Nuno Nascimento
Vice Presidente – Lyon

1. Os setores energético e industrial de Angola passaram por uma profunda transformação nas últimas duas décadas, impulsionados por grandes investimentos em infraestrutura de petróleo e gás, desenvolvimento industrial e modernização de ativos estratégicos nacionais. Desde a fundação da LYON, em 2002, a empresa posicionou-se dentro deste ecossistema altamente técnico e exigente. Olhando para trás, quais considera terem sido os marcos mais importantes na trajetória da LYON e de que forma a empresa evoluiu juntamente com o crescimento industrial mais amplo de Angola?

Nuno Nascimento:
A LYON foi fundada em 2002, reunindo profissionais provenientes de grandes grupos industriais, com sólida experiência nas áreas da engenharia, metalomecânica, soldadura industrial, tratamento anti-corrosivo, isolamento térmico, montagem de andaimes e construção civil. Desde o início, a empresa assumiu a visão de se tornar uma referência técnica em Angola, com forte compromisso com a qualidade, a segurança e o desenvolvimento de quadros nacionais.

Fomos a primeira empresa em Angola certificada nas áreas de Qualidade, Segurança, Saúde e Ambiente, tendo obtido, em 2006, as certificações ISO 9001, ISO 14001 e OHSAS 18001 pela Bureau Veritas. Ao longo dos anos, continuámos a atualizar os nossos sistemas e processos, acompanhando permanentemente as exigências e normas internacionais.

A formação e capacitação de profissionais angolanos sempre foi uma das nossas principais prioridades. Numa fase inicial, existia uma forte dependência de técnicos estrangeiros altamente especializados, mas conseguimos promover uma transferência gradual e consistente de conhecimento para equipas nacionais. Hoje, contamos com equipas 100% angolanas em várias áreas de elevada especialização técnica.

Ao longo da nossa trajetória, participámos em alguns dos maiores projetos energéticos do país, incluindo as barragens  de Cambambe,  de Laúca,  do Gove e  do Calueque, além de outros projetos estratégicos ligados à produção de energia, como a Central Termoelétrica do Kileva, na província de Benguela.

O projeto Angola LNG tornou-se um dos maiores marcos da história da empresa. A LYON teve a responsabilidade pela construção dos tanques criogénicos e de diversas infraestruturas críticas da instalação, num projeto de elevada complexidade técnica e com exigentes padrões de qualidade e segurança.

A participação neste projeto demonstrou a capacidade da empresa para operar ao lado de grandes organizações internacionais, ao mesmo nível técnico e operacional, reforçando a confiança, a credibilidade e a maturidade da LYON enquanto organização.

 

2. À medida que Angola continua a fortalecer a sua posição como um dos principais produtores de energia em África — ao mesmo tempo em que avança na diversificação industrial e no desenvolvimento do conteúdo local — as empresas que atuam nos setores de engenharia industrial e serviços metalomecânicos tornam-se cada vez mais estratégicas para a visão económica de longo prazo do país. Neste contexto, poderia partilhar alguns dos atuais indicadores operacionais da LYON, particularmente no que diz respeito ao crescimento da força de trabalho, capacidade industrial, especialização técnica, portfólio de projetos e os setores que atualmente impulsionam a expansão da empresa?

Nuno Nascimento:
A formação e a capacitação técnica continuam a ser uma das principais prioridades da LYON. Apostamos no desenvolvimento interno das nossas equipas, investindo continuamente na qualificação dos nossos técnicos e na valorização do talento nacional.

Recentemente, alcançámos um marco de grande relevância para a empresa: a certificação do primeiro técnico angolano em Ultrassons Phased Array Nível 2 ligado à LYON, no Baril. Este resultado representa não apenas um investimento significativo em conhecimento especializado, mas também o compromisso da empresa com a inovação tecnológica e a evolução contínua das suas capacidades técnicas.

Paralelamente, temos vindo a reforçar os investimentos em equipamentos, processos de controlo de qualidade e tecnologias avançadas de inspeção industrial. A crescente complexidade dos projetos exige padrões cada vez mais elevados de precisão, qualidade e segurança, e a LYON procura posicionar-se na linha da frente dessa evolução.

