Gonçalo Soveral
Sócio – Gerente da Lusocola

1.Desde a sua fundação em 2010 de que forma a Lusocola tem evoluído ao longo dos anos em termos de posicionamento estratégico no panorama industrial e da construção em Angola e quais foram os marcos mais significativos do seu percurso?

Sr. Gonçalo: 

A evolução que observei, no início da década de 2010, há cerca de 16 anos, apresenta algumas diferenças em relação ao que vemos atualmente. No sector da construção, a transformação tem sido mais gradual, sobretudo no que diz respeito aos materiais utilizados. Produtos como cimentos, betões e argamassas continuam a desempenhar um papel central nas operações, embora tenham sido registados melhoramentos ao nível da qualidade, desempenho e eficiência das soluções disponíveis no mercado.

Desde cedo identificámos uma necessidade importante na região centro-sul relativamente ao tipo de argamassas que produzimos. Ao longo dos anos, o mercado tem vindo a valorizar cada vez mais produtos que garantam maior qualidade, consistência e desempenho técnico nas obras. Nesse contexto, temos investido em soluções com componentes de cellulose e químicos especializados provenientes da Europa, permitindo oferecer produtos mais modernos e eficientes face aos métodos tradicionalmente utilizados.

Naturalmente, a componente financeira continua a influenciar o ritmo de adoção de algumas soluções mais avançadas, particularmente em mercados como Angola. Ainda assim, temos assistido a uma evolução positiva e gradual do sector, acompanhada pelo crescimento do próprio mercado na região centro.

Esse crescimento também se reflete na nossa capacidade produtiva. Inicialmente operávamos com apenas uma linha de produção e, atualmente, contamos com duas linhas, o que demonstra um crescimento sustentado, alinhado com a evolução do mercado e com as necessidades crescentes do sector da construção no país.

2. O Sr. Gonçalo poderia compartilhar connosco mais detalhes sobre a vossa capacidade operacional atual, incluindo os volumes de produção, a gama de produtos, a estrutura da força de trabalho e o alcance da vossa rede de distribuição?

Sr. Gonçalo:

Atualmente, contamos com uma capacidade interna de produção de cerca de 40 toneladas por dia, operando numa média aproximada de 20 toneladas diárias, o que nos permite manter margem para acompanhar o crescimento gradual da procura do mercado. A empresa conta com uma equipa composta por 20 colaboradores nacionais e 3 expatriados, distribuídos em dois turnos de produção de seis horas cada.

A nossa atividade está essencialmente focada na produção de soluções cementícias, particularmente argamassas e produtos destinados ao assentamento de revestimentos e acabamentos utilizados em projetos residenciais e comerciais, como cozinhas, habitações e outras infraestruturas. Paralelamente, produzimos também rebocos, amplamente utilizados no acabamento e preparação de paredes, garantindo maior qualidade e durabilidade nas construções.

Em termos de distribuição, a nossa operação está fortemente concentrada na região centro-sul de Angola, abrangendo mercados estratégicos abaixo da região do Huambo. A nossa presença é particularmente consolidada em províncias e cidades como Menongue, Lubango, Benguela e outras localidades da região sul, onde temos vindo a reforçar gradualmente a nossa posição no mercado.

Angola é um país de grande dimensão territorial e a logística desempenha naturalmente um papel importante na dinâmica do sector. Nesse contexto, optámos por consolidar a nossa atuação nas regiões onde conseguimos garantir maior eficiência operacional, proximidade ao cliente e competitividade na distribuição dos nossos produtos. Essa estratégia tem permitido à empresa crescer de forma sustentada e fortalecer a sua presença no mercado nacional.

3. Como é que a empresa aborda a inovação ao nível de desenvolvimento de produtos, desempenho dos materiais e adaptação a necessidades específicas ao mercado angolano?

Sr. Gonçalo:

Ao longo do tempo, a nossa evolução tem acontecido sobretudo em função das necessidades do próprio mercado e daquilo que os clientes procuram. As construtoras desempenham um papel particularmente importante nesse processo, uma vez que a adoção de novos métodos e hábitos de construção acaba por gerar a necessidade de soluções mais adaptadas e produtos mais específicos. Nesse sentido, temos procurado acompanhar essas exigências, ajustando a nossa produção de acordo com as necessidades do sector.

Como resultado, alguns dos nossos produtos têm vindo a sofrer melhorias e adaptações relativamente às suas formulações e aplicações originais, muito impulsionadas pelo feedback e pelas exigências das próprias construtoras. Essa proximidade com o mercado tem sido fundamental para garantir que continuamos a oferecer soluções alinhadas com as expectativas dos clientes e com a evolução gradual do sector.

Embora o mercado da construção não tenha registado mudanças disruptivas nos últimos anos, tem existido uma evolução contínua ao nível da qualidade, da eficiência e das exigências técnicas dos projetos. Essa realidade é visível não apenas em Angola, mas também em mercados europeus como Portugal, que conheço bem desde a minha formação académica há cerca de 20 anos. Os princípios fundamentais da construção mantêm-se sólidos, mas existe hoje uma preocupação crescente com desempenho, durabilidade e otimização das soluções utilizadas em obra.

4. A Lusocola tem participado em feiras de negócio como a Expo Ambo para fortalecer a sua rede de parcerias de produtos e serviços. Existem parcerias, seja a nível local ou internacional, que a Lusocola esteja a explorar para expandir ou fortalecer o seu portfólio?

