1. Fundada em 2007 como Carmon Reestrutura – Engenharia e Serviços Técnicos Especiais, a Carmon evoluiu de uma empresa focada em obras de engenharia especializada, particularmente na construção de pontes, para um dos mais relevantes players nacionais no setor da construção civil e do desenvolvimento de infraestruturas de grande escala em Angola. Num contexto em que Angola está cada vez mais orientada para a diversificação económica e a resiliência de longo prazo, de que forma a Carmon está a evoluir de uma empresa de construção para um parceiro estratégico na transformação mais ampla das infraestruturas e do tecido industrial do país?
Nelson Soutinho:
Ao longo dos anos, a Carmon foi-se consolidando como uma empresa nacional fortemente comprometida com a qualidade das obras, com a capacidade de resposta e com a execução de projetos tecnicamente exigentes, muitas vezes associados a prazos extremamente apertados. Projetos como as pontes no Namibe ou a obra do NAIL são exemplos claros dessa capacidade de organização, adaptação e entrega em contextos desafiantes.
Do ponto de vista técnico e operacional, um dos aspetos que mais marcou a evolução da empresa foi a capacidade de responder rapidamente às necessidades do país, procurando sempre soluções eficazes e ajustadas à realidade de cada projeto. Essa postura acabou por gerar reconhecimento junto de diferentes entidades públicas e organismos ligados ao setor das infraestruturas, bem como de parceiros estratégicos nacionais e internacionais, incluindo empresas como a CR20 e a Mota-Engil, entre outras.
Outro elemento importante nessa evolução foi a aposta na constituição de equipas técnicas multidisciplinares, integrando especialistas expatriados e quadros nacionais em áreas estratégicas da engenharia e construção. Essa combinação permitiu não apenas reforçar a capacidade técnica da empresa, mas também promover uma importante transferência de conhecimento e experiência ao longo dos anos. Com o tempo, muitos técnicos nacionais passaram a assumir funções cada vez mais relevantes e de maior responsabilidade dentro dos projetos.
A diversidade de competências existentes nas equipas permitiu à Carmon assumir diferentes tipos de empreendimentos, desde estradas e pontes até obras de mobilidade e infraestruturas urbanas, sempre com uma abordagem orientada para a qualidade, rapidez construtiva e impacto social das obras.
Nesse sentido, acredito que a empresa teve, e continua a ter, um papel importante no processo de reconstrução e desenvolvimento de Angola. Mais do que executar obras, a Carmon contribuiu para melhorar a conectividade, apoiar o crescimento das infraestruturas e reforçar a capacidade técnica nacional, acompanhando a evolução das necessidades do país ao longo dos anos.
2. As infraestruturas em economias emergentes enfrentam frequentemente desafios relacionados com a durabilidade e os custos ao longo do ciclo de vida. De que forma a Carmon está a repensar a resiliência das infraestruturas a longo prazo, particularmente no que diz respeito a estradas, pontes e sistemas de mobilidade urbana?
Nelson Soutinho:
Em economias emergentes como Angola, a resiliência das infraestruturas depende muito da forma como os projetos são estudados, planeados e executados. No caso da Carmon, sempre existiu uma forte preocupação com a qualidade da execução, a adaptação às condições específicas de cada local e a durabilidade das soluções adotadas.
Em projetos de estradas, pontes e mobilidade urbana, é fundamental compreender fatores como os materiais disponíveis localmente, as condições geotécnicas, a drenagem e o comportamento das infraestruturas ao longo do tempo. Muitas vezes, os maiores problemas surgem quando existe pressão excessiva sobre os cronogramas ou quando se descuida da qualidade dos materiais e da execução em busca de soluções mais rápidas ou menos dispendiosas.
Acredito que a Carmon tem procurado reforçar uma cultura de responsabilidade técnica, onde a velocidade de execução não pode comprometer a qualidade e a durabilidade das obras. Naturalmente, em projetos desta dimensão existem desafios, mas a preocupação com o desempenho das infraestruturas a longo prazo sempre foi um ponto importante dentro da empresa.
