José Carlos Figueiredo
CEO – Teleservice

 

1. Desde a sua fundação em 1993, a Teleservice tem vindo a afirmar-se como uma das principais empresas de segurança privada em Angola, desempenhando um papel fundamental na proteção de sectores estratégicos como o petróleo e gás, mineração e infraestruturas críticas. Num contexto em que Angola procura reforçar a sua estabilidade económica e atratividade para o investimento internacional, de que forma a Teleservice evoluiu de um prestador tradicional de serviços de segurança para um parceiro estratégico na gestão de risco e na proteção de operações industriais complexas? 

Desde a sua fundação, em 1993, a Teleservice tem acompanhado a própria evolução de Angola e da economia nacional. No início, a segurança privada estava naturalmente muito associada à vigilância física, ao controlo de acessos e à protecção patrimonial. Esse continua a ser um serviço importante, mas hoje os nossos clientes — sobretudo nos sectores do petróleo e gás, mineração, logística e infra-estruturas críticas — esperam muito mais do que presença física. Esperam prevenção, gestão de risco, capacidade de resposta, tecnologia, reporting, continuidade operacional e capacidade de adaptação.

A nossa evolução tem sido precisamente essa: deixar de olhar para a segurança como um conjunto de postos isolados e passar a tratá-la como um sistema integrado de protecção. Hoje, quando avaliamos um cliente ou uma operação, olhamos para riscos físicos, humanos, tecnológicos, logísticos, reputacionais e operacionais. E procuramos combinar meios humanos, procedimentos, supervisão, segurança electrónica, monitorização, comando e controlo, avaliação de risco e resposta a incidentes.

Esta evolução foi também suportada pela normalização dos nossos processos. A Teleservice é certificada pela ISO 9001 desde 2013, está em processo de implementação da ISO 18788 para operações de segurança, e tem vindo a alinhar a sua metodologia de avaliação de riscos com os princípios da ISO 31000. Para nós, isto é fundamental, porque no sector da segurança a confiança não pode depender apenas da experiência individual de um trabalhador ou de um gestor. Tem de estar incorporada no sistema da empresa.

Portanto, a Teleservice evoluiu porque os riscos dos nossos clientes também evoluíram. Hoje já não falamos apenas de proteger portas, armazéns ou perímetros. Falamos de proteger operações industriais complexas, apoiar a continuidade de sectores estratégicos e ajudar os clientes a tomar melhores decisões sobre os seus riscos.

 

2. Com uma força de trabalho composta por milhares de colaboradores e uma presença consolidada junto de alguns dos maiores operadores internacionais nos sectores energético e industrial, poderia partilhar alguns dos mais recentes indicadores operacionais da Teleservice, tais como a dimensão da força de trabalho, a escala das operações ou o número de clientes estratégicos? De que forma estes indicadores refletem a estratégia de crescimento da empresa e o seu contributo para o desenvolvimento económico e para a segurança das operações empresariais em Angola? 

A Teleservice é hoje uma das maiores empresas de segurança privada em Angola, com uma força de trabalho composta mais de 6400 trabalhadores, e uma presença operacional nacional relevante. Temos uma base muito forte na segurança patrimonial e industrial, mas também crescemos em áreas como segurança marítima, segurança de frota, segurança mineira, desminagem, segurança contra incêndios, segurança electrónica, formação e avaliação de risco.

Um indicador importante é a nossa presença em sectores estratégicos. No sector petrolífero, por exemplo, prestamos serviços de segurança marítima e segurança patrimonial terrestre associados a activos e operações que representam cerca de 40% da produção nacional. Quando acrescentamos os serviços de segurança de frota prestados a operadores de referência, esse envolvimento passa a estar associado a quase 80% da produção petrolífera nacional. Naturalmente, isto não significa que a Teleservice actue sozinha sobre toda essa cadeia, mas demonstra que participamos em componentes críticas do ecossistema de segurança que permite a continuidade dessas operações.

