1. A Casais está presente em Angola desde 1999, e Angola é um dos principais mercados internacionais do Grupo. Quais foram os marcos mais importantes da empresa em Angola, e de que forma a Casais ajudou a fortalecer o setor da construção e das infraestruturas do país?
Hélder Araújo:
A empresa estabeleceu-se em Angola em 1999. Os primeiros anos foram anos de arranque, essencialmente dedicados a criar e reforçar a capacidade da empresa e a consolidar a sua presença no país.
Ao longo das últimas duas décadas, a atividade intensificou-se de forma consistente. Estamos em Angola há cerca de 27 anos e, desde o primeiro dia, a nossa visão para o país foi e continua a ser de longo prazo.
Entrámos com o desafio e a oportunidade de desenvolver infraestruturas no país, numa primeira fase através da edificação. Esse era o nosso core, e construímos escolas, hospitais e edifícios comerciais e residenciais, com uma atuação muito forte nessa área.
A partir daí, tivemos uma evolução natural para as grandes infraestruturas: estradas, águas, energia e, mais recentemente, ferrovias.
Todo este crescimento foi acompanhado por um forte investimento na criação de capacidade instalada em Angola, não apenas na construção, mas também na indústria.
Cedo percebemos que, para garantir a capacidade de resposta, a qualidade e os prazos contratuais assumidos com os clientes, teríamos de desenvolver um conjunto de indústrias de suporte: carpintaria, estruturas metálicas, fachadas, mecânica, hidráulica e eletricidade. Criámos ainda uma fábrica de artefactos de betão para dar suporte à construção.
Hoje, mais do que uma construtora, somos um grupo económico, com presença forte na construção, na indústria e no investimento imobiliário.
Esta é uma trajetória que se tem consolidado ano após ano, e que implica reforçar capacidade em duas frentes: a componente física, equipamentos e fábricas e, sobretudo, as pessoas, preparando-as para desafios cada vez maiores.
Este tem sido o nosso percurso em Angola desde que chegámos e é com essa mesma visão de longo prazo que continuamos a olhar para o mercado angolano.
2. A Casais Angola desenvolveu capacidades industriais, logísticas e produtivas que lhe permitem servir projetos em todo o país. Que indicadores demonstram melhor a escala atual da Casais Angola em termos de projetos, força de trabalho, capacidade de execução e impacto em Angola?
Hélder Araújo:
Somos hoje, efetivamente, uma empresa nacional: temos capacidade para executar qualquer empreitada, de qualquer natureza, em qualquer parte do país.
A nossa presença estende-se de Cabinda ao Cunene. Neste momento, temos obras em curso em Cabinda, no Uíge, em Luanda, em Benguela, no Cuanza Sul e no Namibe. Essa capilaridade traduz o nosso compromisso com o Executivo e a vontade de fazer parte das soluções para os desafios do país.
A nossa atividade centra-se essencialmente na edificação e nas infraestruturas, e o contributo para o país mede-se por resultados concretos.
Vê-se, desde logo, nos hospitais que temos construído no âmbito do reforço do Sistema Nacional de Saúde, com o Ministério da Saúde, unidades com qualidade de referência internacional, vários dos quais se encontram em funcionamento.
Vê-se também nos projetos estruturantes de abastecimento de água e estradas, em Luanda e noutras províncias. É um impacto direto na vida das populações: a qualidade de vida de uma família muda no momento em que passa a ter água em casa e boas condições de mobilidade.
E vê-se nas escolas. Estamos a construir escolas em Luanda e nas províncias, o que eleva o patamar da educação das camadas mais jovens e ajuda a preparar a próxima geração.
Há ainda o indicador do emprego. Contamos atualmente com cerca de 4 mil colaboradores a trabalhar diretamente connosco, um universo que valorizamos fortemente e que é, em si mesmo, uma medida do nosso contributo.
No fundo, cada escola, hospital ou estrada gera um conjunto de mais-valias na região onde se implanta: dinamiza o negócio local e eleva aquela geografia. O nosso impacto traduz-se, de forma clara, na melhoria das condições de vida das pessoas, na geração de emprego e na criação de valor nos setores onde estamos presentes.