No final, a verdadeira resiliência de uma infraestrutura está diretamente ligada ao rigor técnico, ao planeamento adequado e à capacidade de tomar decisões responsáveis durante a execução. É isso que garante não apenas obras concluídas, mas infraestruturas capazes de servir o país de forma sustentável ao longo dos anos.
3. Num setor onde a inovação é frequentemente associada a ferramentas digitais, mais do que à execução no terreno, de que forma a Carmon está a redefinir o conceito de inovação na construção — nomeadamente ao nível dos métodos de engenharia, da eficiência dos processos e da internalização de capacidades técnicas — e que impacto tangível isso tem tido na execução dos projetos e no desempenho das infraestruturas a longo prazo?
Nelson Soutinho:
Na construção civil, a inovação não está apenas ligada a ferramentas digitais, mas também à capacidade de adaptação, organização e execução eficiente no terreno. Ao longo dos anos, acredito que a Carmon se destacou precisamente pela forma prática como abordava os desafios dos projetos, procurando sempre adaptar as soluções às condições reais de cada obra.
Um dos principais diferenciais da empresa foi a forte interação entre as equipas técnicas e os projetistas, permitindo ajustar e otimizar soluções de engenharia de acordo com as condições locais, os materiais disponíveis e os desafios específicos de execução. Esse respeito técnico conquistado ao longo do tempo facilitava uma colaboração muito próxima no desenvolvimento e adaptação dos projetos.
A empresa também ganhou notoriedade pela sua capacidade de mobilização e execução, conseguindo muitas vezes desenvolver projetos complexos com equipas mais reduzidas do que outras empresas do setor, mas mantendo elevados níveis de produtividade, organização e compromisso com os prazos.
Em obras mais exigentes, existia uma preocupação constante em colocar os técnicos mais experientes e reforçar o acompanhamento no terreno, garantindo maior controlo sobre a qualidade, segurança e execução dos trabalhos. Aliás, a preocupação com a segurança do trabalho sempre foi um dos aspetos mais valorizados pela Carmon, sendo encarada como parte essencial da responsabilidade operacional da empresa.
Ao longo dos anos, também houve uma evolução importante ao nível dos processos internos e dos controlos administrativos, contribuindo para uma execução mais eficiente e para o reforço da capacidade técnica da organização. No final, acredito que essa combinação entre experiência prática, capacidade de adaptação, qualidade técnica e cultura de responsabilidade foi um dos fatores que mais contribuiu para o desempenho das infraestruturas executadas pela empresa.
4. Ao longo dos anos, a Carmon tem colaborado com diversos parceiros nacionais e internacionais, incluindo a participação em grandes iniciativas de infraestruturas ao lado de players globais como a CR20, no projeto do Caminho de Ferro de Benguela. De que forma estas parcerias estratégicas têm contribuído para o reforço da capacidade técnica da empresa e para a execução de projetos complexos? Existem novas parcerias ou colaborações internacionais que a empresa esteja atualmente a explorar no âmbito da sua estratégia de expansão?
Nelson Soutinho:
Ao longo dos anos, a Carmon tem procurado estabelecer parcerias estratégicas com entidades nacionais e internacionais sempre que estas acrescentam valor aos projetos e permitem responder de forma mais eficaz aos desafios técnicos, operacionais e financeiros das infraestruturas de grande dimensão.
Mais do que uma transferência direta de conhecimento num único sentido, estas parcerias têm proporcionado uma troca de experiências e competências entre equipas, contribuindo para o reforço da capacidade de execução e para a realização de projetos cada vez mais complexos. A experiência acumulada pela Carmon em diferentes áreas da engenharia e construção permitiu-lhe, ao longo do tempo, afirmar-se como um parceiro credível e respeitado junto de empresas nacionais e internacionais.
Relativamente à estratégia de expansão e a futuras colaborações, importa referir que a empresa avalia permanentemente oportunidades que possam acrescentar valor aos seus projetos e aos seus clientes. No entanto, por uma questão de responsabilidade institucional e de respeito pelos parceiros envolvidos, entendemos que apenas devem ser divulgadas iniciativas e parcerias que se encontrem devidamente formalizadas e em fase de implementação.
