
Vladimir Ferraz
Presidente do Conselho de Administração
Banco de Comércio e Indústria (BCI)
1. Desde o início das suas operações em 2023, a pay4all posicionou-se como um elemento relevante no ecossistema de pagamentos digitais em Angola. Na sua perspectiva, quais foram os marcos mais significativos na trajectória da pay4all até agora e de que forma contribuíram para reforçar a sua posição no sector financeiro angolano?
Nuno Veiga:
O primeiro e mais importante marco para a Pay4All foi, sem dúvida, a obtenção da nossa licença de operação junto ao Banco Nacional de Angola, no dia 29 de setembro de 2023. Essa licença reconheceu oficialmente a empresa como uma instituição financeira não bancária e permitiu-nos operar sob a licença número 426. Pouco tempo depois, por volta de meados de dezembro de 2023, recebemos a autorização para iniciar as nossas atividades. Para nós, esse momento representou essencialmente a nossa “certidão de nascimento” como empresa. Foi o ponto a partir do qual a Pay4All pôde começar oficialmente a operar e a disponibilizar os seus serviços ao mercado.
Em 2024 começámos a apresentar as nossas soluções de forma mais ativa ao público. Um dos primeiros momentos importantes foi a nossa participação em eventos do setor, como feiras de tecnologia e inovação em Angola, onde demonstrámos as nossas soluções de pagamento e apresentámos o nosso produto de referência, a carteira digital é-Kwanza. Naquela fase, o produto ainda estava em desenvolvimento no que diz respeito à integração com o ecossistema mais amplo de pagamentos, mas essas demonstrações foram importantes para mostrar o potencial dos pagamentos digitais em Angola.
Nesse mesmo ano recebemos um forte reconhecimento do mercado. Na FILDA fomos distinguidos com um Leão de Ouro pela melhor presença digital no setor da economia digital. Para uma startup jovem que ainda não tinha completado sequer um ano de atividade, esse reconhecimento foi extremamente significativo. Também recebemos, mais tarde nesse ano, outro prémio de reconhecimento público pela nossa aplicação móvel, que competiu lado a lado com soluções já consolidadas, como o Multicaixa Express. Esses reconhecimentos reforçaram a credibilidade da nossa tecnologia e confirmaram que estávamos a construir algo relevante para o mercado.
Outro marco importante foi o momento em que o nosso produto passou a operar de forma independente no mercado, deixando de estar posicionado apenas sob a égide de um banco parceiro. Isso permitiu-nos apresentar a nossa aplicação como um produto pay4all com identidade e funcionalidades próprias. Do ponto de vista tecnológico, a nossa carteira começou a oferecer um conjunto de serviços comparável ao de muitas aplicações de internet banking, e em alguns casos até com mais funcionalidades do que algumas aplicações bancárias tradicionais.
2. Com a expansão contínua do ecossistema é-Kwanza, o desenvolvimento do cartão pré-pago ligado ao Multicaixa e a implementação de Centros ATM, como o lançado no Zango 3, a pay4all está a construir simultaneamente infra-estrutura digital e física. Na sua opinião, o que diferencia a pay4all de outras fintechs e operadores de pagamento em Angola? Quais são as vantagens competitivas que sustentam o seu crescimento e relevância no mercado?
Nuno Veiga:
Um dos principais fatores diferenciadores da Pay4All é a nossa abordagem integrada ao ecossistema de pagamentos. Não nos limitamos a oferecer uma aplicação ou um único serviço digital; procuramos desenvolver uma plataforma completa que conecte utilizadores, comerciantes e instituições financeiras. Ao combinar soluções digitais, como a carteira móvel e plataformas de aceitação de pagamentos, com infraestruturas físicas, como os ATM Centers, criamos uma rede mais abrangente e acessível. Outro elemento importante é a capacidade de integração com diferentes sistemas e meios de pagamento, o que permite oferecer aos comerciantes e utilizadores uma experiência mais simples e eficiente. Esta combinação de tecnologia, parcerias estratégicas e foco na inclusão financeira constitui uma vantagem competitiva importante para o crescimento da empresa.