Atualmente, existem diversos projetos estratégicos a impulsionar o crescimento da empresa, nomeadamente nas áreas de reservas estratégicas de combustíveis, armazenamento e distribuição de gás, bem como em oportunidades associadas ao novo aeroporto internacional AIAAN, no sistema de filtragem de Jet-A1 e a outras infraestruturas energéticas de grande dimensão.

Destaca-se igualmente um importante projeto relacionado com a construção de reservatórios sob pressão para gás, na província do Huambo, que representa um projeto relevante da trajetória recente da empresa.

Ao mesmo tempo, a LYON mantém-se atenta às oportunidades ligadas às refinarias, à logística energética e aos novos projetos industriais que continuam a surgir em Angola, reforçando a sua posição como parceiro estratégico no desenvolvimento industrial e energético do país.

 

3. De acordo com diversas projeções internacionais do setor energético, os investimentos globais em infraestrutura energética, GNL (Gás Natural Liquefeito) e manutenção industrial deverão crescer significativamente na próxima década, particularmente em mercados emergentes com forte potencial energético, como Angola. Ao mesmo tempo, os operadores industriais enfrentam uma pressão crescente para melhorar a eficiência, reduzir riscos operacionais e integrar tecnologias mais avançadas nos seus ecossistemas produtivos. Dentro deste cenário em evolução, quais têm sido as principais iniciativas de inovação e modernização implementadas pela LYON nos últimos anos e de que forma a tecnologia, a automação e a otimização de engenharia estão a transformar as capacidades operacionais da empresa?

Nuno Nascimento:
A LYON procura evoluir continuamente, implementando processos cada vez mais eficientes, inovadores e alinhados com as exigências do setor industrial. A soldadura continua a ser o nosso core business, razão pela qual mantemos um investimento constante em tecnologia, novos processos e otimização operacional.

Ao longo dos anos, passámos a trabalhar com diferentes processos de soldadura avançada, incluindo soldadura semiautomática (MIG/MAG), arco submerso automático (SAW), TIG e elétrodo revestido (SMAW), permitindo ganhos significativos em produtividade, qualidade e capacidade de execução. Paralelamente, evoluímos também na área dos ultrassons Phased Array, incorporando métodos de inspeção e controlo de qualidade mais modernos, precisos e eficientes.

Outro investimento estratégico importante foi a introdução de mesas de corte CNC automatizadas e tecnologias de plasma de alta precisão. Estas soluções contribuíram significativamente para melhorar o aproveitamento de material, aumentar a produtividade e reforçar a capacidade técnica da empresa na execução de projetos complexos.

Ao longo dos anos, a LYON tem igualmente investido de forma contínua na renovação e modernização da sua frota de equipamentos de elevação. Atualmente, a empresa dispõe de um conjunto considerável de gruas, com capacidades que variam entre 5 e 200 toneladas, permitindo responder a diferentes tipos de operações industriais e logísticas com elevados padrões de segurança e eficiência.

Na área da engenharia, a evolução também foi bastante significativa. Hoje, contamos com um departamento técnico sólido, composto por profissionais altamente qualificados, experientes e preparados para responder aos desafios mais exigentes do setor.

Uma das grandes vantagens competitivas da LYON é precisamente a sua capacidade prática de analisar problemas complexos e desenvolver soluções técnicas eficientes e adaptadas à realidade operacional de cada projeto. Em muitos casos, somos procurados exatamente pela combinação entre experiência prática, competência técnica e capacidade de execução em ambientes industriais de elevada exigência.

 

4. O setor energético africano caminha cada vez mais para projetos de infraestrutura industrial mais complexos, exigindo um elevado nível de integração técnica entre operadores, empresas de engenharia, fabricantes e especialistas em manutenção. Ao longo dos anos, a LYON colaborou com grandes players como Chevron, TotalEnergies, Sonangol e outros operadores multinacionais. Qual tem sido a importância destas parcerias estratégicas no fortalecimento da capacidade técnica, da credibilidade industrial e da capacidade da LYON em executar projetos altamente especializados dentro do ecossistema energético angolano?

Nuno Nascimento:
Essas parcerias desempenharam um papel fundamental no crescimento e consolidação da LYON. Trabalhar ao lado de grandes operadores internacionais levou-nos a elevar continuamente os nossos padrões de qualidade, segurança e capacidade técnica, promovendo uma cultura de exigência e melhoria contínua em toda a organização.