O foco da Carmon continua a ser o reforço da sua capacidade técnica, operacional e organizacional, preparando-se para responder aos desafios futuros e contribuir para o desenvolvimento sustentável das infraestruturas em Angola.
5. Tendo em conta a colaboração contínua da Carmon com o Ministério da Educação no combate ao analfabetismo, através de infraestruturas educativas de base comunitária, bem como as recentes iniciativas de empoderamento feminino — como os programas de literacia financeira e workshops de produção artesanal de sabão em comunidades como Cassoneca e Catete — qual tem sido, até ao momento, o impacto concreto destas iniciativas?
Nelson Soutinho:
No que respeita ao combate ao analfabetismo, estas iniciativas têm contribuído de forma significativa para a inclusão social e para o desenvolvimento das comunidades abrangidas. O acesso à leitura e à escrita proporciona maior autonomia aos beneficiários, reforça a autoestima e amplia as oportunidades de formação, empregabilidade e participação ativa na vida comunitária.
Relativamente aos programas de literacia financeira e aos workshops de produção artesanal de sabão, o impacto tem sido igualmente positivo, particularmente junto das mulheres das comunidades envolvidas. Estas ações permitem o desenvolvimento de competências práticas e empreendedoras, criando condições para a geração de rendimento e para o reforço da autonomia económica das participantes.
Importa referir que esta preocupação social não é recente. Desde as primeiras obras da empresa, a Carmon procurou assumir um papel ativo no desenvolvimento das comunidades onde está inserida. Ao longo dos anos, estas iniciativas foram sendo aperfeiçoadas e estruturadas, mas o princípio manteve-se inalterado: contribuir para que a presença da empresa deixe um legado positivo e duradouro para além das infraestruturas construídas.
Sempre acreditámos que o verdadeiro impacto de uma empresa não se mede apenas pelas obras que entrega, mas também pela capacidade de gerar oportunidades, promover inclusão e criar valor para as pessoas e comunidades com as quais se relaciona. Essa visão continua a ser um dos elementos diferenciadores da identidade da Carmon.
6. Com vários projetos de infraestruturas de grande escala atualmente em curso — incluindo a reabilitação da estrada Catete–Maria Teresa (54 km), o nó viário do Zango, que visa melhorar a mobilidade urbana, os sistemas de acesso elevado ao Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, e o programa de construção de pontes no Namibe, que inclui a ponte de 802 metros sobre o Rio Curoca — quais são os próximos passos da empresa em termos de expansão do seu portefólio de projetos, entrada em novas regiões ou setores, e reforço do seu posicionamento como um dos principais intervenientes no desenvolvimento de infraestruturas de longo prazo em Angola?
Nelson Soutinho:
A Carmon entra nesta nova fase com uma carteira sólida de projetos concluídos e uma visão clara de crescimento sustentável. Entre os marcos mais relevantes deste percurso destaca-se a conclusão da reabilitação da estrada Catete–Maria Teresa, uma das mais importantes infraestruturas rodoviárias atualmente em Angola, por constituir um corredor estratégico de ligação entre Luanda e o leste do país, facilitando a mobilidade de pessoas e mercadorias e impulsionando o desenvolvimento económico das regiões abrangidas.
A conclusão de obras estruturantes como o Nó Viário do Zango, os acessos elevados ao Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto e as pontes no Namibe reforçou a capacidade da empresa para executar projetos de elevada complexidade técnica e elevado impacto socioeconómico. Estes empreendimentos representam não apenas importantes conquistas para a Carmon, mas também contribuições concretas para a modernização das infraestruturas nacionais.
Paralelamente, a empresa continua focada na retoma de projetos estruturantes que integram a sua carteira de oportunidades, incluindo iniciativas na província do Namibe, que poderão desempenhar um papel importante no reforço da mobilidade, da segurança rodoviária e da integração económica regional.