Sr. Gonçalo: 

As feiras e eventos do sector desempenham um papel muito importante para a nossa empresa, sobretudo pela oportunidade que proporcionam de conhecer novos produtores nacionais e identificar potenciais parceiros com produtos que possam complementar a nossa atividade industrial. Sendo uma indústria transformadora, dependemos de matérias-primas para o nosso processo produtivo. Felizmente, hoje já conseguimos adquirir parte desses materiais localmente, o que representa uma vantagem muito significativa para nós, particularmente do ponto de vista cambial e operacional.

Por outro lado, estes eventos também são fundamentais para aumentar a visibilidade da empresa junto do mercado da construção. Muitas construtoras que operam na região sul do país, incluindo empresas que se deslocam de outras províncias para executar obras nesta zona, ainda desconhecem a nossa presença e capacidade produtiva local. Em várias ocasiões, ao apresentarmo-nos diretamente em obras ou junto de construtoras em cidades como Benguela ou Lubango, ouvimos comentários de surpresa por parte dos responsáveis, que reconhecem que teria sido muito mais fácil trabalhar connosco localmente do que recorrer ao fornecimento de produtos vindos de outras regiões do país.

Isso demonstra não apenas o potencial de crescimento do mercado, mas também a importância de continuarmos a reforçar a proximidade com os clientes e a consolidar a nossa presença no sector da construção em Angola.

5. O sector da indústria de matérias de construção está da prioridade a produtos que reduzem o carbono incorporado. De que forma a Lusocola está a incorporar práticas ambientais, social e de governança?

Sr. Gonçalo:

A sustentabilidade e a redução da pegada ecológica são hoje temas incontornáveis para qualquer indústria. No nosso caso, trata-se de um processo que tem vindo a evoluir de forma gradual, sobretudo porque o sector da construção continua a assentar em métodos de produção relativamente tradicionais e em matérias-primas cuja transformação tecnológica tem sido mais moderada ao longo dos anos.

Apesar disso, existe uma preocupação crescente da nossa parte em operar de forma cada vez mais responsável e sustentável. Procuramos otimizar os nossos processos produtivos dentro das possibilidades da indústria, garantindo eficiência operacional, qualidade dos produtos e uma utilização mais consciente dos recursos disponíveis.

Por outro lado, o impacto social e o compromisso com as comunidades onde estamos inseridos assumem um papel extremamente importante na nossa visão empresarial. Operamos numa região do centro-sul de Angola onde a proximidade com as comunidades é muito forte, e acreditamos que o crescimento da empresa deve caminhar lado a lado com o desenvolvimento social das populações locais.

Além disso, temos procurado reforçar o nosso compromisso social através de iniciativas de apoio comunitário. Um exemplo disso é o projecto “Sopa para Todos”, no qual, aos fins de semana, adquirimos refeições e as distribuímos a crianças e famílias em situação de vulnerabilidade. Dentro das nossas possibilidades, procuramos apoiar e criar um impacto positivo nas comunidades onde estamos inseridos.

Para nós, estar inseridos nesta região significa também assumir uma responsabilidade ativa no apoio às comunidades que fazem parte do nosso percurso e do nosso crescimento enquanto empresa.

6. Olhando para os próximos anos, quais são as principais prioridades estratégicas da Lusocola em termos de expansão, da capacidade produtiva, diversificação de portfólio, de produtos e penetração em novos mercados regionais?

Sr. Gonçalo: 

Nos próximos anos, acreditamos que haverá um conjunto de obras de grande dimensão, sobretudo na zona sul do país, que poderão ter um impacto muito positivo no setor da construção. Tradicionalmente, muitos dos grandes projetos acabam por estar mais concentrados em Luanda, mas acreditamos que regiões como Benguela e mesmo o Huambo poderão começar a receber investimentos e empreendimentos de grande relevância.

Para a Lusocola, isso representa uma oportunidade estratégica muito importante, porque obras de maior dimensão normalmente trazem consigo empresas, técnicos e equipas especializadas que já trabalham com métodos de construção mais modernos e com produtos mais diferenciados. Em vez de recorrerem apenas a processos tradicionais e manuais, passam a utilizar soluções mais evoluídas, como rebocos projetados e aplicações mecanizadas, que exigem produtos com maior nível técnico e desempenho.

Nós já dispomos de alguns desses produtos no nosso portfólio. O desafio, neste momento, passa sobretudo por aumentar a sua presença no mercado e criar procura para esse tipo de soluções mais inovadoras. O nosso objetivo é precisamente introduzir novos produtos e tecnologias, acompanhando a evolução do setor da construção em Angola.

7. Como sócio-gerente da Lusocola, quais foram as competências que moldaram as suas habilidades de liderança da empresa e qual é o legado que o Sr. Gonçalo gostaria de deixar um dia na Lusocola?

Sr. Gonçalo: 

Ao longo dos anos, aprendi sobretudo a liderar com mais paciência, equilíbrio e proximidade com as pessoas. Angola ensinou-me muito sobre a importância de viver com mais calma, absorver melhor os desafios do dia a dia e valorizar as relações humanas. Tenho colaboradores que estão comigo há mais de 14 anos, desde o início da empresa, e isso demonstra o espírito de confiança, amizade e união que fomos construindo ao longo do tempo.

Em relação ao legado, gostaria que a Lusocola continuasse a crescer muito para além de mim, consolidando-se como uma empresa de referência no setor da construção. Angola é um país jovem, com uma geração cada vez mais exigente e com maior visão sobre a qualidade de vida e habitação, e acredito que a empresa tem um papel importante em acompanhar essa evolução, fornecendo soluções modernas e contribuindo para o desenvolvimento do país durante muitos anos.

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