Projetos de grande dimensão, como o Angola LNG, proporcionaram à empresa contacto direto com algumas das maiores referências internacionais do setor energético. Essa experiência permitiu-nos desenvolver processos internos mais robustos, fortalecer as nossas equipas e adquirir competências técnicas alinhadas com os mais elevados padrões da indústria.

Ao longo desse percurso, começámos também a perceber que tínhamos capacidade para competir tecnicamente ao mesmo nível de grandes empresas internacionais, tanto em qualidade de execução como em eficiência operacional. Essa confiança foi sendo consolidada através da participação bem-sucedida em projetos cada vez mais complexos e exigentes.

Com o passar dos anos, a LYON conquistou reconhecimento pela qualidade do seu trabalho, pela capacidade de execução de projetos industriais de elevada complexidade e, sobretudo, pela valorização de equipas maioritariamente angolanas altamente qualificadas.

Esse reconhecimento contribuiu significativamente para reforçar a credibilidade e a reputação da empresa no setor energético nacional, posicionando a LYON como uma referência técnica e operacional em Angola.

 

5. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), as operações industriais ligadas ao setor energético representam uma parcela significativa das emissões globais de carbono, enquanto os grandes operadores internacionais exigem cada vez mais que os seus contratantes e parceiros de engenharia cumpram padrões mais rigorosos de ESG, sustentabilidade ambiental e segurança operacional. Ao mesmo tempo, a segurança no trabalho continua a ser uma prioridade crítica nos setores industriais pesados, onde incidentes operacionais podem gerar impactos humanos, ambientais e financeiros significativos. Neste contexto em constante evolução, de que forma a LYON está a adaptar as suas operações para responder a estas exigências crescentes em matéria de ESG, particularmente no que diz respeito à responsabilidade ambiental, desempenho em segurança industrial, protocolos de conformidade e práticas operacionais sustentáveis no setor energético angolano?

Nuno Nascimento:
A segurança, o ambiente e a qualidade sempre fizeram parte da estratégia central da LYON. Desde a obtenção das primeiras certificações internacionais, temos trabalhado de forma contínua no reforço destes três pilares, assegurando a melhoria permanente dos nossos sistemas de gestão.

Anualmente, monitorizamos e avaliamos indicadores essenciais relacionados com o consumo de energia e água, a gestão de resíduos e o cumprimento rigoroso das normas de conformidade ambiental. Para garantir o tratamento adequado dos resíduos industriais e o cumprimento de todos os requisitos legais, trabalhamos com operadores devidamente certificados e especializados.

A segurança industrial constitui uma prioridade absoluta para a empresa. Mais do que um conjunto de procedimentos, tornou-se uma verdadeira cultura organizacional, presente no dia a dia de todas as equipas e em todas as fases dos projetos.

Projetos de elevada complexidade, como o Angola LNG, desempenharam um papel fundamental no reforço desta mentalidade, exigindo elevados padrões de rigor, disciplina operacional e conformidade com normas internacionais. Essa experiência contribuiu significativamente para consolidar práticas mais robustas e uma maior consciência coletiva em torno da segurança, qualidade e responsabilidade operacional.

O nosso objetivo é continuar a evoluir de forma sustentada, alinhando as operações da LYON com os mais elevados padrões internacionais de qualidade, segurança e desempenho ambiental.

 

6. Estudos sobre o setor industrial africano indicam que um dos maiores desafios de longo prazo do continente é a escassez de talento técnico altamente especializado capaz de sustentar projetos energéticos e de infraestrutura cada vez mais sofisticados. Em Angola, especificamente, as políticas de conteúdo local e os programas de nacionalização da força de trabalho colocam uma ênfase crescente no desenvolvimento de talento nacional qualificado. Além disso, relatórios internacionais demonstram que empresas que investem consistentemente em formação profissional, cultura de segurança e bem-estar dos colaboradores tendem a alcançar níveis significativamente mais elevados de eficiência operacional e menores índices de incidentes. Dentro deste contexto, como a LYON aborda o desenvolvimento de capital humano, a formação técnica, a segurança dos colaboradores e o fortalecimento de profissionais angolanos em ambientes industriais altamente técnicos?

Nuno Nascimento:
A formação dos nossos colaboradores sempre foi uma prioridade para nós. Desde o início da empresa percebemos que o crescimento sustentável dependia da capacidade de desenvolver profissionais nacionais altamente qualificados.

