Vladimir Ferraz
Presidente do Conselho de Administração Banco de Comércio e Indústria (BCI)

1. Desde a sua criação em 1991 como banco público, o Banco de Comércio e Indústria (BCI) desempenhou um papel importante no financiamento do comércio e da indústria em Angola. Após a sua privatização em 2021, no âmbito do programa PROPRIV, o banco entou numa nova fase marcada pela reestruturação, modernização e crescimento sob gestão privada.Na sua opinião, quais foram os marcos mais significativos na trajetória do BCI desde a sua fundação até à atual fase de transformação,?

Vladmir Ferraz:
Desde a sua criação, em 1991, o Banco de Comércio e Indústria tem desempenhado um papel relevante no apoio ao comércio, à indústria e ao desenvolvimento económico de Angola. Ao longo de mais de três décadas, o Banco consolidou-se como uma instituição fortemente ligada à economia real, com presença activa no financiamento das famílias, das micro, pequenas e médias empresas, agricultura, comércio e de outros sectores produtivos estratégicos para o país.

Um dos marcos mais importantes da trajectória do BCI, foi naturalmente o processo de privatização em 2021, no âmbito do PROPRIV, que marcou o início de uma nova fase de transformação da instituição. Esta nova etapa ficou caracterizada por um forte processo de reestruturação, recapitalização, modernização tecnológica e reforço da governação corporativa.

Desde então, o Banco tem vindo a implementar um conjunto de iniciativas focadas na melhoria da eficiência operacional, transformação digital, modernização dos serviços e reforço da sustentabilidade financeira da instituição.

Ao mesmo tempo, o BCI tem reforçado o seu posicionamento como banco de proximidade, com especial enfoque no financiamento da produção nacional e das pequenas e médias empresas, reconhecendo o papel central que estes sectores desempenham na criação de emprego, formalização da economia e diversificação económica de Angola.

Hoje, o BCI encontra-se numa fase de consolidação e crescimento, focado em afirmar-se como um banco mais moderno, sólido, eficiente e cada vez mais próximo das necessidades dos clientes e da economia angolana.

 

2. Nos últimos anos, o BCI registou uma recuperação significativa, com forte crescimento dos resultados líquidos, dos ativos e da carteira de crédito, refletindo uma nova dinâmica operacional após a privatização.Poderia partilhar alguns indicadores-chave de desempenho atuais — como total de ativos, evolução da carteira de crédito, rentabilidade e crescimento da base de clientes — que evidenciem o posicionamento do BCI no mercado angolano?

Vladmir Ferraz:
No final do exercício de 2025, o banco registou um resultado líquido de AOA 52,3 mil milhões, equivalente a cerca de USD 57,3 milhões, o que representa um crescimento de 2% face ao exercício anterior. Este desempenho permitiu alcançar um ROE de 32% e um ROA de 5%, indicadores que reflectem a capacidade do Banco de gerar valor para os seus accionistas e de rentabilizar os seus activos de forma sustentável.

A evolução positiva dos resultados foi acompanhada por um crescimento expressivo da dimensão do Banco. Os activos totais aumentaram 28%, atingindo AOA 1,027 biliões, enquanto os Fundos Próprios registaram um crescimento de 48%, fixando-se em AOA 161,8 milhões. Particularmente relevante é o facto de 92% destes fundos próprios serem constituídos por capital de elevada qualidade, o que demonstra a robustez financeira da instituição e a sua capacidade para sustentar o crescimento futuro.

Ao nível da actividade creditícia, registámos melhorias significativas na qualidade da carteira. O rácio de crédito vencido reduziu-se em 4 pontos percentuais relativamente ao período homólogo, evidenciando o reforço dos mecanismos de gestão de risco, recuperação de crédito e acompanhamento dos clientes. Por sua vez, o rácio de transformação situou-se em 61%, reflectindo uma utilização eficiente dos recursos captados para financiar a economia e apoiar os sectores produtivos.