Nós temos quatro grandes áreas de atuação que, na prática, representam dois grandes negócios. O primeiro é o negócio dos sistemas ou serviços de pagamento. Dentro dessa área, trabalhamos com meios de pagamento, que incluem o telefone através das wallets e também os cartões. No futuro próximo pretendemos inclusive disponibilizar cartões internacionais. Além disso, temos a componente de aceitação de pagamentos, ou acquiring. Essa parte inclui acquiring digital e também soluções com dispositivos móveis. Portanto, de um lado estão os métodos de pagamento utilizados pelos clientes, como cartões e wallets, e do outro lado estão as soluções que permitem aos comerciantes receber pagamentos.
A segunda grande área é a de serviços para instituições financeiras. Nessa área oferecemos soluções como ATMs, máquinas de depósito e soluções de self-banking. Muitas dessas soluções são implementadas em contentores que funcionam como centros bancários compactos. Eu gosto de chamar esses espaços de self-banking centers, porque embora tenham principalmente ATMs, também podem permitir a abertura de contas e outras operações. São soluções turnkey, ou seja, o cliente diz onde quer instalar e nós tratamos de todo o processo: obra, contentor, equipamentos, branding e instalação completa.
Essa área tem crescido bastante. No ano passado instalámos mais de 30 contentores em várias partes do país, em cerca de seis meses, a partir de junho. Em determinado momento tínhamos mais de 17 contentores em fase de gestão de projeto com vários parceiros. É uma área de negócio que tem mostrado um crescimento muito relevante.
Temos também uma área dedicada à terceirização da gestão de redes de TPAs. Para gerir um TPA é necessário fazer manutenção, suporte ao comerciante, gestão de fecho e garantir o funcionamento da rede. Muitos bancos têm estruturas muito grandes para lidar com isso, envolvendo fornecedores de equipamentos e empresas de distribuição. Nós oferecemos esse serviço de forma terceirizada. As instituições financeiras contratam-nos e nós assumimos todo o processo, desde suporte local até substituição de equipamentos, ativação e assistência técnica.
Também prestamos serviços terceirizados para gestão de redes de ATMs e máquinas de depósito. Alguns clientes apenas compram os contentores com os ATMs e nós fazemos a instalação. Outros preferem que também cuidemos da operação, incluindo transporte de valores, manutenção primária e garantia de funcionamento dos equipamentos. Oferecemos um serviço completo que inclui a valorização da tesouraria, garantindo que as máquinas estejam sempre operacionais.
Para garantir o funcionamento da rede é preciso haver uma boa gestão de dinheiro. Nós também participamos na certificação e organização da tesouraria. As equipas dos bancos fazem as recolhas, enquanto as nossas equipas organizam e tratam as notas, garantindo que estejam em condições adequadas para voltar a circular nos ATMs. É uma cadeia completa de gestão de numerário.
Dentro dessa área de serviços também fazemos emissão e produção de cartões. Trabalhamos com um parceiro e tratamos de todo o processo de validação e certificação dos cartões. Podem ser cartões locais ou internacionais, como Visa ou Mastercard. Fazemos toda a gestão do processo, trazemos os cartões para Angola e depois fazemos a entrega, seja em Luanda ou nas províncias.
3. Ao longo do último ano, a Pay4All introduziu soluções como a plataforma para comerciantes é+ e o é+ bot, além de melhorias no auto-registo via USSD (*402#) e atualizações nos sistemas de backend. De que forma a empresa está a integrar inovação, automação, inteligência artificial e otimização de processos digitais para melhorar a eficiência, rapidez e segurança nas transações financeiras?
