A Americanflag, estabelecida em meados dos anos 2000, evoluiu de uma fornecedora de soluções gráficas para uma plataforma integrada de fabrico, distribuição e comercialização de equipamentos e vestuário profissional em Angola. Quais foram os marcos mais significativos na trajetória da empresa desde a sua fundação?
Sr. Victor:
Ao longo dos anos, houve vários marcos importantes para a empresa. Quando entrei há cerca de oito anos, a Americanflag já era uma referência em Angola na área gráfica, tanto em equipamentos como em artigos têxteis, como a t-shirt e o polo da marca Mukua, bem como os bonés. Um dos fatores que mais contribuiu para o crescimento foi a fidelização dos clientes, que acreditam no nosso trabalho, nos nossos produtos e no nosso profissionalismo. Conseguimos acompanhar o crescimento dos nossos clientes e aconselhá-los, criando uma relação de confiança mútua.
Outro marco importante foi a expansão da produção. Inicialmente tínhamos uma fábrica focada apenas na produção de t-shirts, com cerca de 40 pessoas. Entre 2018 e 2019 identificámos uma oportunidade clara no mercado: a produção de uniformes. Angola é um país onde o uso de uniformes é transversal a vários setores, desde hospitais e empresas até escolas e segurança privada. Foi assim que criámos a marca Workline, após uma primeira tentativa com outro nome já existente no mercado. Este momento marcou um investimento significativo na nossa unidade industrial e no crescimento da empresa.
A empresa tem vindo a desenvolver uma plataforma operacional estruturada, incluindo produção local, capacidade de armazenamento e logística própria. Poderia partilhar alguns dos principais indicadores operacionais atuais da American Flag?
Sr. Victor:
A Americanflag é uma estrutura integrada que vai muito além da confeção. Temos vários departamentos que trabalham de forma conjunta, como uma família, para atingir um objetivo comum. A área de confeção é onde concentramos a maior parte da nossa força de trabalho, com cerca de 170 colaboradores, incluindo costureiros, operadores de corte, chefes de linha, mecânicos e equipas de apoio.
Para além da produção, temos uma forte componente logística e de distribuição. Fazemos um esforço diário para entregar os produtos aos clientes, muitos dos quais estão localizados longe das nossas instalações, sendo que deslocações de 52 km podem demorar até duas horas. Por isso, adotámos um modelo proativo de entrega, indo até ao cliente sempre que necessário.
Outro ponto fundamental é a nossa capacidade de armazenamento. Dispomos de um stock significativo, o que nos permite responder rapidamente às necessidades dos clientes, com entregas imediatas, em 24 ou 48 horas, ou com produção personalizada para encomendas maiores. Os três pilares da nossa operação são a produção, o armazenamento e a entrega.
No âmbito da inovação e modernização industrial, que iniciativas têm sido implementadas recentemente pela empresa?
Sr. Victor:
Nos últimos anos, temos investido em tecnologia de produção, nomeadamente em máquinas de costura, bordado e impressão. Procurámos adquirir equipamentos tecnologicamente avançados, mas ao mesmo tempo simples de utilizar, adaptados à realidade do país e à formação dos nossos clientes colaboradores.
Na área de personalização, para alem da venda de equipamentos de serigrafia, fornecemos a outras tipos de personalização, como o bordado e, mais recentemente, a tecnologia DTF, que permite imprimir imagens com elevada rapidez e qualidade, elevando a personalização a um novo nível
Outro avanço importante foi o lançamento da nossa loja online, que permite aos clientes consultar produtos, verificar preços, visualizar o stock disponível e efetuar compras. A plataforma está integrada com o nosso sistema de faturação e permite atualizar regularmente a disponibilidade dos produtos. Apesar disso, reconhecemos que o maior volume de vendas ainda ocorre através do contacto comercial direto, sobretudo por telefone e WhatsApp, refletindo a evolução dos hábitos de consumo desde o período da Covid-19.
À medida que Angola promove a industrialização e a diversificação económica, como é que a American Flag aborda as questões sociais, económicas e ambientais?
Sr. Victor:
A nível social, uma das nossas principais preocupações foi promover o emprego local. Demos prioridade à contratação de pessoas das zonas próximas, como Catete, Bom Jesus e outras áreas circundantes, contribuindo para o desenvolvimento das comunidades locais. Recebemos milhares de candidaturas e procurámos selecionar e formar pessoas, muitas das quais não tinham experiência prévia de trabalho formal.
Também investimos no bem-estar dos colaboradores, garantindo refeições diárias — atualmente três por dia — e acesso a água tratada, num contexto em que o acesso à água potável é limitado. Além disso, prestamos apoio financeiro aos trabalhadores sempre que necessário.
A empresa tem vindo a desenvolver marcas próprias como Mucua e Workline e a expandir-se para vários setores. Quais são as prioridades estratégicas para o futuro?
Sr. Victor:
Uma das principais prioridades é fortalecer e consolidar a marca Workline como uma referência nacional. Pretendemos aumentar a produção e expandir a nossa força de trabalho, acompanhando o crescimento da procura.
Gostaríamos também de ver um aumento da concorrência no setor, pois isso permitiria uma melhor avaliação do nosso posicionamento no mercado. Ao mesmo tempo, enfrentamos desafios relacionados com políticas de importação e taxas elevadas, que impactam tanto a nossa atividade como o acesso dos consumidores a produtos essenciais.
Apesar desses desafios, continuamos focados em crescer de forma sustentável, aumentando a capacidade produtiva e reforçando a nossa presença no mercado angolano.
Enquanto Diretor-Geral, que legado gostaria de deixar na American Flag?
O meu principal objetivo é deixar a empresa melhor do que a encontrei. Quero olhar para trás e sentir que contribuí para o crescimento e fortalecimento da organização. Não procuro reconhecimento público, mas sim a satisfação pessoal de ter feito um bom trabalho.
Acredito que o verdadeiro legado pertence ao fundador, que construiu a base da empresa. No entanto, procuramos dar continuidade a esse legado, formando equipas fortes e confiando nos colaboradores angolanos. Temos exemplos de crescimento interno muito positivos, como colaboradores que começaram em funções básicas e hoje ocupam posições de destaque.
No final, o mais importante é garantir que a empresa continue a crescer, sustentada por pessoas capacitadas e comprometidas, assegurando a sua continuidade no futuro.