Importa igualmente destacar os ganhos de produtividade alcançados. O Banco tem vindo a beneficiar dos investimentos realizados na modernização tecnológica, optimização de processos e capacitação das equipas, registando uma produtividade média por colaborador de AOA 220 milhões. Este indicador demonstra não apenas uma maior eficiência operacional, mas também a crescente capacidade do Banco para gerar resultados sustentáveis através da valorização dos seus recursos humanos e tecnológicos.

De uma forma geral, estes resultados confirmam a trajectória de consolidação, crescimento e transformação que o BCI tem vindo a implementar nos últimos anos, reforçando a sua posição como uma instituição financeira sólida, rentável e cada vez mais preparada para apoiar o desenvolvimento económico de Angola.

 

3. O Banco de Comércio e Indústria (BCI) tem participado em iniciativas internacionais como o SIBOS e o Mastercard Africa EDGE e isto demonstra uma clara intenção de estabelecer parcerias globais e incorporar inovação no sistema financeiro nacional. Neste contexto, de que forma estas parcerias e colaborações estratégicas contribuem para o fortalecimento do ecossistema financeiro do BCI? E, olhando para o futuro, que novas parcerias ou áreas de cooperação o banco pretende explorar?

Vladmir Ferraz:
A participação do BCI em eventos internacionais como o Sibos e o Mastercard Africa EDGE demonstra, acima de tudo, a nossa ambição de continuar a modernizar o Banco e aproximá-lo das principais tendências do sistema financeiro internacional.

Hoje, o sector bancário está a mudar muito rapidamente, impulsionado pela tecnologia, pelos meios digitais e pelas novas exigências dos clientes. Participar nestas plataformas permite-nos acompanhar essa evolução, trocar experiências com outras instituições financeiras e desenvolver parcerias estratégicas que podem trazer valor acrescentado para o Banco e para os nossos clientes.

Estas iniciativas têm contribuído para reforçar áreas importantes como a transformação digital, os meios de pagamento, a inovação tecnológica, a cibersegurança e a eficiência operacional. Ao mesmo tempo, ajudam-nos a fortalecer relações com bancos internacionais, fintechs e parceiros tecnológicos, aumentando a capacidade do BCI de responder aos desafios de um mercado cada vez mais competitivo e global.

Olhando para o futuro, queremos continuar a aprofundar parcerias nas áreas de inclusão financeira, banca digital, inteligência artificial, pagamentos electrónicos, financiamento às PME’s e apoio aos sectores produtivos, sobretudo agricultura e indústria transformadora.

O nosso objectivo é continuar a construir um banco moderno, próximo das pessoas e preparado para apoiar o crescimento sustentável da economia angolana, sempre alinhado com as melhores práticas internacionais.

No futuro, queremos continuar a desenvolver parcerias nas áreas de inovação, pagamentos digitais, inclusão financeira e tecnologia aplicada à banca.

 

4.  Nos últimos anos, o Banco de Comércio e Indústria (BCI) tem implementado diversas iniciativas de transformação digital e automação, incluindo a modernização das suas plataformas de banca digital, a adoção de infraestruturas baseadas em cloud como o Microsoft Azure e a integração de sistemas empresariais como o Odoo para otimizar as operações internas. Adicionalmente, o banco tem vindo a recorrer a ferramentas como a plataforma Kuzwela para reforçar a transparência e a visibilidade operacional. Neste contexto, quais têm sido os principais resultados destas iniciativas ao nível da eficiência operacional e da satisfação dos clientes? Adicionalmente, que outras ideias ou projetos de inovação e automação o BCI está a considerar para o futuro?

Vladmir Ferraz:
A transformação digital constitui hoje um dos pilares centrais da estratégia do Banco de Comércio e Indústria. Nos últimos anos, o Banco tem vindo a investir na modernização das plataformas tecnológicas, na expansão dos canais digitais, na automatização de processos internos e na integração de novas soluções de gestão e monitorização operacional.

A actualização do core banking, a adopção de infraestruturas cloud e a implementação de ferramentas de suporte operacional e de transparência permitiram reforçar significativamente a eficiência do Banco, melhorar os tempos de resposta, simplificar processos e proporcionar uma experiência mais rápida, segura e acessível aos clientes.