Nuno Veiga:
A inovação tecnológica é um dos pilares estratégicos da pay4all. Nos últimos anos, temos investido no desenvolvimento de soluções que simplificam e automatizam processos tanto para utilizadores como para comerciantes. A plataforma é+ e o é+ bot são exemplos claros desta abordagem, pois permitem automatizar processos de pagamento e reduzir a complexidade operacional para empresas e comerciantes. O auto-registo via USSD também desempenha um papel fundamental, pois permite que qualquer pessoa com um telemóvel básico possa criar uma conta e começar a utilizar serviços financeiros digitais. Paralelamente, estamos a trabalhar na optimização dos sistemas de backend e na utilização de ferramentas avançadas de análise de dados e inteligência artificial para melhorar a gestão operacional, reforçar a segurança das transacções e apoiar a tomada de decisões estratégicas.
4. A pay4all tem estabelecido parcerias estratégicas com redes de retalho, organizações juvenis, iniciativas empreendedoras e instituições financeiras, operando também dentro do ecossistema mais amplo do Multicaixa. De que forma estas colaborações têm contribuído para expandir a aceitação dos pagamentos digitais, fortalecer a inclusão financeira e acelerar a modernização do sistema de pagamentos em Angola?
Nuno Veiga:
As parcerias têm sido fundamentais para o crescimento e a consolidação do ecossistema da Pay4All. Ao colaborar com redes de retalho, conseguimos expandir a aceitação dos pagamentos digitais no dia-a-dia das pessoas, permitindo que os utilizadores utilizem a carteira digital em diferentes contextos de consumo. As colaborações com organizações juvenis e iniciativas de empreendedorismo ajudam-nos a promover a literacia financeira e a introduzir soluções digitais junto de novas gerações. Por outro lado, a integração com instituições financeiras e com a infraestrutura do sistema Multicaixa permite garantir interoperabilidade e confiança no sistema. Estas parcerias criam um ambiente mais favorável à digitalização dos pagamentos e contribuem para uma transformação gradual do sistema financeiro angolano.
5. A literacia e a inclusão financeira são pilares centrais da estratégia da Pay4All, particularmente através de iniciativas como a formação de vendedores informais no âmbito do programa “é-Kwanza Kuzunga” e parcerias com associações juvenis. Como avalia o impacto social e económico destas iniciativas? Que medidas estão a ser planeadas para expandir ainda mais a educação financeira e o acesso digital até 2026?
Nuno Veiga:
A inclusão financeira vai muito além da tecnologia; envolve também educação e capacitação. Iniciativas como o programa é-Kwanza Kuzunga foram concebidas precisamente para apoiar vendedores informais e pequenos empreendedores, fornecendo-lhes ferramentas digitais e formação para melhorar a gestão dos seus negócios. Em 2025 assinamos também um Memorando de Cooperação e Parceria com a Associação de Escuteiros de Angola, promovendo a literacia e a incluão financeira por todo o território nacional. Estas acções têm um impacto social significativo, pois ajudam a integrar segmentos da população que tradicionalmente estavam fora do sistema financeiro formal. Até 2026, pretendemos expandir estas iniciativas através de parcerias com organizações comunitárias, instituições educativas e programas de formação, promovendo maior literacia financeira e incentivando o uso responsável de soluções digitais.
6. Apesar do progresso tecnológico, Angola continua a enfrentar desafios estruturais como elevados níveis de informalidade económica, baixa penetração bancária e lacunas na literacia digital. De que forma a Pay4All está a responder a estas barreiras?
Nuno Veiga:
Angola apresenta desafios importantes, mas também grandes oportunidades no campo da transformação digital. Muitas pessoas ainda não têm acesso a serviços bancários tradicionais, e é precisamente nesse contexto que soluções mobile-first podem fazer a diferença. Através da carteira é-Kwanza e do acesso via USSD, conseguimos oferecer serviços financeiros digitais mesmo a quem utiliza telemóveis básicos. Paralelamente, estamos a expandir a nossa rede de agentes e pontos de serviço em mercados e comunidades, aproximando os serviços financeiros das pessoas. A digitalização da economia angolana cria oportunidades significativas para reduzir a dependência do numerário, aumentar a transparência e estimular o crescimento de novos modelos de negócio.