3. O Grupo Casais está a investir na construção sustentável, na industrialização e em métodos off-site para tornar a construção mais eficiente e previsível. Como está a Casais Angola a integrar inovação e melhores métodos construtivos nos seus projetos?
Hélder Araújo:
Esta é uma das áreas em que mais temos investido nos últimos cinco anos.
O Grupo Casais tem mais de 68 anos e está presente em 17 países. Essa dimensão dá-nos uma visão ampla e permite-nos equilibrar a experiência de mercados altamente desenvolvidos com a de mercados emergentes. Vemos a inovação como um todo: quando desenvolvemos um projeto de inovação, fazemo-lo para o grupo, e não para um país isolado. Há inovação criada em Angola que exportamos para outros países, tal como trazemos para os nossos colaboradores em Angola inovação desenvolvida noutras geografias.
No plano digital, temos investido fortemente em BIM, a modelação 3D dos projetos, e em plataformas tecnológicas de gestão e planeamento integrado. Utilizamos já robôs e inteligência artificial para recolher informação das empreitadas: temos vários projetos-piloto em que os dados das obras são transferidos automaticamente para a nossa cloud, onde a equipa de back office os interpreta e identifica melhorias. A inteligência artificial já não é futuro; é uma realidade do presente.
Em paralelo, estamos a industrializar a construção. Temos fábricas montadas na Europa e estamos a instalar uma nova unidade de construção off-site em Angola, na zona de Viana, onde concentramos os nossos polos industriais e logísticos. Elementos como escadas, pilares e vigas, bem como componentes elétricas e mecânicas, passam a ser produzidos em fábrica e seguem depois, diretamente para o local da obra. Enquanto uma parte dos trabalhos decorre em obra, outra avança em fábrica, o que encurta prazos, eleva a qualidade e reduz o desperdício, num ambiente muito mais controlado.
É, no fundo, trazer para a construção o mindset da indústria automóvel e as metodologias Lean: tudo é pensado, as máquinas, o encadeamento dos processos, a atribuição de tarefas, a supervisão, o controlo de qualidade e a logística. É uma lógica completamente diferente da produção tradicional em obra.
A inovação está também na construção modular, onde introduzimos critérios de ESG através de tecnologias híbridas que combinam diferentes materiais para reduzir a pegada ecológica, numa lógica de construção sustentável.
E não termina com a entrega da obra. Estamos a desenvolver soluções de facility management que aumentam a longevidade e a utilidade do edifício, permitindo ao utilizador monitorizar e gerir a sua eficiência energética, de utilização e de consumo de água.
Por fim, trabalhamos a economia circular e um controlo mais rigoroso da cadeia de valor, incluindo o recurso a blockchain para dar rastreabilidade à supply chain. Para nós, isto é fundamental.
4. A Casais Angola desenvolveu uma plataforma abrangente nas áreas da construção, imobiliário, ambiente, agricultura e serviços para o setor do petróleo e gás, refletindo a evolução do mercado. Que parcerias têm sido mais importantes para a Casais Angola, e onde identifica novas oportunidades para construir parcerias mais fortes no país?
Hélder Araújo:
Somos uma empresa aberta, e a parceria é um conceito bem enraizado na nossa cultura. Acreditamos que o desenvolvimento de um país se faz pela agregação de interesses e valores, sobretudo com parceiros que trazem complementaridade e nos ajudam a ser melhores.
Nessa lógica, temos construído parcerias em várias frentes.
No Oil & Gas, identificámos uma oportunidade clara: tendo capacidade instalada em Angola, criámos uma empresa do grupo que presta serviços aos grandes operadores no país, tanto onshore como offshore, em regime de parceria. É uma área já em fase de consolidação e com um negócio em forte crescimento. Vemos aqui um duplo contributo, capacitar quadros nacionais e apoiar a substituição de importações, seja de serviços, equipamentos ou materiais.
Esse é, aliás, um efeito transversal das nossas indústrias: ao transformar e produzir localmente, criamos valor no país, evitamos importações e contribuímos para melhorar a balança de pagamentos, entregando ao mesmo tempo um serviço de qualidade.