Estes ganhos têm sido particularmente importantes no apoio às PME’s, à agricultura e aos sectores produtivos, onde a rapidez no acesso aos serviços financeiros e à tomada de decisão é fundamental.

Ao mesmo tempo, a digitalização tem permitido aumentar a proximidade com os clientes e expandir o acesso aos serviços bancários em regiões com menor cobertura financeira, contribuindo para a inclusão financeira e formalização da economia.

Olhando para o futuro, o BCI continuará a investir em inovação, automação e soluções digitais, com foco na melhoria contínua da experiência do cliente, no reforço da segurança, na eficiência operacional e no desenvolvimento de produtos cada vez mais simples, acessíveis e ajustados às necessidades da economia angolana.

 

5.  O banco de Comércio e Indústria (BCI) tem desempenhado um papel cada vez mais relevante no apoio ao desenvolvimento económico e social de Angola, nomeadamente através do financiamento à agricultura, às pequenas e médias empresas (PME) e de iniciativas que promovem a inclusão financeira em comunidades menos servidas. Em paralelo, o banco tem vindo a reforçar o seu modelo de governação e as práticas de transparência no âmbito da sua recente transformação. Poderia partilhar connosco qual tem sido o impacto social e económico destas iniciativas junto das comunidades e do tecido empresarial angolano? E, adicionalmente, de que forma o BCI está a integrar e a desenvolver práticas ESG (Ambientais, Sociais e de Governação) na sua estratégia e operações?

Vladmir Ferraz:
O BCI tem vindo a reforçar o seu compromisso com o desenvolvimento económico e social de Angola, sobretudo através do apoio aos sectores produtivos, às PME’s, à agricultura e às iniciativas que promovem maior inclusão financeira.

O nosso entendimento é que uma economia mais forte constrói-se apoiando quem produz, quem empreende e quem cria emprego. Por essa razão, o Banco tem procurado disponibilizar soluções financeiras mais ajustadas às necessidades das empresas, das famílias e dos pequenos operadores económicos.

Temos igualmente investido na modernização do Banco, quer ao nível tecnológico, quer ao nível da eficiência operacional e da proximidade com os clientes. A digitalização dos serviços e as iniciativas de literacia financeira têm permitido levar os serviços bancários a mais pessoas e facilitar a integração de muitos operadores económicos no sistema financeiro formal.

Um exemplo importante é o Programa Banqueiro da Zunga, desenvolvido em parceria com o INAPEM e a Academia de Literacia de Angola, que tem contribuído para aproximar os pequenos negócios do sistema bancário, promovendo maior capacitação financeira e inclusão económica.

Relativamente ao ESG, o Banco tem vindo a integrar estes princípios de forma gradual na sua estratégia. Na vertente social, destacaria o apoio à inclusão financeira, à educação financeira e ao desenvolvimento das PME’s e dos sectores produtivos.

Na componente de governação, temos reforçado os mecanismos de transparência, controlo interno, gestão de risco e alinhamento com as melhores práticas de governação corporativa.

Já na componente ambiental, reconhecemos a crescente importância da sustentabilidade e pretendemos continuar a evoluir na integração de critérios ambientais e de sustentabilidade nas nossas operações e decisões de financiamento.

O nosso objectivo é continuar a construir um banco mais moderno, inclusivo, sustentável e cada vez mais próximo das necessidades da economia angolana e das comunidades que servimos.

6. O Banco de Comércio e Indústria (BCI) tem vindo a reforçar a sua posição no sistema financeiro angolano através de iniciativas como o lançamento de plataformas digitais para maior transparência, o apoio estruturado ao sector energético e a aposta em inovação e parcerias internacionais, demonstrando um papel cada vez mais relevante no financiamento da economia real. Olhando para o futuro, existem planos para expandir esta estratégia através da introdução de novos instrumentos financeiros, soluções digitais ou iniciativas sectoriais específicas que permitam ao BCI consolidar o seu contributo para o crescimento económico sustentável de Angola?

