Daniel Araujo
CEO - Asseco

1. Pode partilhar a história da empresa e como se estabeleceu em Angola?

Daniel Araujo:

Fomos afortunados por entrar neste país numa altura em que muito poucas empresas internacionais estavam dispostas ou sequer interessadas em olhar para este mercado. A empresa foi fundada em 1988 em Portugal como Promosoft e, logo após o início de operações, coincidiu com o momento em que o Banco Nacional de Angola estava a deixar de ser o único operador bancário e começavam a surgir os primeiros bancos comerciais. Quando o primeiro banco comercial foi criado, foi lançado um concurso público para selecionar fornecedores de soluções — e nós participámos e vencemos. Isto aconteceu cerca de dois anos após a nossa fundação, durante o período da guerra civil em Angola, quando o apetite de risco era muito baixo por parte das empresas internacionais. Mesmo assim, entrámos no mercado e começámos a operar.

Estivemos presentes desde o primeiro banco comercial, depois apoiámos o primeiro banco privado, acompanhámos a primeira internacionalização de um banco angolano para Portugal e também apoiámos o primeiro banco internacional independente a instalar-se em Angola. Crescemos assim com o país, com a economia e com o sector.

Hoje trabalhamos com praticamente todas as instituições financeiras em Angola, direta ou indiretamente. Não gosto muito de falar em quota de mercado, porque pode ser enganador, mas estamos envolvidos com praticamente todo o sistema financeiro e temos mais de 50 colaboradores no país. Em 2015, a empresa foi adquirida pelo grupo Asseco, um dos maiores fornecedores de software da Europa, presente em mais de 70 países com cerca de 4 mil milhões de euros em receitas. Essa integração permitiu-nos alargar a nossa proposta de valor e continuar a crescer. Esta é a nossa história e a razão pela qual estamos aqui há tanto tempo — e continuamos a estar.

 

2. Quais são os principais fatores de diferenciação da empresa?

Daniel Araujo:

Um dos principais fatores de diferenciação é o compromisso com o país. Não somos uma empresa que vem vender um projeto e depois sai. Temos escritório estabelecido, mais de 50 colaboradores e todos os anos realizamos duas edições da nossa academia de formação, cada uma com cerca de 30 estudantes selecionados — o que representa mais de 60 formandos por ano. Esta academia é totalmente gratuita e oferece formação em soluções bancárias e tecnológicas relevantes para o sector. Tem um duplo objetivo: formar pessoas para as nossas necessidades internas e contribuir para o mercado, porque existe uma clara falta de competências na área tecnológica. Para cada edição recebemos mais de 500 candidaturas, ficamos com alguns e os restantes entram no mercado de trabalho.

Outro fator é a consistência ao longo dos ciclos económicos. Angola é uma economia dependente de commodities, especialmente do petróleo. Quando os preços estão altos, a economia cresce; quando estão baixos, há contração. Nós estivemos presentes em todos esses ciclos, sempre com o mesmo compromisso e visão de longo prazo.

Outro fator é a longevidade das relações com os clientes. Não apenas estivemos presentes desde o início — acompanhámos toda a transformação do sector, desde os primeiros sistemas de core banking até ao internet banking, ATM, carteiras móveis e, agora, a banca digital.

Apesar da crescente concorrência, o nosso foco mantém-se o mesmo: estar perto dos clientes e continuar a ser o parceiro tecnológico de referência para o sistema financeiro angolano.

 

3. Como funcionam as parcerias estratégicas da empresa?

Daniel Araujo:

Sempre mantivemos alianças com grandes empresas tecnológicas globais — incluindo parceiros de referência nas áreas de infraestrutura e cloud — que nos permitem suportar as nossas soluções de forma robusta e escalável.

Além disso, fazemos parte de um grande grupo internacional, o que nos permite não só inovar localmente, mas também trazer soluções desenvolvidas noutras partes do mundo, incluindo Europa, Estados Unidos, Israel e outros mercados.

A integração no grupo dá-nos acesso a uma rede de mais de 20.000 especialistas e a soluções desenvolvidas em mercados tão diversos como a Europa, os Estados Unidos ou Israel, que podemos adaptar à realidade angolana.

Também acreditamos que a inovação passa por ouvir os clientes. Mais do que tentar antecipar necessidades, é fundamental compreender o que os clientes precisam e implementar essas soluções. Isso é um fator de diferenciação importante.

Neste momento, um dos temas que mais nos ocupa é a adoção de inteligência artificial no sector financeiro. Não como tendência de curto prazo, mas como uma mudança estrutural na forma como os bancos operam, servem os seus clientes e gerem risco. Estamos a trabalhar internamente nessa transição — tanto nas ferramentas que oferecemos aos nossos clientes, como na forma como operamos enquanto empresa.

 

4. Pode falar mais sobre a academia de formação e o seu impacto?

Daniel Araujo:

A academia já vai na sua décima edição e tem sido realizada de forma contínua ao longo dos últimos anos, com uma ou duas edições por ano consoante a disponibilidade e a procura. Já formámos entre 500 e 1.000 jovens.

Muitos dos nossos colaboradores atuais vieram dessa academia. Além disso, vários ex-alunos hoje são nossos clientes, alguns em posições de liderança, incluindo cargos de direção e até de administração.

Há uma história pessoal que gosto de partilhar. Um jovem que começou o seu percurso financeiro como jardineiro, sem qualquer conhecimento, pediu uma oportunidade dizendo “posso aprender”. Com apoio, voltou a estudar, terminou o ensino médio, entrou na universidade, estudou IT, fez estágio na empresa e hoje lidera uma equipa e implementa sistemas bancários complexos em Angola.

Este é um exemplo do impacto que podemos ter ao dar oportunidades e desenvolver competências. Para nós, isso faz parte do nosso contributo ESG — não apenas fazer negócio, mas também impactar positivamente a sociedade.

 

5. Qual é a sua visão sobre o papel das empresas no desenvolvimento social?

Daniel Araujo:

O exemplo mais concreto que posso dar é a nossa academia. Não existe porque é uma boa história para contar — existe porque acreditamos que a falta de competências técnicas é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento de Angola. Quando formamos 60 pessoas por ano, e quando alguns desses jovens chegam a cargos de direção nos nossos clientes, isso tem um impacto real no sistema. Para nós, responsabilidade social não é um departamento — é uma forma de fazer negócio.

Angola tem uma população muito jovem e um potencial enorme. Dar competências é mais valioso do que dar benefícios imediatos — é o que permite às pessoas construir o seu próprio futuro. E dar exemplos concretos, como a história do jardineiro que hoje lidera uma equipa, é a melhor forma de mostrar que é possível.

 

6. De que forma a sua formação e experiência moldaram a sua visão?

Daniel Araujo:

Fui exposto a diferentes realidades em vários continentes, o que me permitiu ver o mundo sob múltiplas perspetivas. No entanto, os valores vêm sobretudo da família.

Angola foi uma dessas realidades, e marcou-me. Os valores que trago — resiliência, perseverânça, valorização do esforço — vieram da família. O resto construiu-se com a experiência.

Acredito que tempos difíceis formam pessoas fortes. Essa experiência influenciou a forma como vejo o mundo e como valorizo o esforço, as oportunidades e o desenvolvimento pessoal.

 

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