Ao longo dos anos fomos criando equipas muito fortes em áreas técnicas extremamente especializadas, através da transferência de conhecimento, formação prática e experiência em projetos complexos.

Hoje temos profissionais angolanos altamente competentes em todas as áreas.

A segurança dos colaboradores também é tratada como prioridade absoluta. Trabalhamos continuamente na formação, prevenção e desenvolvimento de uma cultura de responsabilidade dentro da empresa.

Além da componente técnica, também acreditamos muito no lado humano. Queremos que as pessoas sintam orgulho em fazer parte da LYON e que trabalhem motivadas e comprometidas com a qualidade do trabalho que executam.

 

7. O futuro do setor industrial angolano será provavelmente moldado por uma combinação entre transição energética, modernização de infraestruturas, diversificação industrial e integração regional africana. Olhando para os próximos três a cinco anos, quais são as principais prioridades estratégicas da LYON? Existem planos para expandir para novos segmentos industriais, adotar novas tecnologias de engenharia, fortalecer capacidades de fabrico ou explorar oportunidades além de Angola como parte da visão de longo prazo da empresa?

Nuno Nascimento:
A formação de pessoas sempre foi uma das principais prioridades da LYON. Desde a fundação da empresa, compreendemos que o crescimento sustentável dependia diretamente da capacidade de desenvolver profissionais nacionais altamente qualificados e preparados para responder a desafios técnicos exigentes.

Ao longo dos anos, fomos construindo equipas técnicas sólidas em áreas altamente especializadas, através de um processo contínuo de transferência de conhecimento, formação prática e participação em projetos industriais de grande complexidade. Esta abordagem permitiu-nos consolidar competências internas e reduzir progressivamente a dependência de recursos externos.

Atualmente, contamos com profissionais angolanos altamente qualificados em todas as áreas, incluindo soldadura industrial, controlo de qualidade, engenharia, proteção anticorrosiva e inspeção técnica, o que reflete a maturidade técnica alcançada pela organização.

A segurança dos colaboradores é igualmente tratada como uma prioridade absoluta. Investimos continuamente em formação, prevenção e no reforço de uma cultura organizacional baseada na responsabilidade, disciplina operacional e cuidado com os colaboradores.

Para além da componente técnica, valorizamos também fortemente a dimensão humana. Acreditamos que o desempenho sustentável resulta de equipas motivadas, comprometidas e orgulhosas do trabalho que realizam, bem como do sentimento de pertença à LYON e aos seus projetos.

 

8. Tendo dedicado quase duas décadas à LYON — passando pelas funções de Gestor de Engenharia, Membro do Conselho de Administração, Gestor de Produção e atualmente Vice-Presidente — o senhor acompanhou de perto tanto a evolução da empresa quanto a transformação do panorama industrial angolano. Na sua perspetiva enquanto líder executivo, de que forma esta trajetória moldou a sua visão estratégica para o futuro e qual legado gostaria, em última análise, que a LYON deixasse no desenvolvimento industrial de Angola e na próxima geração de empresas africanas de engenharia?

Nuno Nascimento:
Depois de quase duas décadas na LYON, a empresa tornou-se uma parte central da minha vida profissional e pessoal.

Ao longo destes anos, tive a oportunidade de acompanhar não só o crescimento da LYON, mas também a evolução do setor industrial em Angola. Esta experiência permitiu-me compreender melhor os desafios do mercado, mas também identificar as oportunidades significativas que existem para empresas nacionais com forte capacidade técnica e visão de longo prazo.

Com uma atividade diversificada em várias áreas de atuação, a LYON tem vindo a conquistar o reconhecimento de importantes parceiros e clientes, entre os quais se destacam SONANGOL, ETU Energia, Chevron, SONILS, TotalEnergies, Saipem, PRODEL, EPAL, Angola LNG e Bechtel, entre outros.

O objetivo da empresa é continuar a consolidar a LYON como uma referência no setor, reconhecida pela qualidade, segurança e elevada capacidade técnica.

Gostaria que a LYON continuasse a ser vista como uma empresa de referência em profissionalismo e competência dentro do setor industrial angolano, contribuindo de forma ativa para o desenvolvimento do país.

Acredito igualmente no potencial do talento nacional e no papel determinante que as empresas angolanas podem desempenhar no crescimento e na consolidação da indústria, não apenas a nível nacional, mas também na região.

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