Continuamos igualmente a acompanhar oportunidades em diferentes regiões do país, reforçando a nossa capacidade técnica e operacional para responder a projetos cada vez mais exigentes. A aposta contínua na qualificação dos quadros nacionais, na excelência operacional e na adoção das melhores práticas de engenharia continuará a ser um dos pilares do nosso crescimento.
Olhamos para o futuro com a ambição de continuar a contribuir para projetos que gerem impacto duradouro, promovam a integração territorial e reforcem a competitividade do país, consolidando a Carmon como uma referência nacional no setor das infraestruturas.
7. Com mais de duas décadas de experiência em engenharia civil e mais de 15 anos de percurso na empresa — desde funções operacionais em obra até à liderança de projetos de infraestruturas complexas em Angola, especialmente nas áreas de estradas e pontes — poderia partilhar connosco quais foram as principais experiências profissionais, perspetivas técnicas e valores pessoais que mais influenciaram a sua abordagem de liderança? Em última análise, qual é o legado que ambiciona deixar na Carmon?
Nelson Soutinho:
Ao longo de mais de duas décadas de atividade na engenharia civil, tive a oportunidade de participar em projetos de grande dimensão e elevada complexidade técnica, em diferentes países e setores. A minha trajetória passou por áreas tão diversas como fábricas de cimento, estradas, pontes, construção civil, sistemas de captação e distribuição de água, redes de combate a incêndio e sistemas de saneamento, experiências que me proporcionaram uma visão abrangente dos desafios associados ao desenvolvimento de grandes empreendimentos.
Alguns dos desafios técnicos mais marcantes da minha carreira ocorreram fora de Angola. Tive a oportunidade de participar em projetos de referência, como uma ponte em aduelas pré-moldadas com cerca de 1.190 metros sobre o Rio São Francisco, no Brasil, e uma ponte estaiada com aproximadamente 1.800 metros de extensão numa ligação marítima. Foram experiências que exigiram elevados níveis de planeamento, coordenação multidisciplinar, inovação e rigor técnico, deixando ensinamentos que continuam a influenciar a minha forma de trabalhar e liderar.
Paralelamente à componente operacional e de engenharia, estive também envolvido ao longo da minha carreira nas áreas de planeamento, orçamento e gestão, colaborando ou coordenando equipas responsáveis pela avaliação técnica e financeira de projetos de diferentes dimensões. Essa experiência permitiu-me compreender que o sucesso de uma infraestrutura depende não apenas da excelência da engenharia, mas também da capacidade de gestão, da eficiência na utilização dos recursos e da tomada de decisões estratégicas.
Foi precisamente essa combinação entre conhecimento técnico, visão de negócio e capacidade de gestão que me levou, desde cedo, a assumir funções de liderança dentro das organizações por onde passei. No entanto, sempre procurei exercer essa liderança com humildade, respeito pelas pessoas e espírito de colaboração. Acredito que nenhum cargo nos torna maiores do que os outros e que os melhores líderes são aqueles que continuam dispostos a aprender, a ouvir e a crescer com as suas equipas.
Ao longo do tempo, aprendi que o conhecimento técnico é fundamental, mas que os valores humanos são aquilo que verdadeiramente permanece. Competência, disciplina e dedicação são indispensáveis, mas é a integridade, a humildade, o respeito e o compromisso com as pessoas que constroem equipas fortes e relações de confiança duradouras.
Quanto ao legado que gostaria de deixar na Carmon, espero ser recordado não apenas pelos projetos que ajudei a concretizar, mas sobretudo pelos valores que procurei transmitir e pelas pessoas que ajudei a desenvolver ao longo do caminho. As obras permanecem como marcos físicos do nosso trabalho, mas acredito que o legado mais importante de qualquer líder está na formação das equipas, na cultura que ajuda a construir e nos princípios que deixa para as gerações que lhe sucedem. Se puder contribuir para uma Carmon cada vez mais forte, mais preparada e sustentada por profissionais competentes e íntegros, sentirei que cumpri a minha missão.