Temos também uma presença importante em infra-estruturas ligadas à refinação, à logística petrolífera, ao gás, à mineração e a grandes projectos industriais. Na mineração, a nossa presença é mais selectiva, mas inclui projectos relevantes, onde a natureza da segurança é muito específica e exige meios como unidades caninas, drones, controlo de garimpo ilegal e protecção de processos produtivos sensíveis susceptiveis a fraude.

Estes indicadores mostram duas coisas. Primeiro, que a Teleservice tem escala. Segundo, que essa escala está ligada a sectores que são fundamentais para as exportações, para a receita pública, para a atracção de investimento e para o funcionamento da economia nacional. O nosso contributo é ajudar esses sectores a operar com maior previsibilidade, menor exposição ao risco e maior continuidade operacional.

 

3. A Teleservice introduziu recentemente o “Employee Portal”, uma plataforma digital centralizada concebida para otimizar a comunicação interna, melhorar o acesso à informação e reforçar a autonomia dos colaboradores em toda a organização. De que forma a implementação desta plataforma impactou a eficiência operacional, a produtividade da força de trabalho e a coordenação interna? Existem outras iniciativas de transformação digital ou automação que a empresa esteja atualmente a desenvolver ou a planear para reforçar ainda mais as suas operações? 

O Employee Portal é uma iniciativa muito importante porque responde a um desafio natural numa empresa com milhares de trabalhadores: como comunicar melhor, como dar acesso à informação certa, como reduzir dependência de processos manuais e como aproximar a empresa dos seus colaboradores, mesmo quando eles estão espalhados por diferentes regiões e contratos.

O impacto principal é a melhoria da comunicação interna e da autonomia do trabalhador. Uma plataforma centralizada permite que os colaboradores acedam mais facilmente a informação relevante, documentos, comunicações internas, processos administrativos e, progressivamente, outros serviços da empresa. Isto reduz ruído, reduz informalidade, melhora a rastreabilidade e permite que o trabalhador se sinta mais integrado na organização.

Mas, para nós, a transformação digital não se limita ao Employee Portal. Estamos também a modernizar o nosso Centro Integrado de Comando e Controlo, reforçando a recolha e análise de dados operacionais, a geolocalização de postos, os dashboards de gestão, a classificação de incidentes e, progressivamente, ferramentas com inteligência artificial para apoiar decisões mais rápidas e melhor fundamentadas.

A nossa visão é simples: tecnologia não substitui as pessoas, mas aumenta a capacidade das pessoas. Ajuda-nos a comunicar melhor, supervisionar melhor, decidir melhor e responder mais depressa. Numa empresa de segurança, isto tem impacto directo na produtividade, na disciplina operacional e na qualidade do serviço entregue ao cliente.

 

4. Nos últimos anos, a Teleservice tem vindo a reforçar o seu papel na segurança de infraestruturas críticas, particularmente nos sectores petrolífero, marítimo e offshore em Angola, promovendo simultaneamente campanhas de sensibilização sobre os riscos da pesca em zonas de exploração petrolífera e a importância da segurança operacional em ambientes offshore. Poderia partilhar connosco o impacto destas iniciativas em termos de segurança, mitigação de risco e envolvimento comunitário? Existem outras práticas específicas do sector ou iniciativas ESG que a empresa esteja a implementar para reforçar a sua contribuição para o ecossistema energético em Angola? 

A segurança marítima offshore é uma das áreas onde a Teleservice tem uma experiência muito particular. Em Angola, a actividade petrolífera offshore convive com comunidades piscatórias, embarcações artesanais e dinâmicas locais que exigem uma abordagem equilibrada. A nossa função não é apenas afastar riscos; é também prevenir incidentes, comunicar, sensibilizar e proteger vidas humanas.

As campanhas de sensibilização sobre os riscos da pesca em zonas de exploração petrolífera têm precisamente esse objectivo. Muitas vezes, os pescadores não têm plena noção dos perigos associados à aproximação a unidades offshore, áreas restritas, embarcações de apoio, cabos, operações sísmicas ou instalações petrolíferas. Ao explicar esses riscos de forma clara, conseguimos reduzir aproximações indevidas, evitar incidentes e proteger tanto as operações industriais como as próprias comunidades.