Vladmir Ferraz:
Os produtos Zungueira e Monami foram desenvolvidos com o objectivo de responder de forma mais próxima às necessidades reais dos clientes, tornando o acesso aos serviços bancários mais simples, conveniente e acessível, sobretudo para segmentos tradicionalmente menos integrados no sistema financeiro.

Esta abordagem faz parte de uma visão mais ampla do Banco de Comércio e Indústria, que passa por desenvolver soluções cada vez mais inclusivas, digitais e adaptadas à realidade económica e social angolana.

O nosso objectivo é continuar a expandir esta estratégia através da criação de novos produtos e instrumentos financeiros orientados para diferentes segmentos da população e sectores da economia, com especial enfoque nas micro, pequenas e médias empresas, nos jovens empreendedores, na agricultura, no comércio informal em processo de formalização e nas comunidades com menor acesso aos serviços financeiros tradicionais.

Paralelamente, continuaremos a investir na modernização dos canais digitais, automatização de processos, melhoria da experiência do cliente e expansão da inclusão financeira, permitindo que mais cidadãos tenham acesso a soluções bancárias simples, seguras e eficientes.

Neste contexto, destacaria igualmente iniciativas como o Programa Banqueiro da Zunga, desenvolvido em parceria com o INAPEM e a Academia de Literacia de Angola, que reflecte o compromisso do Banco com a literacia financeira, capacitação dos pequenos operadores económicos e integração progressiva na economia formal.

O BCI pretende continuar a afirmar-se como um banco próximo das pessoas, comprometido com a inovação, com a inclusão financeira e com os desafios do crescimento sustentável e da diversificação económica de Angola.

 

7.  Como executivo com uma sólida experiência em banca de investimento, gestão de fundos de pensões e governação corporativa — tendo desempenhado funções como administrador independente antes de assumir a presidência do Conselho de Administração do Banco de Comércio e Indústria (BCI) — poderia partilhar connosco quais foram os valores, decisões e experiências profissionais que mais influenciaram o seu percurso? E, nesta nova fase como PCA, qual é a sua visão estratégica para o fortalecimento do BCI no sistema financeiro angolano e que legado ambiciona deixar na instituição?

Vladmir Ferraz:
Ao longo do meu percurso profissional no sector financeiro angolano, tive a oportunidade de trabalhar em diferentes áreas da banca, Fundos de investimentos, fundos de pensões e seguros, experiências que me permitiram acompanhar de perto a evolução económica e institucional de Angola e compreender melhor os desafios e oportunidades do nosso sistema financeiro.

Essas experiências influenciaram profundamente a minha visão sobre liderança e gestão institucional. Aprendi que, no sector financeiro credibilidade, prudência, disciplina e visão estratégica são factores essenciais para garantir estabilidade, crescimento sustentável e confiança dos clientes e do mercado.

Ao longo da minha carreira, sempre procurei defender uma abordagem assente no rigor da governação, na responsabilidade institucional e na necessidade de as instituições financeiras estarem verdadeiramente ligadas à economia real e às necessidades concretas do país.

Enquanto Presidente do Conselho de Administração do Banco de Comércio Indústria, procuro materializar essa visão através da consolidação de um banco cada vez mais moderno, sólido, próximo dos clientes, assente em elevados padrões de governação, sustentabilidade, eficiência e responsabilidade institucional.

A nossa estratégia passa por reforçar eficiência operacional, acelerar a transformação digital, fortalecer os mecanismos de controlo e gestão de risco, melhorar continuamente a experiência do cliente e consolidar o posicionamento do Banco no apoio às famílias, às PME’s, à agricultura e aos sectores produtivos nacionais.

Acredito que o BCI deve continuar a afirmar-se como um parceiro estratégico do desenvolvimento económico de Angola, contribuindo para a inclusão financeira, diversificação da economia e para o fortalecimento do sector empresarial angolano.

Relativamente ao legado, gostaria de deixar uma instituição mais forte, mais moderna, financeiramente sustentável e reconhecida pela sua credibilidade, proximidade e capacidade de adaptação aos desafios de um sector financeiro cada vez mais exigente e competitivo.

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