No imobiliário, tiramos partido da nossa capacidade de engenharia e da credibilidade da marca para desenvolver projetos comerciais, de escritórios, de serviços e residenciais, alguns apenas com a nossa empresa imobiliária do grupo, outros em parceria com diferentes operadores no mercado.
E, ao nível do Estado, procuramos ser um agente de transformação e um parceiro ativo do Executivo. Em vários projetos estruturantes, temos reafirmado esse compromisso trazendo soluções integradas, projeto, engenharia, financiamento e execução em regime EPC ou chave na mão, com as garantias necessárias para que sejam concluídos dentro do prazo. Assim, entregamos o produto final ao nosso cliente Estado, para que este o coloque ao serviço da nação.
Esta abertura para trabalhar com outros agentes está presente em todo o nosso ciclo produtivo e é algo que cultivamos diariamente.
5. O Grupo Casais colocou o ESG e a construção sustentável no centro da sua estratégia de longo prazo. Em termos práticos, que ações concretas está a Casais Angola a desenvolver para reduzir o impacto ambiental e construir de forma mais responsável?
Hélder Araújo:
Começando pela componente ambiental: a nossa prioridade é que as construções sejam cada vez mais sustentáveis, com forte atenção à pegada ecológica.
Para o Grupo, o ESG é um pilar estruturante. Sendo um grupo global, e à luz das novas exigências europeias em matéria de sustentabilidade, produzimos um relatório de ESG à escala do grupo e não país a país, desde há mais de cinco anos, a par do Relatório e Contas. Consolidar todas as geografias com KPIs comuns é exigente, mas garante que as práticas são idênticas em todos os países.
Em termos concretos, há um princípio de favorecer materiais e equipamentos amigos do ambiente e de valorizar a economia circular. Na execução, cuidamos dos consumos energéticos desde a fase de projeto, optando por equipamentos eficientes que reduzam o consumo dos edifícios.
Temos também investido no aproveitamento de água: em Angola, já construímos edifícios que reutilizam águas pluviais para rega, jardins, lavagens e instalações sanitárias, além de soluções com painéis solares. E estamos a desenvolver estruturas que combinam madeira e betão, a madeira em substituição parcial do betão reduz as emissões de carbono, com um sistema inovador de uma parceria com uma empresa austríaca, já aplicado em vários países.
Na dimensão social, as pessoas são o nosso principal ativo e não é uma frase feita. Somos um negócio intensivo em mão de obra: sem as pessoas, não atingimos os níveis de qualidade e eficiência que exigimos. Por isso apostamos fortemente na formação, através das nossas academias, global e em Angola, com cursos presenciais e online que abrangem todas as geografias e todos os níveis, do operacional à gestão. A língua portuguesa comum é aqui uma vantagem: os colaboradores em Angola formam-se no mesmo âmbito que os de Portugal ou do Brasil.
Ao nível do governance, alinhamos com políticas rigorosas de transparência, princípios éticos e compliance, assentes num modelo de governo com procedimentos bem definidos, níveis de reporte claros e mitigação de riscos. Como empresa presente em 17 países, há pilares que não podem variar de mercado para mercado: os princípios de ESG e os procedimentos definidos são incontornáveis e cumpridos em qualquer geografia.
6. A Casais Angola afirma apoiar causas sociais como parte da sua abordagem de responsabilidade local. Que iniciativas de responsabilidade social são mais importantes para a Casais Angola hoje, e de que forma estão a criar valor mensurável para as comunidades no país?
Hélder Araújo:
A nossa atuação social organiza-se em torno de dois eixos: as pessoas que trabalham connosco e as comunidades onde executamos obras.
Nas pessoas, a formação e a capacitação, que já referi, são a base: o objetivo é desenvolver competências, criar estabilidade profissional e preparar quadros nacionais para desafios futuros.
Nas comunidades, partimos de um princípio simples: quando chegamos a uma região, a nossa presença tem impacto e queremos que esse impacto seja positivo e duradouro. Por isso, sempre que possível, integramos pessoas locais nas nossas obras, geramos emprego e apoiamos necessidades associadas à melhoria das condições locais.