Este trabalho tem também uma dimensão ESG muito importante. Segurança não deve ser apenas uma reacção a uma ameaça; deve ser também educação, prevenção e responsabilidade social. A Teleservice tem procurado actuar com proporcionalidade, respeito pelos direitos humanos e boa coordenação com clientes, autoridades e comunidades. Isto é particularmente importante no ambiente offshore, onde uma má abordagem pode gerar conflito, risco reputacional ou acidentes graves.

Para além disso, estamos a reforçar práticas ligadas à ISO 18788, ao uso profissional e proporcional da força, à formação das equipas marítimas, ao reporting de incidentes e à integração entre segurança marítima, avaliação de risco e resposta operacional. Acreditamos que o futuro da segurança no sector energético passa por esta combinação: rigor operacional, tecnologia, respeito pelas comunidades e prevenção activa.

 

5. Entre outubro de 2024 e maio de 2025, a Teleservice concluiu com sucesso um projeto de grande escala que envolveu a abertura de linhas sísmicas e operações de desminagem, cobrindo mais de 3 milhões de metros quadrados num dos blocos petrolíferos onshore da Bacia do Congo, em Angola. Olhando para o futuro, quais são as prioridades estratégicas da empresa na expansão das suas capacidades em ambientes de alto risco, como a limpeza de terrenos? De que forma projetos desta dimensão contribuem para reforçar o posicionamento da Teleservice no sector energético angolano e apoiar o desenvolvimento seguro de infraestruturas críticas? 

O projecto de abertura de linhas sísmicas e desminagem realizado entre 2024 e 2025 foi muito relevante para a Teleservice, não apenas pela dimensão da área coberta, superior a 3 milhões de metros quadrados, mas também pela complexidade operacional. Este tipo de trabalho exige planeamento rigoroso, disciplina de safety, controlo documental, equipas treinadas, logística, coordenação com o cliente e capacidade de trabalhar em zonas sensíveis, muitas vezes com risco real para pessoas, equipamentos e continuidade do projecto.

Para nós, este projecto demonstrou que a Teleservice consegue ir além da segurança tradicional e assumir operações técnicas de maior complexidade. A desminagem e a abertura de linhas sísmicas são serviços directamente ligados ao desenvolvimento do sector energético. Antes de haver exploração, produção ou expansão de actividade, tem de haver segurança do terreno, protecção das equipas e redução dos riscos residuais.

Olhando para o futuro, as nossas prioridades passam por consolidar a capacidade interna desta unidade, reforçar a formação, manter inventário adequado de equipamentos, melhorar procedimentos, garantir sustentabilidade operacional e integrar estas actividades numa lógica mais ampla de gestão de risco. Queremos ser capazes de apoiar projectos de energia, mineração, infra-estruturas e logística onde o risco do terreno é uma barreira ao investimento.

Este tipo de projecto reforça o posicionamento da Teleservice porque mostra que somos mais do que uma empresa de vigilância. Somos um parceiro que ajuda a criar as condições para que projectos estratégicos possam acontecer com segurança.

 

6. Num contexto global em que as ameaças à segurança se tornam cada vez mais complexas e abrangem dimensões físicas e digitais, a Teleservice tem vindo a expandir as suas operações para áreas como a cibersegurança e a proteção integrada de ativos. Como está a empresa a posicionar-se para responder a estes novos desafios e oportunidades? Que papel ambiciona desempenhar no futuro da segurança integrada em Angola e na região? 

As ameaças actuais já não são apenas físicas. Hoje, uma empresa pode ter um perímetro bem protegido, mas estar vulnerável por via digital, por falhas de comunicação, por sistemas sem redundância, por dados mal protegidos ou por processos internos pouco controlados. Por isso, a segurança integrada tem de juntar segurança física, tecnologia, cibersegurança, controlo de acessos, monitorização remota, análise de dados, gestão de risco e continuidade operacional.