7. Com o aumento da atenção regulatória e a crescente ênfase global nos padrões ESG, a sustentabilidade tornou-se um tema central a nível mundial. Poderia explicar a estratégia mais ampla de sustentabilidade e ESG da Pay4All? Que impacto mensurável tiveram as vossas iniciativas de inclusão financeira no acesso digital e no empoderamento económico em Angola? Existem planos para integrar medidas adicionais de eficiência ambiental ou programas sociais ampliados que apoiem os objetivos de desenvolvimento sustentável de Angola a longo prazo?
Nuno Veiga:
Um dos primeiros projetos relevantes foi o apoio ao programa de combate ao abandono escolar de raparigas, o projeto PAT do Ministério da Educação. Nesse projeto ajudámos a distribuir cartões para famílias que recebem um apoio financeiro destinado a incentivar a permanência das raparigas na escola. O BAI foi o banco patrocinador do programa e nós fizemos toda a operação, desde receber as listas, validar os dados, emitir os cartões e entregá-los ao ministério.
No ano passado distribuímos cerca de 22 mil cartões para famílias beneficiárias. Este ano o número aumentou significativamente e distribuímos mais de 90 mil cartões. Foi um projecto muito relevante, porque além da distribuição ajudámos também a validar as listas e identificar duplicações. Conseguimos eliminar muitos registos duplicados e melhorar a eficiência do programa, que era financiado pelo Banco Mundial. Esse trabalho permitiu reduzir desperdícios e garantir que o apoio chegasse às famílias correctas.
8. Durante 2024, a Pay4All expandiu a sua presença instalando novos agentes e pontos de atendimento dedicados em mercados e regiões estratégicas — incluindo Kikolo, Kifica, Calemba II, Catinton e a província do Huambo. Olhando para o futuro, quais são as prioridades estratégicas da Pay4All para os próximos anos? Existem planos para o lançamento de novos produtos, expansão regional, integração de pagamentos biométricos, reforço de capacidades de inteligência artificial ou novos investimentos em infraestrutura?
Nuno Veiga:
Nos próximos anos, a nossa estratégia continuará focada em três pilares principais: expansão, inovação e inclusão. Pretendemos continuar a ampliar a rede de agentes e pontos de serviço em diferentes regiões do país, garantindo que mais comunidades tenham acesso a soluções financeiras digitais. Paralelamente, estamos a trabalhar no desenvolvimento de novos produtos, incluindo soluções de pagamento mais integradas, novas funcionalidades para comerciantes e tecnologias emergentes como pagamentos biométricos. Também continuaremos a investir em inteligência artificial e análise de dados para melhorar a eficiência operacional e a experiência do utilizador. O objetivo é consolidar a Pay4All como uma plataforma cada vez mais abrangente dentro do ecossistema digital angolano.
9. Como executivo com mais de 25 anos de experiência no sector financeiro, detentor de uma pós-graduação em Gestão de Sistemas de Informação pela Universidade de Liverpool e tendo liderado iniciativas de transformação digital em instituições como o Banco BAI antes de assumir a liderança da Pay4All num momento decisivo para a evolução dos pagamentos digitais em Angola, poderia partilhar connosco os valores, paixões e experiências profissionais determinantes que mais moldaram a sua trajetória de liderança e a sua visão para promover a inclusão financeira através da tecnologia?
Nuno Veiga:
Ao longo da minha carreira, sempre tive uma forte ligação à transformação digital e à forma como a tecnologia pode melhorar a vida das pessoas. A experiência acumulada em diferentes instituições financeiras permitiu-me compreender tanto os desafios operacionais do sector bancário como as oportunidades que a inovação tecnológica oferece. Acredito que liderança significa criar condições para que equipas talentosas possam desenvolver soluções relevantes para o mercado. Valores como integridade, colaboração e foco no cliente têm sido fundamentais na minha trajetória profissional. Na Pay4All, procuro aplicar esses princípios para promover uma visão de inclusão financeira que utilize a tecnologia como ferramenta de democratização do acesso a serviços financeiros, contribuindo para o desenvolvimento económico e social de Angola.