No fundo, o nosso objetivo é que cada população veja a presença da Casais como algo que cria valor. A obra não pode ser apenas uma intervenção física, tem de deixar um legado positivo na comunidade.
7. A agenda de infraestruturas de Angola está a ganhar um novo impulso, especialmente à medida que o Corredor do Lobito atrai grande financiamento internacional e atenção regional. Quais são as principais prioridades da Casais Angola para futuros projetos, crescimento e criação de valor a longo prazo?
Hélder Araújo:
A nossa é uma visão que atravessa fronteiras e se tem transmitido de geração em geração. Queremos ser uma referência em engenharia, mais do que uma construtora, um grupo económico reconhecido pela qualidade da sua engenharia, à escala global, em todos os países onde estamos.
Em Angola, a prioridade é clara: continuar a investir em infraestruturas. É onde estão os maiores desafios, mas também as maiores oportunidades, e é o que permitirá ao país alcançar um patamar de desenvolvimento diferente. Especializámo-nos, ao longo dos últimos anos, em estradas, portos, ferrovias, aeroportos, hospitais, escolas e hotéis, e é aí que vamos continuar a reforçar capacidade.
Estas infraestruturas são também a base da confiança dos investidores, nacionais e internacionais. Essa confiança constrói-se em duas frentes que se complementam: um ambiente de negócios sólido, segurança e previsibilidade nos planos político, financeiro e jurídico e a realidade no terreno, feita de boas estradas, aeroportos, hospitais, hotéis, ferrovias e portos. É um esforço conjunto, do país e dos seus parceiros, e a Casais quer ser parte ativa dele.
Compreendendo estes desafios, queremos continuar a ser um parceiro do Governo e do país na resolução dos grandes problemas estruturantes, um agente dinâmico, capaz de assumir qualquer empreitada e de a entregar nos termos previstos. É assim que se reforça a confiança dos investidores e se abre caminho para outro nível de desenvolvimento.
8. O seu trabalho com a Casais Angola está intimamente ligado ao percurso de 25 anos da empresa no país, um período marcado pela construção, pela transferência de conhecimento e pelo desenvolvimento de talento técnico angolano. Tendo em conta este percurso, de que conquistas mais se orgulha, e que legado gostaria de deixar no setor da construção em Angola?
Hélder Araújo:
Estes 25 anos foram feitos, acima de tudo, com muito trabalho de equipa.
Nenhum líder faz um bom trabalho sozinho: é preciso visão, dedicação e esforço, mas tudo se constrói com uma boa equipa.
E é dela que mais me orgulho. A equipa que a Casais construiu ao longo destes anos está preparada para os desafios que aí vêm. Dá um orgulho enorme ver pessoas que entraram no universo Casais, que aqui se formaram, encontraram oportunidades e cresceram connosco. Esse crescimento e a estabilidade dessas pessoas são fundamentais, porque o futuro da empresa, e do país, far-se-á com quem cá está.
O futuro passa também pela relação com os nossos parceiros, que tanto nos ajudaram a desenvolver a empresa, e por manter um diálogo permanente, aberto e construtivo com o Executivo. As dificuldades são muitas e não estão apenas de um dos lados. O que conta é a atitude: sermos proativos e termos a coragem de enfrentar os desafios.
A minha liderança tem sido, e continuará a ser, orientada para fazer a diferença de forma positiva.
Quanto ao legado, o maior não está nas obras ainda que as obras falem por si. Está no impacto que deixam nas pessoas. Quando um município passa a ter um hospital que dignifica a sua população, ou quando uma escola forma crianças que, daqui a uma década, serão uma geração mais preparada, isso é legado. O mesmo vale para uma estrada ou um aeroporto.
As obras ficam, mas as gerações evoluem. O maior legado que podemos deixar é garantir que esta visão permanece e que as pessoas continuam a fazer a diferença, com sentido positivo e construtivo.


































































