A Teleservice está a posicionar-se para responder a esta evolução de forma progressiva e realista. Temos uma base muito forte na segurança física e operacional, mas estamos a reforçar áreas como segurança electrónica, comunicações, alarmística, sistemas inteligentes de vigilância e cibersegurança, muitas vezes através de parcerias técnicas especializadas.

Para nós, inovação não é tecnologia por tecnologia: é transformar e integrar pessoas, processos, dados e sistemas num verdadeiro modelo de protecção de activos críticos. Um sistema de CCTV, por exemplo, só cria valor se estiver bem desenhado, instalado, mantido, monitorizado e integrado com procedimentos de resposta. A tecnologia tem de servir a decisão e a resposta operacional.

No futuro, queremos que a Teleservice seja uma referência em segurança integrada em Angola e, progressivamente, na região. O nosso papel será ajudar os clientes a proteger activos críticos num ambiente em que os riscos físicos, digitais, humanos e operacionais estão cada vez mais interligados.

 

7. Enquanto Presidente do Conselho de Administração da Teleservice S.A., tendo desempenhado funções de liderança na empresa desde 2017, incluindo o cargo de CEO a partir de 2019, e contando ainda com uma formação académica diferenciadora, incluindo um doutoramento em Epidemiologia pela London School of Hygiene and Tropical Medicine e estudos avançados no Imperial College London, poderia partilhar connosco quais os principais valores pessoais, perspetivas analíticas e experiências profissionais que moldaram a sua abordagem de liderança? Que legado espera, em última análise, deixar na empresa?

A minha forma de liderança foi muito influenciada por duas experiências diferentes: por um lado, a gestão operacional de fundos de desenvolvimento em saúde a nível de África Sub-Sahariana, que exige pragmatismo, disciplina e capacidade de resposta; por outro, a minha formação académica em epidemiologia e análise de dados, que me ensinou a olhar para problemas complexos de forma sistémica com base na análise de meta-dados, à busca de padrões e sinais precoces.

A epidemiologia ensina-nos uma coisa muito útil para a gestão: raramente existe uma única causa para um problema. Há factores de risco, vulnerabilidades, padrões, comportamentos, contexto e consequências em cadeia. Essa forma de pensar influenciou muito a minha visão da segurança. Para mim, um incidente operacional nunca deve ser analisado apenas como um acontecimento isolado. Normalmente, ele resulta de uma combinação de factores: pessoas, processos, liderança, supervisão, tecnologia, cultura organizacional e ambiente externo.

Na Teleservice, tento aplicar essa lógica todos os dias. Acredito muito em processos, mas não acredito em processos desligados das pessoas. Acredito em tecnologia, mas não acredito em tecnologia que não fale com a realidade do terreno. Acredito em disciplina, mas também acredito que a disciplina só é sustentável quando existe dignidade, formação, justiça e sentido de pertença.

O legado que gostaria de deixar é uma Teleservice mais robusta, mais profissional, mais humana e mais preparada para o futuro. Uma empresa que não dependa apenas de uma pessoa ou de uma geração de gestores, mas de sistemas sólidos, cultura forte, trabalhadores valorizados, clientes satisfeitos e capacidade permanente de adaptação.

Também gostaria que a Teleservice fosse reconhecida como uma empresa que ajudou a elevar o padrão da segurança privada em Angola: mais ética, mais técnica, mais orientada para risco, mais respeitadora dos trabalhadores e mais alinhada com as melhores práticas internacionais.

O meu legado ideal é deixar uma Teleservice suficientemente robusta, transparente e madura para crescer para além da sua liderança actual — e, um dia, prestar contas também ao mercado de capitais. Se um dia chegarmos à Bolsa de Valores de Angola, idealmente através de um aumento de capital que permita financiar uma nova fase de crescimento, isso não será apenas uma operação financeira. Será a confirmação de que conseguimos transformar uma empresa familiar e nacional numa instituição preparada para prestar contas ao mercado, aos investidores, aos trabalhadores e ao País. No fundo, o meu objectivo é esse: deixar uma empresa que continue a crescer, mesmo quando já não depender das pessoas que hoje a lideram.

 

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