Luis Saraiva
CEO - Detudo

1. Sendo uma empresa nacional focada em soluções de embalagens flexíveis para o mercado angolano, quais considera terem sido os marcos mais significativos no crescimento e consolidação da Detudo ao longo dos anos?

Luis Saraiva: Um dos nossos maiores marcos foi entrar no grupo das maiores empresas de embalagens em Angola, especificamente no segmento das embalagens flexíveis. Desenvolvemos soluções de embalagens flexíveis personalizadas para empresas de referência como a Suave, Africa Future, Ghion, United, Unibaker e SIPA. O nosso foco sempre foi a embalagem personalizada, e hoje trabalhamos com tecnologia de impressão flexográfica até oito cores, através de duas impressoras.

Embora sejamos uma empresa relativamente jovem, com apenas dois anos e meio de atividade, distinguimo-nos pela aposta consistente em nichos especializados. Por exemplo, somos a única empresa a fabricar sacos de vácuo com tecnologia de barreira utilizando poliamida, enquanto a maioria das empresas produz apenas sacos normais de vácuo. Isto permite aos nossos clientes aumentar significativamente o prazo de validade dos produtos, razão pela qual trabalhamos com clientes de topo como a Quinta dos Jugais, Carnes do Bengo, Valinho e Lusocil.

 

2. Poderia partilhar uma visão geral da capacidade operacional atual da Detudo e das principais áreas de especialização da empresa dentro da indústria de embalagens?

Luis Saraiva: A nossa capacidade de produção situa-se atualmente em cerca de 200 toneladas por mês, e continuamos a trabalhar para crescer ainda mais. Continuamos a identificar nichos especializados onde possamos acrescentar valor através da inovação e da diferenciação.

Por exemplo, estamos a preparar-nos para ser a primeira empresa em Angola a introduzir válvulas em sacos de café. Trabalhamos muito com marcas de café, produzindo embalagens metalizadas com barreira, desenhadas para preservar o café em grão ou moído durante mais tempo, mantendo a frescura e a qualidade do produto.

Também trabalhamos com embalagens laminadas, zipper bags e pouch bags com sistemas de abertura fácil. Outro fator que nos distingue é o facto de não utilizarmos material reciclado em embalagens que entram em contacto com alimentos. Muitas empresas utilizam material reciclado, mas nós trabalhamos apenas com matéria-prima virgem importada, porque acreditamos que materiais reciclados não devem entrar em contacto direto com produtos alimentares.

 

3. A inovação e a eficiência operacional tornaram-se fatores fundamentais na indústria das embalagens. Quais foram algumas das iniciativas de inovação mais importantes implementadas pela Detudo nos últimos anos?

Luis Saraiva: Acreditamos que ainda existem poucas empresas em Angola a operar neste nível dentro do nosso segmento. O que nos distingue é a nossa flexibilidade. Enquanto empresas maiores trabalham apenas com grandes clientes, nós conseguimos servir pequenas e médias empresas que também necessitam de embalagens personalizadas.

Em termos de inovação, dentro de dois ou três meses esperamos começar a produzir localmente rótulos BOPP para garrafas de água. Estamos igualmente a preparar um investimento na área dos sleeves, uma tecnologia que ainda não existe em Angola. Estes investimentos permitem-nos entrar em nichos especializados em vez de competir apenas pelo preço.

O nosso objetivo não passa por competir exclusivamente através do preço. Preferimos apostar na inovação, diferenciação e soluções especializadas para o mercado.

 

4. Poderia elaborar sobre as principais parcerias que a DETUDO estabeleceu ao longo dos anos e de que forma essas colaborações contribuíram para o desenvolvimento da empresa e para o fortalecimento do seu posicionamento no mercado? Além disso, existem novas parcerias ou áreas de cooperação estratégica que a DETUDO esteja atualmente a explorar? 

Luis Saraiva: Tivemos recentemente reuniões com a Associação Angolana de Bebidas e estamos a preparar-nos para integrar a associação, porque queremos reforçar a nossa posição no segmento das embalagens para bebidas, especialmente na área dos rótulos para águas e soluções shrink.

Já fabricamos shrink localmente e continuamos a investir em áreas onde existe pouca concorrência em Angola. O nosso objetivo é sempre identificar oportunidades onde possamos acrescentar valor ao mercado local através de soluções especializadas de embalagem.

