobretudo em matérias relacionadas com as infraestruturas e com a Lobito Atlantic Railway, ou LAR. A LAR está ligada ao transporte de mercadorias, sobre tudo minérios no corredor.
Isso não significa que o Caminho de Ferro de Benguela tenha deixado de operar. O Caminho de Ferro de Benguela continua responsável pelo transporte de passageiros e por determinadas operações de carga, enquanto a LAR assegura as operações de mercadorias abrangidas pela sua concessão.
No Lobito, criámos uma forma de articulação entre a Agência, a LAR, a AGL, o Porto do Lobito, o Caminho de Ferro de Benguela e a entidade ligada às plataformas logísticas – ARCCLA. Trabalhamos em conjunto para o desenvolvimento do corredor, cada instituição dentro da sua esfera de actividade.
Também participamos no Plano Mattei de Itália e estamos envolvidos no Global Gateway da União Europeia. Mantemos uma articulação permanente com estas iniciativas.
Outras instituições intergovernamentais, incluindo o Afreximbank, também demonstraram interesse em desenvolver acções concretas ao longo do corredor.
A nossa intenção é trabalhar igualmente com empresas multinacionais, especialmente em matérias ligadas ao desenvolvimento económico e social e aos diferentes clusters existentes ao longo do Corredor do Lobito.
Até agora falei sobretudo da agricultura, mas também precisamos de considerar o cluster mineiro, porque ele representa um dos principais interesses associados ao corredor. Não podemos ignorar que muitos parceiros estão interessados nos minérios provenientes da República Democrática do Congo, da Zâmbia e de Angola.
Angola também possui terras raras, quartzo, granito, mármore, ouro, diamantes e outros recursos minerais ao longo do corredor. O objetivo não deve ser apenas explorar e exportar esses recursos em bruto. Também precisamos de promover a sua transformação local, o que volta a colocar a industrialização no centro da estratégia.
Outro cluster essencial é o da logística. Precisamos de transformar a logística num verdadeiro cluster económico. Para escoar a produção, é obrigatório dispor de centros de armazenamento, processamento e conservação.
Essas infraestruturas também permitem vender os produtos em períodos mais favoráveis. Se um produtor conseguir conservar o ananás durante quatro meses, poderá colocá-lo no mercado num momento em que exista menor oferta e obter um preço melhor.
A mesma lógica aplica-se à exportação. Se outros países colocam grandes quantidades de banana no mercado europeu durante determinado período, o preço diminui. Se conseguirmos conservar a nossa produção, poderemos exportá-la quando houver menor oferta e melhores condições comerciais.
É importante que os nossos produtores e empresários compreendam estes ciclos.
Enquanto Agência, desempenhamos um papel de facilitação. No entanto, existe a intenção do Governo angolano de criar uma Sociedade de Desenvolvimento do Corredor do Lobito, semelhante à Sociedade de Desenvolvimento da Barra do Dande.
Essa nova entidade teria uma orientação mais diretamente empresarial e estaria vocacionada para tratar das oportunidades de negócio. A Agência pode identificar um investidor interessado, promover contactos e facilitar o processo, mas não lhe compete negociar ou celebrar contratos comerciais.
Quando identificarmos parceiros e oportunidades concretas, poderemos encaminhá-los para a futura Sociedade de Desenvolvimento, que assumirá a negociação e a implementação dos negócios.
4. O Corredor tem potencial para transferir mais carga das estradas para o transporte ferroviário, ao mesmo tempo que apoia cadeias de abastecimento regionais mais eficientes. Em termos práticos, que medidas concretas estão a ser tomadas para garantir que o seu desenvolvimento seja ambientalmente responsável e sustentável a longo prazo?
Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes: O desenvolvimento do Corredor do Lobito assenta numa visão de longo prazo que combina crescimento económico, integração regional e sustentabilidade ambiental. A estratégia passa por reforçar o transporte ferroviário, que apresenta menores emissões de carbono do que o transporte rodoviário, modernizar o Caminho de Ferro de Benguela, desenvolver plataformas logísticas multimodais e promover uma gestão ambiental coordenada entre Angola, a República Democrática do Congo e a República da Zâmbia. Paralelamente, estão previstas medidas de transição energética, controlo das emissões, promoção da eletromobilidade, projetos de reflorestamento e adoção de práticas de economia circular, garantindo que o desenvolvimento da infraestrutura seja acompanhado pela proteção dos recursos naturais e pela resiliência às alterações climáticas. Desta forma, o Corredor do Lobito afirma-se como um Corredor Económico Verde, capaz de conciliar eficiência logística, competitividade internacional e desenvolvimento sustentável em benefício dos três países e de toda a região da África Austral
5. O programa mais amplo do Corredor do Lobito inclui iniciativas ligadas à formação profissional, agricultura, energia limpa e oportunidades para empresas locais. Como está a AFTTCL a ajudar a garantir que estes investimentos proporcionem benefícios visíveis às comunidades ao longo do Corredor?
Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes: A AFTTCL desempenha um papel fundamental para garantir que o Corredor do Lobito seja mais do que uma infraestrutura de transporte, transformando-o num verdadeiro instrumento de desenvolvimento económico e social para as comunidades dos três Estados-Membros. Através da coordenação regional e da articulação entre os sectores público e privado, a Agência promove investimentos que impulsionam a criação de emprego, o desenvolvimento de competências técnicas e profissionais, o fortalecimento da logística agrícola e a melhoria do acesso dos produtores locais aos mercados nacionais e internacionais. Paralelamente, incentiva a participação das empresas locais nas cadeias de valor do corredor, promove o conteúdo local e apoia a instalação de novas actividades industriais e logísticas. A AFTTCL integra ainda preocupações ambientais e sociais na implementação dos projectos, promovendo a sustentabilidade, a proteção ambiental, a saúde pública e a melhoria das condições de vida das populações. Desta forma, assegura que os benefícios do Corredor do Lobito sejam amplamente partilhados, contribuindo para uma integração regional mais inclusiva, resiliente e sustentável.
6. Olhando agora para o futuro, a próxima fase estará focada na expansão das infraestruturas, na melhoria da coordenação regional e na atração de mais investimento privado. À medida que esta nova etapa começa, quais são as principais prioridades da AFTTCL, e que oportunidades poderão criar maior valor de longo prazo para Angola e para a região?
Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes: O principal objetivo da Agência é contribuir para a criação de um corredor de desenvolvimento económico que seja verdadeiramente sustentável. A sustentabilidade deve estar no centro de todo o processo.
Também é necessário que exista maior empenho, interesse e dedicação por parte de todas as instituições e empresas que trabalham no Corredor do Lobito. Elas não devem pensar apenas nos seus próprios ganhos, mas também nos benefícios destinados às populações.
Este é o objetivo que procuro transmitir aos funcionários e colegas da Agência. Muitos possuem experiência e encontram-se numa situação relativamente estável. A partir dessa posição, precisam de olhar para as comunidades, criar oportunidades para os jovens e contribuir para o aumento do emprego.
Para alcançar este objetivo, é necessário que todos trabalhemos em conjunto. Existe uma palavra que gosto particularmente de utilizar: inclusividade. Essa é a minha palavra de ordem. Precisamos de incluir e não de excluir.
Muitas vezes, os próprios setores do Estado trabalham de forma isolada e esquecem-se de que as suas ações têm impacto sobre os outros setores. A atividade de uma instituição afeta a atividade das restantes. Devemos, por isso, trabalhar de forma coordenada para que os processos fluam e produzam uma transformação positiva.
Outro objetivo importante é melhorar o acesso ao mar para a Zâmbia e para as regiões interiores da República Democrática do Congo. A República Democrática do Congo não é totalmente um país sem litoral, mas, devido à sua dimensão, uma parte significativa do seu território encontra-se muito distante dos portos.
Essas regiões necessitam de acesso ao Porto do Lobito e a outros portos da região. O nosso papel é contribuir para reduzir esse isolamento geográfico, melhorar a conectividade e criar condições para que Angola, a Zâmbia e a República Democrática do Congo beneficiem plenamente do desenvolvimento do corredor.


































































