 

5. Como a DETUDO tem estruturado a sua estratégia de ESG e sustentabilidade ambiental, particularmente no que diz respeito à redução de resíduos plásticos, melhoria da reciclabilidade, promoção de soluções de embalagem mais sustentáveis e equilíbrio entre crescimento industrial e responsabilidade ambiental?

Luis Saraiva: Todos os processos de produção geram desperdícios, e todo o material residual é entregue a empresas que fazem a reciclagem e transformam esses resíduos em granulado plástico. Existe frequentemente a perceção de que o plástico é o principal problema ambiental, quando, na realidade, pode ser reciclado e reintegrado em diferentes cadeias de valor.

Todo o material sobrante do nosso processo produtivo é vendido para empresas que o transformam em produtos como sacos de lixo, mangas agrícolas, coberturas plásticas para estufas e outras aplicações industriais.

No entanto, dentro da nossa produção de embalagens alimentares, trabalhamos exclusivamente com matéria-prima virgem importada, porque acreditamos que materiais reciclados não devem ser utilizados em contacto direto com alimentos.

 

6. Para além das questões ambientais, como descreveria a abordagem da DETUDO em relação à responsabilidade social e às práticas de governação, e que impacto concreto estas iniciativas têm gerado no bem-estar dos colaboradores, no desenvolvimento das comunidades locais e na promoção de práticas industriais responsáveis em Angola?

Luis Saraiva: Atualmente temos cerca de 70 colaboradores nacionais nas nossas operações. Todos recebem equipamentos de proteção individual, segurança social, salários pagos pontualmente, água potável tratada, instalações higienizadas, sistemas de aquecimento de comida e condições adequadas de trabalho.

Mais importante ainda, muitos dos colaboradores chegaram sem formação técnica e hoje estão a desenvolver competências profissionais muito relevantes. Contamos com engenheiros expatriados especializados em flexografia, mecânica e eletrotecnia que formam diariamente os trabalhadores angolanos. Alguns dos nossos colaboradores já conseguem operar máquinas de forma totalmente independente.

Todos os meses reconhecemos o colaborador que mais se destaca com base em critérios como assiduidade, disciplina, respeito e espírito de iniciativa. Também realizamos formações frequentes, incluindo combate a incêndios e certificação para condução de empilhadores, totalmente financiadas pela empresa.

Para mim, responsabilidade social significa manter uma cultura de portas abertas, onde qualquer colaborador pode falar diretamente com a direção e onde as pessoas são tratadas com dignidade e respeito.

 

7. Olhando para o futuro, quais são atualmente as principais prioridades estratégicas da Detudo?

Luis Saraiva: Uma das nossas maiores prioridades é transferir as operações para fora da cidade, porque precisamos aumentar a capacidade de produção. A operação dentro do perímetro urbano cria desafios logísticos e operacionais, tornando a expansão uma necessidade estratégica para sustentar o crescimento futuro da empresa.

Ao mesmo tempo, um dos nossos maiores desafios continua a ser o acesso a divisas e as transferências internacionais, uma vez que dependemos da importação de matéria-prima virgem. Muitas empresas em Angola enfrentam atualmente dificuldades sérias relacionadas com pagamentos a fornecedores internacionais e importações.

Apesar desses desafios, o nosso objetivo continua a ser crescer, aumentar a capacidade produtiva e consolidar a nossa posição nos segmentos especializados de embalagens em Angola.

 

8. Como líder, qual é o legado que gostaria de deixar?

Luis Saraiva: Honestidade é, para mim, a coisa mais importante. Acredito profundamente na honestidade, no diálogo e numa forte cultura de trabalho. Procuro liderar pelo exemplo, sendo frequentemente o primeiro a chegar e o último a sair. Estou presente todos os dias porque as pessoas precisam ver que a liderança está comprometida e envolvida.

Acredito que as empresas são feitas de pessoas. Pode-se ter o melhor produto do mundo, mas sem as pessoas certas nada funciona. As competências técnicas podem ser ensinadas, mas lealdade, honestidade e ética de trabalho fazem parte do caráter e da educação de cada pessoa.

Para mim, liderança é dar o exemplo a partir do topo. Se o exemplo não vier da liderança, torna-se muito difícil esperar isso de toda a equipa.

 

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